Outubro é o mês de maior venda de diesel no Brasil, mas com a Rússia fora do jogo, o volume já contratado depende dos EUA. Wright diz que proibição de exportação não funciona
23/09/2026
A ameaça do presidente norte-americano, Donald Trump, de proibir as exportações de diesel chega a poucos dias do mês mais pesado do abastecimento brasileiro. Outubro é o mês de maior venda de diesel em quatro dos últimos sete anos, incluindo 2024 e 2025, quando bateu o recorde histórico de 6,43 milhões de m³, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O diesel que sustenta esse pico vem hoje dos Estados Unidos: 68% das importações brasileiras de julho e agosto, segundo o Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Segundo informações de mercado, as encomendas para outubro são da ordem de 80% dos EUA.
Trump afirmou na terça (22/9) que defendeu a membros do governo suspender as exportações para conter os preços internos, em recorde.
“Eu disse: não vamos mandar diesel para fora. Produzimos muito diesel”, afirmou. “Estamos analisando se isso é viável, do ponto de vista da capacidade geral de refino, e se uma proibição total ou parcial funcionaria.”
A ideia divide o governo. Nesta quarta (23/9), o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse que a proibição não funcionaria e elevaria os preços da gasolina e do querosene de aviação, porque as refinarias ficariam sem onde estocar diesel e teriam de reduzir o processamento.
“O instrumento bruto de proibir as exportações de diesel definitivamente não funciona”, afirmou, em evento da revista The Economist em Nova York, segundo a Reuters.
O governo estadunidense trabalha com as refinarias numa solução “voluntária e cooperativa” e fará anúncios nos próximos dias, disse Wright. As eleições legislativas nos EUA são em 3 de novembro.
Importadores já dependem dos EUA em 80%
Para os importadores brasileiros, a dependência é ainda maior do que a média.
Em setembro, 80% do diesel importado pelo país veio dos EUA, segundo Sérgio Araújo, da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).
“Se o Trump proibir as exportações de diesel, os importadores brasileiros terão grande dificuldade para continuar com as operações”, disse à eixos.
A alternativa natural não existe mais: “Infelizmente, a Rússia, que seria uma alternativa, está fora do jogo”.
Há um segundo risco, doméstico. A parcela de R$ 1,12 por litro da subvenção ao diesel caduca em 26 de setembro; sem renovação, os importadores privados perdem apetite para comprar, e o produto pode faltar em novembro, segundo Araújo.
EUA pegaram oferta da Rússia; alternativas são limitadas
De 2017 a 2025, as vendas de diesel em outubro ficaram, em média, 10% acima da média mensal, o maior desvio do calendário.
A dependência dos EUA cresceu porque a outra fonte secou. A Rússia, que forneceu 47% do diesel importado pelo Brasil em 2025, proibiu a maior parte das exportações em julho, depois dos ataques ucranianos às suas refinarias, e deve estender a medida além de setembro, segundo a Bloomberg (Investing.com).
Os embarques russos ao Brasil caíram de 909 mil toneladas em abril para 56 mil em agosto; os norte-americanos subiram de 90 mil para 721 mil.
Sem os dois, sobram Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Índia e Omã, que juntos responderam por 16% das importações deste ano e ficaram meses sem embarcar por causa da guerra no Oriente Médio. Só a Índia voltou com volume em agosto.
Quem sustenta a maior parte do abastecimento hoje é a Petrobras. Em agosto, a estatal respondeu por 86% do diesel entregue às distribuidoras, a maior fatia da série da ANP, contra 77% em julho.
Os importadores privados, que compravam o russo barato, caíram de 13% para 5%: Blueway (Raízen), ON Petro e Nimofast não entregaram nada; só a Oil Trading, da Ipiranga, manteve volume.
De acordo com dados da ANP disponíveis nesta quarta (23/9), a Petrobras desembaraçou 68% de tudo o que o país importou, dos EUA e da Índia; nunca comprou diesel russo. A demanda não caiu: as vendas de diesel B cresceram 1% de janeiro a agosto.
A estatal, porém, reduziu o ritmo das importações em setembro, com a disparada dos preços, e atende 73% dos pedidos das distribuidoras nos polos gaúchos, como mostrou a eixos. O governo já gastou R$ 47 bilhões em subvenções aos combustíveis, segundo Lula, e Magda Chambriard prometeu no próximo plano de negócios uma meta de autossuficiência em diesel.
Fonte: Eixos



