Executivo que comanda o Rosewood Hong Kong fala sobre o turista de alta renda e sua gestão no melhor hotel do mundo, segundo o The World’s 50 Best Hotels
24/04/2026
O turista de alta renda busca privacidade e, ao mesmo tempo, fazer parte de um grupo. Exige um serviço excepcional, mas também humanizado e acolhedor. E quer viver experiências autênticas, com segurança. O retrato é de Hugo Montanarini, que comanda há três anos e meio o Rosewood Hong Kong, o melhor hotel do mundo, segundo o The World’s 50 Best Hotels.
Ao Valor, o diretor-geral que veio a São Paulo para apresentar o hotel às agências de viagem e também conhecer o Rosewood São Paulo, posicionado em 24º lugar no mesmo ranking, contou algumas de suas estratégias.
Montanarini tem focado em uma das principais tendências da hotelaria de luxo que é “trabalhar na percepção de valor” por parte do hóspede. “Não basta dizer que é luxo e cobrar US$ 3 mil por uma diária”, diz. “O serviço precisa ser excepcional. Temos, por exemplo, 45 mordomos para atender as 413 acomodações e conseguimos criar uma experiência de um de um a um para os hóspedes.”
O executivo segue outra tendência do setor na sua filosofia de gestão. “O hóspede quer ter uma forte sensação de privacidade ao viajar. Quer se sentir parte de algo, mas também ficar sozinho. Cada andar do hotel é uma experiência diferente, isso permite que o cliente se sinta único em todas as camadas de experiência e tenha contato individual com minha equipe.”
E como isso se reflete nos preços cobrados? “Praticamos tarifas 20% superiores aos demais hotéis da mesma categoria na cidade e temos uma ocupação média de 75%. Todos os dias eu e a equipe temos de garantir que o hóspede sinta o valor em cada momento dele no hotel, de forma que nada vai ser entendido como caro.”
Mesmo assim, as tarifas do cinco estrelas começam em US$ 650, a depender da estação, um valor bem abaixo dos hotéis de mesma categoria na Europa, por exemplo. “Isso se reflete no nosso resultado. Quando cheguei há três anos e meio, alimentos e bebida respondiam por 65 % do total [do faturamento].”
Hoje, isso se inverteu. “As acomodações passaram a representar 65% e isso é um bom sinal, porque a margem [de lucro] é maior com os quartos.” Além disso, diz, o spa com produtos da marca francesa Guerlain também passou a ser representativo no faturamento do hotel.
Depois de ocupar a segunda e a terceira posições nos dois anos anteriores, o Rosewood Hong Kong foi alçado ao posto de melhor hotel do mundo em 2025 pelo The World’s 50 Best Hotels, uma escolha feita por 800 especialistas, viajantes e jornalistas de vários países.
A trajetória do hotel, que ocupa 43 dos 63 andares de um edifício monumental de 270 metros de altura com vista para o skyline e o porto da cidade, começou com Montanarini, em 2022.
O ítalo-francês, formado pela École Hôtelière de Lausane, tem mais de 20 anos em hotelaria de luxo, em cargos de liderança no Fairmont, em Dubai, no Plaza Hotel de Nova York, The Ritz-Carlton Hotel Company em Bangalore, Sanya, Tianjin e Marrocos. Antes do Rosewood, estava à frente do Jayasom (parte do grupo Chivasom) em Ibiza, um resort de saúde e bem-estar.
Em sua primeira vez no Brasil, o executivo está em São Paulo para, segundo ele, aprender. “Cultivamos esse senso de lugar, o Rosewood está integrado a Hong Kong de várias formas, com a valorização da arte, da cultura, da gastronomia e imersões na cidade, assim como o hotel de São Paulo. O trabalho que foi feito aqui repercute positivamente em todos os hotéis da rede ”, disse ele.
Para inovar e exercer sua filosofia de trabalho, Montanarini tem a facilidade de estar próximo a Sônia Cheng, CEO da rede de hotéis Rosewood, com sede em Hong Kong. Com 58 hotéis luxuosos no mundo, a rede pertence a um fundo investimento de capital fechado da família bilionária Cheng, o Chow Tai Fook Enterprises. Em dezembro, a agência Bloomberg noticiou que o magnata Henry Cheng, pai de Sônia, estaria em negociações para vender alguns dos ativos da cadeia hoteleira e gerar fluxo de caixa em seu abalado império imobiliário, o New World Development. A informação foi negada pelo grupo. De qualquer forma, o Rosewood Hong Kong é um ícone para a companhia e foi avaliado em US$ 2,04 bilhões.
Um dos efeitos da projeção por ser eleito o melhor hotel do ranking tem sido a presença crescente de uma clientela internacional, inclusive de brasileiros. Até outubro de 2025, quando o hotel foi premiado, “80% do nosso público era de chineses. Agora, Brasil, México, Estados Unidos, Rússia e Oriente Médio fazem parte do mix, chegando a 45% do total”, diz Montanarini.
Outro fator de atração do lugar é a operação gastronômica. São onze restaurantes e bares, com ambientes e cozinhas distintas, dois deles com uma estrela Michelin, e que são distribuídos entre os andares. “Cada restaurante e bar tem seu próprio gerente, chef e equipe, canais distintos de comunicação e marketing para garantir a identidade própria.”
Em geral, os brasileiros conhecem o Rosewood São Paulo e vão com a mesma expectativa para o hotel em Hong Kong. “Eles estão viajando mais para o Sudeste Asiático e muito para o Japão. Hong Kong é um ótimo lugar para começar ou encerrar a viagem, pois tem ótimas conexões com o resto do mundo. O aeroporto é um hub muito bom, com três pistas principais.”
Há também a guerra no Irã, que impactou na região e tem feito com que os viajantes procurem outros destinos no Oriente. “Essa é uma situação muito lamentável, e espero que isso acabe o mais cedo possível. Dito isso, Hong Kong tem visto um aumento significativo como destino. As pessoas não estão parando de viajar, elas apenas estão procurando um caminho alternativo ou vindo diretamente para Hong Kong.”
Só em março, diz, houve um aumento de 53% nos viajantes de negócios. “Em abril, estamos observando o mesmo crescimento deste público no hotel”, diz. Montanarini. E executivos e CEOs das indústrias têxtil, automobilística, financeira ou de logística, passaram a frequentar o hotel. “Hong Kong teve o ano passado mais IPOs que qualquer outra bolsa de de valores do mundo, foram mais de 300”, diz.
Montanarini tem investido também na criação de vivências na cidade, com o acompanhamento de “embaixadores culturais” do hotel. “São mais de 76 restaurantes com estrela Michelin na cidade, mas a comida de rua de Hong Kong também é maravilhosa e queremos que os hóspedes descubram isso.”
Montarini observa que “andar nas ruas de Hong Kong é muito seguro. Meus filhos de 13 e 14 anos fazem tudo de transporte público. Hoje em dia, a segurança é uma parte fundamental do motivo pelo qual as pessoas viajam.”
Fonte: Valor Econômico


