Estudo defende reforço da transmissão e armazenamento contra riscos climáticos

15/10/2026

A transmissão de energia e a geração hidrelétrica estão entre os segmentos do setor elétrico brasileiro com maiores riscos acumulados associados às mudanças climáticas, segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Enquanto as hidrelétricas estão mais expostas à redução das chuvas e ao prolongamento das secas, a infraestrutura de transmissão enfrenta ameaças relacionadas a temporais, ventos extremos e aumento das temperaturas.

Para reduzir essas vulnerabilidades, a EPE propõe reforçar as linhas de transmissão, ampliar o armazenamento de energia e incorporar projeções climáticas ao planejamento de novos empreendimentos. As recomendações integram o Roadmap para Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro em Resposta às Mudanças Climáticas, publicado nesta quarta-feira, 14 de outubro.

O documento apresenta seis estratégias de adaptação, que abrangem desde investimentos em infraestrutura até mudanças nos procedimentos operacionais e na gestão da demanda.

Segundo a EPE, os riscos mais relevantes estão associados ao aumento das temperaturas extremas e ondas de calor, à intensificação de chuvas extremas e à maior frequência e duração das secas. Esses fenômenos podem reduzir a disponibilidade de água para geração hidrelétrica, danificar instalações de transmissão e elevar o consumo de eletricidade, especialmente para refrigeração.

No cenário intermediário analisado pelo estudo, esses impactos já apresentam classificações de risco alto no curto prazo, entre 2021 e 2040, para determinados segmentos do sistema elétrico.

A EPE destaca que os efeitos podem ocorrer simultaneamente. Ondas de calor, por exemplo, podem elevar a demanda por eletricidade em períodos de menor disponibilidade hídrica, pressionando o atendimento ao consumo. As temperaturas elevadas também podem reduzir a capacidade de transmissão de energia, agravando o desequilíbrio entre oferta e demanda.

Secas, chuvas e ventos extremos

Para as hidrelétricas, os principais fatores de risco são a redução das precipitações médias, o aumento da frequência e duração das secas e a ocorrência de chuvas extremas.

A menor disponibilidade hídrica pode comprometer a produção de energia e a gestão dos reservatórios. Já episódios de precipitação intensa podem exigir vertimentos e medidas de controle de cheias, além de provocar assoreamento e danos às instalações.

No caso da transmissão, os riscos estão principalmente associados a ventos severos, descargas atmosféricas e chuvas extremas, capazes de danificar estruturas e interromper o transporte de energia.

O estudo também identifica impactos do aumento das temperaturas sobre a eficiência dos equipamentos e a capacidade de transmissão.

Para o período de 2041 a 2060, no cenário intermediário, os danos à infraestrutura de transmissão decorrentes de chuvas e ventos extremos são classificados como risco alto. A redução da disponibilidade hídrica para geração e o aumento da demanda também aparecem nessa categoria.

Reforço da rede e ampliação do armazenamento

Entre as medidas propostas para enfrentar esses riscos, a EPE recomenda reforçar as infraestruturas existentes, utilizar equipamentos e materiais mais resistentes às condições climáticas futuras e ampliar redundâncias para reduzir a vulnerabilidade de ativos estratégicos.

O documento também defende a expansão e o reforço da rede de transmissão para preservar a continuidade do fornecimento diante dos impactos climáticos.

Outra frente é a ampliação da flexibilidade e da capacidade de armazenamento de energia, apontada como instrumento para fortalecer a segurança do suprimento e reduzir os efeito da variabilidade climática.

A EPE recomenda ainda promover a diversificação e a complementaridade da matriz elétrica, considerando as diferenças regionais e sazonais de disponibilidade dos recursos energéticos.

O objetivo é reduzir a dependência de fontes sujeitas às mesmas condições climáticas e ampliar a capacidade de resposta do sistema em situações adversas.

O roadmap também propõe fomentar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais voltados à resiliência das instalações elétricas.

Novos projetos devem considerar mudanças no clima

Uma das principais recomendações é incorporar de forma sistemática os riscos climáticos aos estudos de planejamento e às decisões de investimento no setor elétrico.

A EPE defende que a localização e o dimensionamento de novos empreendimentos considerem as condições climáticas futuras, de modo a antecipar vulnerabilidades e orientar a escolha das soluções de infraestrutura.

O documento também recomenda reavaliar as premissas e os critérios utilizados no planejamento da expansão, além de desenvolver metodologias específicas para avaliar a resiliência climática dos ativos.

A proposta representa uma mudança na abordagem tradicional de planejamento, ao considerar não apenas as condições históricas de temperatura, precipitação e disponibilidade de recursos, mas também possíveis alterações dessas variáveis ao longo da vida útil dos empreendimentos.

A EPE ressalta, contudo, que as projeções climáticas estão sujeitas a incertezas e que as decisões precisam ser robustas diante de diferentes cenários, sem perder a capacidade de adaptação à medida que novas informações se tornem disponíveis.

Resposta da demanda e redes inteligentes

O estudo também propõe ampliar os mecanismos de resposta da demanda para reduzir a pressão sobre o sistema elétrico durante períodos críticos.

Entre as medidas estão programas estruturados para redução ou deslocamento do consumo, além de mecanismos tarifários que reflitam as condições operativas e os custos do sistema, incluindo horários de ponta e situações de escassez.

A EPE recomenda expandir a integração entre consumidores e o sistema elétrico por meio de redes inteligentes e infraestrutura de medição avançada, como smart grids e smart meters.

Outra frente envolve ampliar a eficiência energética no consumo final e nas instalações elétricas, reduzir perdas técnicas e comerciais e estimular a modernização de equipamentos, edificações e processos.

As medidas procuram enfrentar especialmente os riscos associados ao aumento da demanda durante ondas de calor, quando a necessidade de refrigeração pode coincidir com condições desfavoráveis à geração e à transmissão.

Operação deverá antecipar eventos extremos

Para fortalecer a capacidade de resposta do sistema, o roadmap recomenda incorporar informações climáticas em tempo real às estratégias preventivas de operação.

A proposta é utilizar esses dados para antecipar impactos e orientar decisões operacionais antes da ocorrência de eventos extremos.

A EPE também defende a estruturação de planos e protocolos específicos de resposta a emergências, com definição de procedimentos para diferentes tipos de eventos climáticos e mecanismos de coordenação entre os agentes.

Entre as medidas estão a mobilização e o compartilhamento de equipes especializadas, a utilização de recursos móveis e a ampliação da capacidade de inspeção, reparo e restabelecimento de instalações após ocorrências severas.

O documento recomenda ainda aprimorar o monitoramento climático, expandir as redes de medição, desenvolver modelos capazes de representar melhor as condições brasileiras e integrar bases de dados climáticos e energéticos.

A articulação entre instituições do setor elétrico, órgãos de meteorologia, gestores de recursos hídricos e defesa civil também aparece como condição para melhorar a preparação e a resposta aos eventos.

Investimentos X custos para consumidores

A entidade reconhece que o fortalecimento da resiliência climática exigirá conciliar novos investimentos com a modicidade tarifária.

Segundo o estudo, as medidas de adaptação precisam considerar seus custos e benefícios, priorizando investimentos capazes de ampliar a segurança do abastecimento sem impor despesas desnecessárias aos consumidores.

O documento também identifica desafios relacionados à disponibilidade de dados, aos conflitos pelo uso da água, à evolução tecnológica e à dependência de combustíveis fósseis para garantir o suprimento em determinadas situações.

Nos sistemas isolados, eventos climáticos extremos podem comprometer equipamentos e o transporte de combustíveis, ampliando a necessidade de redundância local.

A EPE ressalta que parte das iniciativas já está em desenvolvimento no setor elétrico, mas considera necessário fortalecê-las, ampliá-las e padronizá-las para que a adaptação climática seja tratada de forma integrada.

Fonte: MegaWhat

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