Concorrência e custo alto aumentam risco de projetos de MMGD

02/09/2026

A expansão da micro e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil está aumentando os riscos de crédito dos projetos do setor, principalmente diante da maior dificuldade para renovar contratos em mercados com elevada penetração da modalidade e de custos operacionais acima do previsto. A avaliação é da Fitch Ratings, que monitora atualmente 15 emissões de projetos de MMGD solar.

Segundo a agência, a MMGD já soma mais de 51 GW de capacidade instalada em mais de 4,6 milhões de projetos e representa 17% da matriz elétrica brasileira. O avanço amplia a concorrência entre os projetos pela  contratação de consumidores e pode pressionar preços e receitas, especialmente nas regiões em que a geração distribuída já responde por parcela relevante do consumo cativo.

As áreas de concessão da Energisa Mato Grosso do Sul (EMS) e da Energisa Mato Grosso (EMT) lideram a penetração da modalidade, com mais de 40% do consumo cativo atendido por MMGD em 2025. Na Cemig, o percentual chega a 29%, seguido por Energisa Tocantins, com 28%, e Copel, com 27%.

O grupo Energisa, inclusive, deixou de autorizar novos projetos de minigeração distribuída em algumas áreas onde a rede já apresenta esgotamento ou dificuldade para lidar com o fluxo reverso de energia.

Para a Fitch, quanto maior a penetração da MMGD, maior a possibilidade de vacância dos projetos e o poder de negociação dos consumidores na renovação dos contratos, com potencial impacto negativo sobre as receitas de longo prazo.

O risco varia de acordo com o modelo de contratação. Projetos de autoconsumo remoto costumam operar com contratos de dez a 15 anos e grandes consumidores, enquanto a geração compartilhada trabalha geralmente com contratos de um a três anos e centenas ou milhares de clientes.

A pulverização da geração compartilhada pode proporcionar margens maiores, mas aumenta a exposição à inadimplência e à necessidade de renovar contratos. No autoconsumo remoto, contratos com duração igual ou superior à dívida proporcionam maior previsibilidade de receitas, mas tornam a qualidade de crédito da contraparte um fator relevante para o rating.

Risco já aparece em projetos

A Fitch afirma que o risco de renovação contratual já se materializou em dois projetos acompanhados pela agência em 2026.

Em janeiro, a agência atribuiu Perspectiva Negativa à primeira emissão de debêntures da Faro Energy Projetos Solares Holding IV após a substituição de um cliente inadimplente por outro que contratou a energia a preços inferiores. A mudança reduziu a liquidez do projeto e os índices projetados de cobertura do serviço da dívida.

Em maio, a Fitch rebaixou o rating da primeira emissão de debêntures da GY Energy Holding III após episódios recorrentes de inadimplência de uma contraparte elevarem o risco de liquidez do projeto.

Custos da MMGD acima do previsto

Além da pressão sobre os contratos, a Fitch aponta custos operacionais maiores do que os considerados inicialmente nos projetos solares de MMGD. As despesas adicionais estão relacionadas principalmente a reforços de segurança, reposição e reparo de equipamentos e gastos maiores com pessoal.

Entre os 15 ratings monitorados, sete projetos apresentaram custos operacionais médios 18% superiores aos orçados no primeiro ano completo de operação após a atribuição do rating. Em dois casos, os gastos chegaram a ficar 37% acima do previsto no segundo ano.

A recorrência de custos elevados levou a Fitch a atribuir Perspectiva Negativa às debêntures da GDPar SR Participações em Projetos Solares e da GDPar SN Participações em Projetos Solares.

Nos demais casos em que houve estouro dos custos previstos, métricas financeiras mais robustas permitiram a manutenção das classificações, segundo a agência.

Fonte: MegaWhat

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