Volume representa cerca de 10% do estoque de crédito corporativo no mercado
19/05/2026
Com os juros altos por um período mais prolongado do que o esperado, as empresas brasileiras renegociam, neste momento, cerca de R$ 670 bilhões de dívidas com seus credores, o que representa aproximadamente 10% do estoque total de crédito corporativo, segundo estudo da consultoria especializada em reestruturação Virtus BR, feito a pedido do Valor. No começo de 2024, antes do início do último ciclo de elevação dos juros, o volume de vencimentos a serem renegociados estava na casa de R$ 260 bilhões.
O estudo considerou que, entre as empresas listadas, há cerca de R$ 180 bilhões em renegociação, sendo o principal nome o da companhia de açúcar, álcool e combustíveis Raízen, que está em recuperação extrajudicial e em conversas com seus credores, incluindo bancos e detentores de papéis da dívida externa. Outro nome entre as companhias listadas é o da Braskem, petroquímica que precisa equacionar seus passivos e deverá, em breve, indicar o caminho a ser tomado. Recentemente, a Toky, com compromissos a serem reestruturados de mais de R$ 1 bilhão, engordou a lista das recuperações judiciais em curso no país.
O levantamento também considera, ao analisar o índice de alavancagem das companhias, o volume de dívida que muito possivelmente deve entrar em processo de renegociação, considerando o curto e o médio prazos.
O número de empresas abertas em recuperação judicial e extrajudicial é recorde, com grandes nomes que tiveram de iniciar esses processos. A lista inclui GPA e Ambipar, entre outros. Ainda dentre as companhias listadas em processo de renegociação estão Oncoclínicas, protegida contra a cobrança por meio de uma cautelar, Agrogalaxy e Lupatech.
Dentre as empresas de capital fechado, que no geral costumam ter menor acesso à liquidez, o montante estimado de dívidas em renegociação ficou em R$ 490 bilhões, conforme a Virtus.
Muitos negócios, segundo especialistas, não estão conseguindo gerar caixa para pagar o serviço da dívida. Pesquisa da RK Partners traz esse retrato em números. Conforme o levantamento, atualmente, 24% das empresas não geram caixa suficiente para arcar com os juros da dívida e 45% das companhias estão com uma alavancagem acima de três vezes considerando a métrica de dívida líquida pelo resultado antes de juros, amortização, impostos e depreciação (Ebitda). O alerta, ainda, é que 20% estão com alavancagem acima de seis vezes.
O sócio-fundador da Virtus, Douglas Bassi, diz que a tendência dos volumes financeiros segue em crescimento, ainda sob um contexto de que as taxas de juros podem não cair no ritmo esperado dado o efeito inflacionário da guerra no Irã. O executivo aponta que a busca de empresas por assessoria para reestruturação tem crescido, com destaque no agronegócio e nos setores de construção e de manufatura.
O sócio da área de reestruturação do Lefosse, Roberto Zarour, diz que os casos seguem crescentes, sendo que alguns grandes pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial acabaram afetando a cadeia em um “efeito dominó”. “Os bancos, de forma geral, estão muito preocupados, tentando alongar as dívidas das empresas, mas pedindo mais garantias”, comenta. O especialista destaca que as empresas sofrem ainda com um problema adicional de liquidez, já que estão com dificuldade de conseguir dinheiro novo para suas operações.
Giuliano Colombo, sócio da área de reestruturação do escritório Pinheiro Neto, afirma que, neste ciclo de juros altos, o problema nas empresas tem sido mais generalizado entre os diferente setores de atividade, visto que o custo da dívida, para muitas, tem se tornado impagável. Ele nota, contudo, que há uma mudança da postura das companhias, que estão tentando se antecipar aos problemas. “Há uma percepção mais realista das empresas de um problema inevitável”, comenta Colombo.
Ricardo Jacomassi, sócio da TCP Partners, ressalta que, no começo do ano, o número de processos judiciais e extrajudiciais surpreendeu e a tendência, dado o atual cenário, ainda é de crescimentos nos processos de reestruturação. “Desde o ano passado, estamos observando um ambiente de mais estresse no caixa das companhias”, afirma o especialista. “O ano deverá continuar movimentado”.
Procuradas, as empresas citadas preferiram não comentar.
Fonte: Valor Econômico




