Limite à reinjeção, obrigação do escoamento, CCEE do gás; as propostas da Abegás para o próximo governo

Abegás lança agenda com 13 propostas legislativas, regulatórias e de políticas públicas, a ser apresentada aos candidatos à Presidência e ao Congresso
02/09/2026

A Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) defende que a imposição de limites à reinjeção de gás natural e a obrigação da construção de gasodutos de escoamento para novas plataformas de óleo e gás estejam na agenda prioritária do próximo governo.

A entidade lançou nesta quarta-feira (2/9) uma agenda com 13 propostas legislativas, regulatórias e de políticas públicas, a ser apresentada aos candidatos à Presidência e ao Congresso Nacional nas eleições de 2026.

Dentre elas, as distribuidoras também propõem a criação de uma Câmara de Comercialização de Gás Natural. 

O setor quer maior transparência sobre os preços praticados no mercado livre de gás e pede a publicidade integral dos contratos de suprimento no mercado livre de gás, a exemplo da transparência já existente no mercado cativo – proposta que encontra resistência nos demais elos da cadeia, entre comercializadores e consumidores industriais, por questões concorrenciais. 

A lista de propostas passa ainda por pautas recorrentes das distribuidoras, como a inclusão do gás natural nas políticas de incentivo aos data centers; políticas para substituição do diesel na frota pesada; a exclusão da classificação técnica de gasodutos; e o apoio à agenda regulatória do gas release e do acesso às infraestruturas essenciais.

“Algumas pautas são antigas porque, infelizmente, o nosso mercado demora muito para evoluir’, comentou o diretor executivo da Abegás, Marcelo Mendonça, à eixos.

Confira, a seguir, a lista das 13 propostas da Abegás:

Propostas legislativas

  • Criação da Câmara de Comercialização de Gás Natural

A Abegás propõe atribuir a comercialização de gás no mercado livre à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), órgão já existente, por meio de adequação legislativa. 

A lei 15.269/2025 já permite que a CCEE participe em outros mercados de energia e preste outros serviços, incluídas a gestão de garantias de contratos de compra e venda no ambiente de contratação livre, a gestão de registros e a certificação de energia.

A Abegás entende que é preciso garantir maior transparência sobre os preços praticados no mercado livre e pede a publicidade integral dos contratos de suprimento no segmento.

Em entrevista ao podcast gas week, o presidente da Gasmig, Gustavo De Marchi, já havia levantado essa questão, ao defender que a CCCE poderia “se ocupar da organização do mercado” e cuidar de funções como certificação de biometano e registros dos contratos no mercado livre . Assista na íntegra

  • Corredores sustentáveis: Instituir a Política Nacional de Corredores Sustentáveis, integrando postos de gás natural veicular (GNV) e biometano nas principais rotas de escoamento da safra brasileira;
  • Gás para infraestrutura digital: Garantir que as infraestruturas digitais como grandes datacenters, com elevada demanda por energia firme, possam utilizar gás como fonte;

O Senado Federal aprovou na noite desta terça-feira (1º/9) o Projeto de Lei 278/26, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), com quatro emendas de redação. Uma delas abre caminho para inserir o gás natural entre as fontes de energia aptas a abastecer os empreendimentos beneficiados pelas isenções fiscais previstas. 

  • Exclusão da classificação técnica de gasodutos: Excluir o inciso VI do artigo 7º da Lei do Gás de 2021 (Lei 14.134/2021), para preservar o direito constitucional dos estados na regulação da infraestrutura de distribuição de gás canalizado.

As distribuidoras defendem que a classificação de gasodutos não deve se dar pela definição de critérios objetivos de diâmetro e pressão, como propõe a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) – com base num comando legal da Lei do Gás de 2021 – e sim pela funcionalidade da infraestrutura em questão. 

Abegás judicializou o caso no Supremo Tribunal Federal (STF) e questiona a constitucionalidade do inciso VI do artigo 7ª da Lei 14.134/2021. O dispositivo elenca os casos em que um gasoduto deve ser classificado como de transporte e cita, dentre eles, o duto “cujas características técnicas de diâmetro, pressão e extensão superem limites estabelecidos em regulação da ANP”. 

Propostas regulatórias

  • Acesso às infraestruturas essenciais: Consolidar a regulamentação do acesso negociado e não discriminatório a gasodutos de escoamento, unidades de processamento (UPGNs) e terminais de GNL;
  • Expansão da malha de transporte: Realizar chamadas públicas coordenadas para incentivar a expansão da malha de gasodutos de transporte, substituindo a lógica de construção baseada apenas em “demanda garantida”;

Mendonça defende que é preciso acelerar investimentos em projetos já contemplados no planejamento proposto pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) no Plano Nacional Integrado das Infraestruturas de Gás Natural e Biometano (PNIIGB). 

“A gente precisa garantir a construção dos gasodutos que foram planejados. A gente vê discussões infindáveis (…) A gente já conhece quais são os gargalos de infraestrutura, então a gente precisa, prioritariamente, destravar essas agendas”

Ele cita, como exemplo, a necessidade de avançar com a construção do Gasoduto de Extrema (MG) e com a ampliação do trecho sul do Gasbol.

E defende o uso do dispositivo de contestação introduzido pela Lei do Gás de 2021. O mecanismo prevê que, no processo de autorização para construção de gasodutos, deve haver um período no qual outros transportadores possam manifestar interesse na implantação de ativos com a mesma finalidade. Caso haja mais de um transportador interessado, a ANP poderá promover processo seletivo público para escolha do projeto mais vantajoso.

“Às vezes se confunde o modelo de autorização com o modelo de concessão”.

  • Limites à reinjeção: Estabelecer critérios técnicos e econômicos que limitem a reinjeção de gás apenas ao volume estritamente necessário para a recuperação de óleo;
  • Estímulos ao escoamento da produção: Estabelecer a obrigatoriedade da construção de infraestrutura de escoamento para novas plataformas de exploração e produção de gás natural;
  • Gestor independente da malha de transporte: Estabelecer uma entidade independente para coordenar a estrutura física e comercial da malha de transporte de gás natural, como organizar o fluxo da molécula, a capacidade ociosa e contratada e o balanceamento da malha integrada de transporte de gás natural;

Mendonça cita, nesse ponto, a importância de criação de um agente independente – e não atribuir a função às transportadoras. O grande mérito do gestor, segundo ele, é garantir um supridor de última instância.

  • Gas release: Estabelecer e regulamentar, sob a coordenação da ANP, a implementação de leilões compulsórios de volumes de gás do agente dominante, sem secundarizar o princípio fundamental: o aumento da oferta de gás e o fomento à competição “gás-gás”;

Políticas públicas

Na avaliação de Mendonça, o gás precisa ser reconhecido como uma fonte da transição energética nas políticas públicas.

A Abegás defende, nesse ponto, incluir o gás natural como combustível prioritário para a substituição de óleo combustível, óleo diesel, carvão e coque de petróleo dentro do sistema de classificação oficial do governo que define quais atividades econômicas, ativos e projetos contribuem para os objetivos climáticos, ambientais e sociais (a Taxonomia Sustentável Brasileira).

  • Financiamento estratégico para distribuidoras: Criar linhas de crédito vinculadas a metas de expansão da rede de distribuição e universalização do acesso ao serviço público de gás canalizado;
  • Gás natural no Fundo Clima: Incluir o uso do gás natural no rol de projetos financiáveis pelo Fundo Clima;
  • Integração dos setores de gás e elétrico: Planejar a geração elétrica do país,  considerando o despacho de termelétricas a gás de forma estrutural, com menor flexibilidade, para lastrear as fontes intermitentes.

Nesse ponto, a Abegás não faz menções explícitas, na agenda, à contratação das térmicas locacionais – chamadas assim porque a lei de privatização da Eletrobras exigia a contratação dessas usinas em regiões pré-determinadas, em geral sem infraestruturas de gás natural, foi a forma como o Congresso conseguiu emplacar, em 2021, uma das muitas tentativas de viabilizar políticas de incentivo à interiorização da malha de gasodutos. 

A Abegás prega o conceito de adição energética – ou seja, adicionar fontes firmes para lidar com a intermitência das renováveis.

“[A térmica] funciona como mecanismo de interiorização do gás, criando âncoras de demanda para viabilizar infraestrutura até aos municípios que hoje não são abastecidos pelo gás. Então a gente continua com essa pauta, mas é importante ir mais a fundo e discutir realmente essa integração do setor de gás com o setor elétrico. Hoje a gente precisa rediscutir o setor elétrico com esse cenário novo”.

Fonte: Eixos

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