Gás de Vaca Muerta pode chegar ao Brasil em 2029, com até 10 milhões de m³/dia via Bolívia, projeta Olacde

Guido Maiulini diz à agência eixos que a rota pela infraestrutura boliviana pode entregar gás a US$ 6–6,5/MMBtu, mas depende de convergência regulatória e tarifária entre Argentina, Bolívia e Brasil
21/10/2026

O gás de Vaca Muerta pode chegar ao mercado brasileiro em 2029, em contratos firmes de 8 a 10 milhões de metros cúbicos por dia, aproveitando a infraestrutura que já existe na Bolívia.

A projeção é de Guido Maiulini, chefe de Assessoria Estratégica da Olacde (Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia, antiga Olade), em entrevista à agência eixos durante a XI Semana da Energia, realizada de 6 a 9 de outubro na capital dominicana.

O primeiro passo em todo processo de integração é usar plenamente a infraestrutura que já existe, a custo de capital zero.

A condição, ressalva Maiulini, é que a obra de transporte na Argentina saia no prazo e que os três países avancem em ajustes regulatórios e tarifários. Nesse cenário, o gás argentino seria muito competitivo, na faixa de US$ 6 a US$ 6,5 por milhão de BTU. Em um horizonte de três anos, o país já poderia chegar ao Brasil com cerca de 6 milhões de m³/dia, estima.

O gatilho: a obra da TGN

O executivo apontou como gatilho o lançamento, há cerca de duas semanas, de uma iniciativa privada da Transportadora de Gas del Norte (TGN) para construir o primeiro trecho de um gasoduto que levará o gás do sistema de Neuquén, em Vaca Muerta, ao sistema Norte.

A obra, lembrou, estava entre as etapas indicadas no relatório sobre rotas de gasodutos de integração que a Olacde apresentou em maio, em São Paulo. Segundo ele, ela habilita qualquer caminho até o Brasil: Bolívia, Uruguaiana, Paraguai ou Uruguai.

A Bloomberg Línea informou que a TGN prevê investir US$ 2,2 bilhões no gasoduto Manuel Belgrano e em obras complementares para ampliar o transporte do gás de Vaca Muerta.

A rota boliviana e o desafio tarifário

A vantagem da rota via Bolívia, segundo Maiulini, é não depender de infraestrutura nova de grande porte: os dutos já estão construídos, e o gás argentino repõe progressivamente a queda da produção boliviana para abastecer o mercado brasileiro.

Para chegar ao preço projetado, ele condiciona o cenário à otimização regulatória no Brasil e na Bolívia e às mudanças que a Argentina já vem fazendo.

No Brasil, o ponto central é a convergência tarifária, para que o gás importado não parta em desvantagem. Qualquer redução nas tarifas de transporte, afirma, beneficiaria todo o mercado de gás e a demanda.

Reguladores trabalham em agenda técnica

No curto prazo, a Olacde mantém desde o ano passado, a pedido dos países, reuniões trilaterais entre reguladores de gás da região. A pauta é técnica: qualidade do gás, metrologia, produtos comerciais, nominações e despacho.

O objetivo, diz Maiulini, não é harmonizar regras, mas garantir interoperabilidade. A meta é ampliar o comércio intrarregional nas janelas de primavera e outono, quando a Argentina tem abundância de gás.

Os tempos dos Estados e da diplomacia nem sempre são os tempos do mercado.

Segundo ele, os três mercados caminham para a convergência. O Brasil abre o mercado de gás e busca mais concorrência.

A Argentina, afirma, encerra o Plano Gas em 1º de janeiro de 2029, o que acaba com o preço mínimo de exportação.

A Bolívia discute um novo modelo para quebrar o monopólio da YPFB e permitir que qualquer agente contrate transporte firme por meio de open season.

Novos investimentos exigem regras multilaterais

O primeiro passo da integração, diz Maiulini, é ocupar plenamente a infraestrutura existente. Novos projetos, com capital elevado e amortização de décadas, exigem outro patamar: regras multilaterais que deem segurança aos investidores.

A Olacde apoia o grupo de trabalho do Mercosul que trata de energia e, em novembro, a reunião ministerial em Montevidéu deve concluir o desenvolvimento de um projeto e dar continuidade a estudos técnicos de convergência regulatória.

O executivo lembrou que o Cone Sul tem um histórico de processos de integração energética e gasífera frustrados. Brasil e Argentina já emitiram um relatório bilateral, com participação das chancelarias e dos ministérios de energia, indicando que a integração gasífera deve ser discutida no âmbito do Mercosul para criar um mercado regional.

Essa discussão, diz, ainda não começou, deve começar em breve e pode levar tempo.

Os problemas latino-americanos são os mesmos em todos esses países.

Maiulini se disse convencido de que há oportunidade para oferecer as garantias e construir os acordos, abrindo um novo ciclo de investimento baseado em energia mais econômica, em um contexto de fortalecimento da autonomia energética da região.

Além do gasoduto

A Olacde também estuda integração por gasodutos e complementaridades em fertilizantes e em gás natural veicular. No fim de outubro, Buenos Aires recebe um evento regional sobre GNV, para analisar como ampliar o uso do gás no transporte e reduzir a dependência de diesel importado.

A Semana da Energia, em sua 11ª edição, reuniu em Santo Domingo ministros dos 27 países-membros da Olacde, segundo a organização, além de agências de cooperação e bancos de desenvolvimento (El Dinero). Para Maiulini, o encontro habilita uma agenda mais abrangente e colaborativa para toda a América Latina e o Caribe, porque os problemas são semelhantes.

Fonte: Eixos

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