A Axia Energia investe R$ 20 milhões em projeto de usina heliotérmica em Petrolina (PE) para integrar a um data center, buscando otimizar o resfriamento de equipamentos e a eficiência energética.
01/06/2026
A Axia Energia aprovou um projeto de aproximadamente R$ 20 milhões para integrar sua planta solar híbrida de torre central de alta concentração (HCPV, na sigla em inglês), conhecida como usina heliotérmica, a um data center em Petrolina, no Pernambuco.
Essas plantas solares usam espelhos para concentrar a luz do sol no alto de uma torre, aumentando a eficiência da geração e permitindo a combinação com outras tecnologias. A planta piloto da Axia Energia é a segunda do mundo a utilizar a tecnologia da startup australiana RayGen.
A ideia da solução é estudar a aplicabilidade do sistema e seus impactos na operação de um sistema de data centers. No entanto, executivos da empresa avaliam que a tecnologia pode, futuramente, competir tanto com sistemas de armazenamento em baterias químicas (BESS) quanto com usinas termelétricas em aplicações que exigem flexibilidade e despacho de energia.
A planta piloto de HCPV já recebeu mais de R$ 74 milhões em investimentos até 2026. Desse total, R$ 67,9 milhões foram financiados por recursos do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), enquanto R$ 6,85 milhões correspondem à contrapartida da empresa.
A unidade possui capacidade instalada de 1 MW de geração elétrica e produz 2,2 MW de energia térmica recuperada por meio de circuitos fechados de água. A planta entrou em operação em 2026 e, além de estudo de aplicações voltadas à indústria alimentícia, passará a testar o uso da energia térmica para alimentar sistemas de refrigeração destinados ao resfriamento de servidores e equipamentos de processamento de dados em data centers.
O projeto utiliza a tecnologia de chiller de absorção, equipamento capaz de converter calor em refrigeração. Nesse processo, a água aquecida proveniente do sistema solar é utilizada para produzir água gelada, que pode ser empregada na climatização de instalações industriais e, principalmente, de data centers.
Segundo Juliano Dantas, vice-presidente de Tecnologia e Inovação da Axia Energia, a combinação entre uma usina solar concentrada e um data center cria um ambiente altamente sinérgico. Isso porque a refrigeração representa uma das maiores demandas energéticas dessas instalações, especialmente em estruturas voltadas à inteligência artificial, computação em nuvem e processamento de grandes volumes de dados.
Um dos principais indicadores de eficiência do setor é o PUE (Power Usage Effectiveness), métrica que mede a relação entre a energia consumida pelos equipamentos de tecnologia da informação e o consumo total da instalação. Em um data center com PUE de 1,5, por exemplo, para cada 1 GW destinado à operação de servidores, GPUs e CPUs, outros 500 MW são consumidos pelos sistemas de resfriamento.
Para o executivo, a busca por índices cada vez menores de PUE tem impulsionado o desenvolvimento de tecnologias como liquid cooling e sistemas avançados de climatização. Nesse contexto, o aproveitamento do calor gerado pela usina solar para produzir refrigeração pode reduzir significativamente o consumo energético associado ao resfriamento dos equipamentos.
O projeto aprovado prevê a construção integrada do sistema de chiller de absorção e do data center, permitindo validar o conceito de utilização da energia térmica para refrigerar infraestrutura digital de alta densidade computacional.
“Nós vamos instalar o projeto de data center junto com baterias também para ter controle do despacho e entender melhor a operação do centro de dados. No momento, podemos injetar toda a energia na rede e operar como uma planta fotovoltaica convencional ”, explicou Rodrigo Vilaça, gerente de P&D Renováveis da Axia Energia.
Segundo o executivo, o projeto-piloto alcança eficiência energética total próxima de 90%, sendo cerca de 30% proveniente da geração fotovoltaica e 60% da geração térmica. Em comparação, uma usina solar fotovoltaica convencional costuma apresentar eficiência entre 20% e 22%.
Além da RayGen, o projeto contou ainda com parceria da SLB Global (antiga Schlumberger), que investiu na RayGen e trouxe a tecnologia para o Brasil. O projeto foi implementado pela empresa brasileira HuGreen, EPCista (sigla em inglês para Engenharia, Suprimentos e Construção), que está operando a planta com a Axia Energia e pode replicar o modelo mais adiante.
O arranjo é formado por uma torre central de 40 metros de altura cercada por 247 heliostatos com rastreamento automático, responsáveis por concentrar a radiação solar em um receptor instalado no topo da estrutura. Nesse receptor, módulos fotovoltaicos de multijunção de alta eficiência convertem a luz solar concentrada em eletricidade com desempenho superior ao da fotovoltaica convencional. Ao mesmo tempo, o calor excedente é capturado e armazenado, viabilizando aplicações térmicas e estratégias de armazenamento de longa duração.
Juliano Dantas afirma que o principal concorrente da tecnologia é a combinação entre usinas solares fotovoltaicas e sistemas de armazenamento por baterias (BESS). Segundo ele, a comparação não deve ser feita com uma planta solar convencional, que gera energia apenas durante o período de insolação, mas sim com soluções capazes de armazenar energia e despachá-la quando necessário.
Nesse cenário, a tecnologia da Axia se mostra competitiva, especialmente em aplicações que exigem armazenamento de longa duração. Enquanto sistemas solares com baterias químicas normalmente oferecem entre duas e quatro horas de armazenamento, a planta piloto consegue armazenar energia térmica por até três dias e realizar despachos de até 17 horas consecutivas, ampliando sua flexibilidade operacional e sua capacidade de atendimento à demanda.
Rodrigo Vilaça também comentou sobre a competitividade da tecnologia em futuros leilões de armazenamento de energia. Segundo ele, a planta ainda não se enquadraria no desenho esperado para o primeiro leilão de baterias, que deverá contemplar principalmente soluções com até quatro horas de armazenamento. No entanto, a expectativa é que tecnologias de longa duração ganhem espaço à medida que o sistema elétrico brasileiro passe a demandar mais flexibilidade e segurança operativa.
Nesse contexto, o executivo avalia que a solução da Axia não apenas competiria com sistemas de baterias convencionais, mas também poderia disputar espaço com usinas termelétricas na prestação de serviços de capacidade, confiabilidade e despacho de energia.
Dantas acrescentou que a expansão desse tipo de projeto dependerá também da evolução dos sinais econômicos e regulatórios do setor elétrico.
Segundo ele, é necessário criar mecanismos que reconheçam e remunerem atributos como geração simultânea de energia elétrica e térmica, armazenamento de longa duração, inércia para o sistema e capacidade de despacho sob demanda.
“Essa planta oferece atributos importantes para o sistema elétrico, como inércia, energia despachável e armazenamento térmico, o que nos permite entregar energia quando for necessário. À medida que a regulação evoluir para reconhecer e valorizar esse atributos, a implementação desse tipo de solução tende a se tornar mais viável. Com o aumento da demanda do sistema por flexibilidade, confiabilidade e capacidade de despacho, estaremos preparados, porque essa é uma tecnologia que já dominamos e colocamos em prática”, afirmou.
Mineração de bitcoin e sistema microgrid
A companhia também estuda a integração de data centers ao Complexo Eólico Casa Nova, localizado no município de Casa Nova, na Bahia.
No local, a Axia implementou o Projeto de Pesquisa & Desenvolvimento denominado Planta Híbrida Inteligente, que reúne investimentos superiores a R$ 85 milhões até 2026. O empreendimento integra geração eólica, geração solar fotovoltaica, sistemas de armazenamento em baterias (BESS), carga de teste e um data center voltado à mineração de bitcoin.
Além da infraestrutura física, o projeto desenvolve inteligência computacional e sistemas avançados de controle para otimizar o uso combinado das fontes renováveis, aumentar a estabilidade operacional e maximizar resultados econômicos, ao mesmo tempo em que busca gerar benefícios ambientais e sociais.
A Planta Híbrida Inteligente é composta por uma usina solar fotovoltaica de 1 MW com módulos bifaciais e rastreamento solar, um aerogerador de 1,5 MW, um sistema BESS com potência de 1 MW e capacidade de armazenamento de 1,4 MWh, um data center de 1 MW e uma carga de testes RLC de 1,6 MVA.
Um dos principais objetivos da iniciativa é contribuir para a otimização do aproveitamento energético no Nordeste, região que concentra elevado potencial eólico e solar, mas enfrenta desafios relacionados a restrições de transmissão e cortes de geração, conhecidos como curtailment. A integração entre armazenamento e cargas flexíveis permite reduzir essas perdas e aumentar a eficiência do sistema elétrico.
Projetado para operar tanto de forma autônoma, por meio de uma microrrede formada pelas usinas solar e eólica, quanto conectado às redes de distribuição e transmissão, o projeto está sendo implantado em escala controlada e conta com a participação do Senai Cimatec, Senai RN ISI-ER, Senai PE ISI-TIC e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Para a Axia Energia, o projeto também fortalece o conjunto de empreendimentos que compõem o Complexo Eólico Casa Nova, formado pelas usinas Casa Nova II, Casa Nova III, Casa Nova A e Casa Nova B. O portfólio soma 115,1 MW de potência instalada, dos quais 88,1 MW já estão em operação. Atualmente, a companhia executa as obras da eólica Casa Nova B, com conclusão prevista para agosto de 2026 e entrada em operação estimada para setembro de 2027.
BESS em hidrelétrica
A Axia Energia também possui, no reservatório de Sobradinho, na Bahia, uma planta piloto de geração solar fotovoltaica flutuante integrada a sistemas de armazenamento em baterias (BESS), estruturada como uma plataforma avançada de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação para validação de tecnologias emergentes em ambiente real.
O projeto é composto por uma usina de 0,8 MWp, com geração média de 1,3 GWh por ano, incorporando sensores IoT para monitoramento contínuo e estudos de desempenho. A planta também conta com integração inteligente à rede de distribuição em média tensão, contribuindo para aumentar a confiabilidade do sistema e otimizar o despacho energético.
Fonte: MegaWhat




