ONS mantém alerta para falta de potência até 2030 apesar do LRCap

07/07/2026

O Plano da Operação Energética 2026-2030 aponta que o Sistema Interligado Nacional (SIN) continuará sem potência suficiente para atender à demanda em momentos críticos até 2030, mesmo considerando a entrada em operação das usinas contratadas nos leilões de reserva de capacidade (LRCap).

O estudo, elaborado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), avaliou se o sistema terá energia e potência suficientes para atender ao consumo com segurança com base nos critérios definidos pela resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e os parâmetros estabelecidos pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

No cenário de referência, que tem como base o Programa Mensal de Operação (PMO) de maio de 2026, os critérios para atendimento energético permanecem dentro dos limites estabelecidos. Já a oferta de potência, necessária para atender aos picos de consumo, continua insuficiente em parte do horizonte analisado, mesmo com a inclusão das usinas contratadas nos LRCap.

Segundo o levantamento, a probabilidade de déficit de potência pode ultrapassar os limites regulatórios a partir de 2027, enquanto a perda de oferta de potência equivalente (Lope) permanece acima do limite de 5% em todos os anos avaliados. O indicador parte de aproximadamente 20% em 2027 e ultrapassa 40% em 2030.

Apesar de os leilões de reserva de capacidade terem reduzido significativamente esse risco em relação ao PEN anterior, o montante contratado ainda não é suficiente para garantir o atendimento da demanda nos horários de maio consumo.

Por isso, o ONS conclui que será necessário ampliar a disponibilidade de recursos de potência capazes de atender aos períodos críticos de demanda, especialmente em momentos de maior consumo e menor contribuição das fontes renováveis variáveis, como eólica e solar. Entre as recomendações está a realização de leilões anuais de reserva de capacidade de potência, para ampliar a oferta de potência e aumentar a segurança da operação do SIN.

Atrasos ou retirada de usinas aumentam riscos 

O PEN 2026-2030 também avaliou cenários de sensibilidade relacionados à entrada em operação das usinas contratadas nos LRCap, considerando possíveis impactos de retirada ou atraso dos empreendimentos previstos.

No cenário mais severo, que considera a retirada de todas as usinas contratadas nos certames, o estudo aponta uma redução de aproximadamente 2,9 GW de oferta em 2030, sendo cerca de 2,7 GW referentes a nova capacidade de geração e 200 MW de oferta existente. A simulação indica uma deterioração dos indicadores de suprimento energético, com violação do critério associado ao CMO nos anos de 2028, 2029 e 2030.

O ONS também analisou um cenário de postergação da entrada em operação das novas usinas contratadas. Nesse caso, a oferta disponível seria reduzida em aproximadamente 3,6 GW a partir de outubro de 2028, permanecendo nesse patamar até o final do horizonte avaliado. Além disso, haveria uma redução adicional de cerca de 1,9 GW a partir de agosto de 2029.

Embora os impactos energéticos desse cenário sejam menores em comparação à retirada integral dos empreendimentos, a postergação das usinas provoca piora nos indicadores de potência em relação ao cenário de referência, aumentando a necessidade de atenção sobre o cronograma efetivo de implantação dos projetos.

Para definir as premissas de atraso, o ONS realizou uma análise histórica dos empreendimentos contratados em leilões realizados nos últimos 15 anos, comparando os cronogramas originais de entrada em operação com as datas efetivamente verificadas.

O levantamento mostrou que apenas 10% dos empreendimentos entram em operação na data prevista, enquanto 15% dos projetos não entram em operação ao longo do horizonte analisado, representando casos de inviabilização ou paralisação das obras.

Os demais 75% dos empreendimentos apresentam algum atraso em relação ao cronograma original. Desse grupo, o estudo considerou que 30% entram com atraso de três meses, 15% com atraso de um ano e 30% com atraso de dois anos.

A análise também destaca que, entre as usinas a gás natural contratadas no último LRCap, aproximadamente 48% da potência total corresponde a empreendimentos novos, que foram justamente os projetos considerados na avaliação de postergação.

Diante dos resultados, o PEN recomenda o acompanhamento contínuo da implantação das usinas contratadas nos LRCap realizados em março, uma vez que eventuais atrasos na entrada em operação podem ampliar a necessidade de novas medidas para garantir o atendimento da demanda e a segurança de potência do SIN.

Crescimento de cargas especiais pressiona atendimento de potência

Outro cenário de sensibilidade avaliado pelo PEN 2026-2030 considerou uma expansão mais acelerada das chamadas cargas especiais, como data centers e projetos de hidrogênio verde, avaliando os impactos de uma demanda superior à prevista no cenário de referência.

Na configuração base do estudo, foram considerados na projeção de carga os empreendimentos com contratos assinados e 50% das solicitações de acesso com parecer emitido. Já no cenário de sensibilidade, o ONS considerou a entrada de 100% das solicitações de acesso com parecer emitido, ampliando a expectativa de crescimento dessas cargas. Atualmente, existem 22 contratos assinados relacionados a data centers, sendo 18 pedidos de acesso favoráveis emitidos, concentrados nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Sul.  

O aumento da demanda resultou em piora dos indicadores de atendimento do SIN, com violação do critério de suprimento energético associado ao CMO em 2029 e 2030 em todos os subsistemas avaliados.

Na análise de potência, os resultados também indicaram deterioração dos indicadores em relação ao cenário de referência, reforçando os desafios para o atendimento da demanda em períodos críticos do sistema.O estudo destaca que a expansão dessas cargas deve ser acompanhada de forma integrada ao planejamento da oferta e da infraestrutura elétrica, considerando seus impactos sobre a necessidade de capacidade, flexibilidade operativa e segurança de atendimento do SIN.

Necessidade de flexibilidade operacional

O estudo ainda indicou uma participação conjunta da geração solar fotovoltaica centralizada e da micro e minigeração distribuída (MMGD) aproximadamente 32% da matriz elétrica em 2030, volume equivalente a cerca de 88% da capacidade instalada de hidrelétricas (UHEs) no mesmo período. A previsão de crescimento de carga de energia é de 17,9%, aproximadamente 4,2% a.a.

Em contrapartida, a parcela flexível das fontes despacháveis — principalmente recursos hidráulicos e térmicos — deverá responder por aproximadamente 25% da carga do SIN em 2030, aumentando o desafio de operação em momentos de maior variabilidade da geração renovável.

Segundo dados apresentados pelo ONS, a capacidade instalada da matriz elétrica brasileira deverá crescer de 248 GW, em dezembro de 2025, para 287 GW em 2030. O avanço será liderado pela MMGD, que passará de 44,8 GW para 67,5 GW no período.

Entre as demais fontes, a capacidade hidrelétrica deverá aumentar de 101,3 GW para 103,8 GW, enquanto as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) avançam de 7,3 GW para 7,8 GW. A geração térmica deve crescer de 25,3 GW para 31,1 GW, a eólica de 34,6 GW para 36 GW, a biomassa de 15,5 GW para 16 GW e a solar fotovoltaica centralizada de 19,1 GW para 23,5 GW.

A análise histórica do ONS mostra que essa mudança já vem alterando o comportamento operativo do sistema. Desde 2022, período coincidente com a expansão mais acelerada da geração solar fotovoltaica, houve crescimento significativo das necessidades de flexibilidade prestadas pelas usinas despacháveis.

A variação diária da geração hidráulica, utilizada para acompanhar as mudanças de carga e geração renovável, passou de uma faixa típica próxima de 20 GW até 2021 para valores em torno de 30 GW nos últimos anos. Em 2025, o sistema chegou a registrar variações diárias do recurso hidráulico de até 46 GW.

Também houve aumento das rampas horárias de operação. O estudo aponta que as variações de geração hidráulica e térmica necessárias para compensar a saída da geração solar no fim do dia, que anteriormente ficavam próximas de 2 GW por hora, passaram para  valores típicos entre 7 GW e 8 GW por hora, podendo superar 10 GW/h em parte dos eventos registrados.

Fonte: MegaWhat

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