Reforma Tributária impulsiona contratações e aumenta em 138,5% a demanda por profissionais fiscais e tributários

13/10/2026

A implementação da Reforma Tributária sobre o consumo está provocando mudanças no mercado de trabalho e ampliando a procura por profissionais especializados nas áreas fiscal, contábil, jurídica e de tecnologia. Levantamento da Assigna, empresa do Talenses Group, identificou crescimento de 138,5% nas vagas para analistas fiscais, tributários e de tax na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026. O movimento reflete a necessidade de adaptação das empresas ao novo sistema de tributação, que exige revisões de processos operacionais, contratos, preços, sistemas e estratégias de gestão.

O estudo também apontou expansão de 130% nas oportunidades para essas funções entre o primeiro e o segundo semestre de 2025, indicando que a demanda por profissionais especializados já vinha aumentando antes do início da fase de transição da reforma, em 2026.

Segundo Isis Borge, sócia-diretora da Assigna, o crescimento das contratações tem sido mais intenso entre empresas de médio e grande porte, principalmente em razão da complexidade das adaptações necessárias.

Parte dessas organizações passou a constituir comitês internos dedicados à implementação da Reforma Tributária, reunindo profissionais experientes de diferentes departamentos para avaliar impactos e coordenar mudanças.

Essa reorganização também gera necessidade de reposição de profissionais deslocados de suas funções habituais para os projetos de implementação. Ao mesmo tempo, as empresas buscam especialistas com experiência suficiente para participar de decisões estratégicas relacionadas ao novo modelo tributário.

Os dados acompanham tendência identificada pela consultoria de recrutamento Robert Half em pesquisa realizada em maio de 2025 com 100 profissionais envolvidos na adaptação à reforma. Entre as empresas que planejavam contratar, 53% pretendiam incorporar pelo menos três novos colaboradores.

Nas grandes organizações com previsão de contratação, 58% projetavam a admissão de três ou mais profissionais, enquanto 33% estimavam contratar pelo menos cinco. Entre as pequenas e médias empresas, também havia previsão de abertura de vagas, embora em quantidade geralmente menor.

A pesquisa mostrou ainda que as necessidades de contratação estavam relacionadas tanto à recomposição das equipes internas quanto à incorporação de profissionais especializados em tecnologia e à realização de diagnósticos sobre os impactos tributários.

O aumento da demanda está associado à amplitude das mudanças introduzidas pela Emenda Constitucional nº 132/2023 e regulamentadas, em parte, pela Lei Complementar nº 214/2025, posteriormente alterada pela Lei Complementar nº 227/2026.

A substituição gradual de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) modifica aspectos relevantes da tributação das operações empresariais.

A fase de transição teve início em 2026. A partir de 2027, está prevista a substituição do PIS e da Cofins pela CBS, enquanto a transição do ICMS e do ISS para o IBS ocorrerá progressivamente entre 2029 e 2032, com a implantação integral do novo modelo prevista para 2033.

Durante esse período, as empresas terão de administrar obrigações relacionadas aos sistemas tributários atual e futuro, observando as regras específicas de cada etapa de implementação.

Essa coexistência amplia a complexidade das rotinas fiscais e exige profissionais capazes de compreender não apenas as normas do IBS e da CBS, mas também seus efeitos sobre os tributos que serão gradualmente substituídos.

Para Rubens Tavares, CEO da BMS Consultoria Tributária, a reforma representa uma transformação que ultrapassa o departamento fiscal e alcança decisões relacionadas à formação de preços, margens de lucro, contratos, fluxo de caixa, sistemas de gestão e relacionamento com fornecedores.

Segundo o executivo, a consultoria contratou 60 profissionais para atender ao aumento da demanda decorrente da implementação das novas regras.

A mudança também está alterando o perfil dos profissionais procurados pelo mercado. O conhecimento técnico sobre ICMS, ISS, PIS e Cofins continua relevante, mas passa a ser necessário combiná-lo com a compreensão da nova estrutura de tributação do consumo.

Allan Fallet, sócio tributarista do Almeida Advogados, observa que as empresas buscam profissionais capazes de interpretar um sistema normativo ainda em desenvolvimento e transformar conclusões jurídicas em decisões empresariais.

Essa exigência amplia a importância de conhecimentos multidisciplinares, especialmente nas áreas de Direito Tributário, contabilidade, gestão financeira e tecnologia da informação.

Um dos principais desafios está na capacidade de avaliar os efeitos da não cumulatividade do IBS e da CBS, dos regimes diferenciados e específicos, das regras de apuração e das novas modalidades de recolhimento sobre a atividade econômica de cada empresa.

Também ganham importância as atividades relacionadas à revisão de contratos comerciais, à precificação de produtos e serviços e à projeção de impactos sobre margens operacionais e necessidade de capital de giro.

Outro campo de atuação envolve a adaptação dos sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP, às exigências fiscais estabelecidas para o novo modelo.

A integração desses sistemas com os documentos fiscais eletrônicos e com as plataformas de apuração e administração dos novos tributos demanda profissionais que compreendam simultaneamente os requisitos legais e os processos tecnológicos.

Nesse contexto, cresce a procura por especialistas em parametrização fiscal, automação tributária, emissão de documentos eletrônicos e integração de dados.

O mecanismo de pagamento dividido (split payment), previsto na Lei Complementar nº 214/2025, também está entre os temas que exigem preparação técnica, considerando sua relação com a liquidação financeira das operações e o recolhimento dos tributos.

Além dos especialistas fiscais e jurídicos, as empresas passaram a buscar profissionais responsáveis pela coordenação dos projetos de implementação.

Entre essas funções está a de Project Management Office (PMO), responsável por acompanhar cronogramas, estabelecer prioridades, coordenar equipes e monitorar as etapas necessárias à adaptação das organizações.

A estruturação de comitês da Reforma Tributária representa outra frente de atuação, especialmente em empresas que precisam integrar decisões das áreas fiscal, jurídica, contábil, financeira, comercial e tecnológica.

A necessidade de articulação entre esses departamentos está relacionada ao fato de que alterações tributárias podem repercutir simultaneamente sobre diferentes aspectos da operação empresarial.

Na advocacia, o crescimento da demanda não está limitado à consultoria preventiva. O contencioso tributário também é apontado como uma das áreas com perspectivas de ampliação.

Carolina Bottino, sócia da área tributária do Demarest Advogados, relata aumento das consultas de empresas sobre inconsistências e dúvidas relacionadas à aplicação das novas regras.

Entre as questões já discutidas está a inclusão do IBS e da CBS na base de cálculo do ICMS, tema que tem provocado controvérsias jurídicas durante a fase inicial de implementação.

Também surgem dúvidas em setores cuja tributação será modificada pelo novo modelo, inclusive em operações anteriormente não sujeitas ao ICMS ou ao ISS, como determinadas atividades de locação de bens.

A expectativa dos profissionais consultados é de que novas controvérsias administrativas e judiciais sejam desenvolvidas à medida que as regras do IBS e da CBS passem a produzir efeitos mais amplos nas operações empresariais.

Esse cenário exige atuação jurídica que considere as particularidades constitucionais e legais dos novos tributos, sem transportar automaticamente interpretações construídas para o ICMS, ISS, PIS e Cofins.

A ausência de jurisprudência consolidada sobre diversos aspectos da Reforma Tributária também aumenta a necessidade de acompanhamento contínuo dos atos normativos, orientações administrativas e decisões judiciais.

No mercado jurídico, as contratações já alcançam posições de maior senioridade. Segundo Carolina Bottino, escritórios têm ampliado a procura por advogados tributaristas plenos e seniores, especialmente para atender demandas de consultoria e contencioso relacionadas à transição.

O Demarest, por exemplo, incorporou quatro sócios à área tributária nos últimos dois anos, passando a contar com 20 profissionais nessa posição distribuídos entre seus escritórios de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.

A movimentação do mercado evidencia que a preparação para a Reforma Tributária não se limita ao domínio das novas disposições legais. As empresas precisam de profissionais capazes de identificar riscos, adaptar procedimentos, avaliar impactos econômicos e acompanhar a aplicação prática das regras.

Com a transição prevista até 2033, a demanda por conhecimento especializado tende a acompanhar as diferentes etapas de implementação, desde as adequações operacionais e tecnológicas até o desenvolvimento das controvérsias administrativas e judiciais.

Os levantamentos e relatos de mercado indicam, portanto, uma valorização crescente de profissionais que consigam integrar conhecimentos tributários, contábeis, jurídicos e tecnológicos à gestão das empresas, em um cenário de transformação gradual do sistema de tributação do consumo brasileiro. Com informações do JOTA e da Robert Half.

Fonte: Notíciais Fiscais

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