Avanço da geração distribuída desafia setor elétrico

Energia gerada apenas no período com luz solar obriga sistema a colocar usinas mais caras e poluentes em operação no horário de pico da noite
23/02/2026

O governo federal projeta que a geração distribuída, formada sobretudo por painéis solares instalados em residências, deve praticamente dobrar na matriz elétrica brasileira na próxima década. Mas, ainda que se trate de uma fonte renovável e que pode ajudar na transição energética, especialistas apontam que o avanço impõe desafios à operação do sistema elétrico. Entre eles, está o acionamento de usinas mais poluentes e caras em horários de pico de consumo de energia. Além disso, os especialistas afirmam que as projeções do governo podem estar subestimadas, o que tem potencial para gerar problemas ainda maiores no futuro. O governo também acompanha o tema com preocupação.

A capacidade instalada de micro e minigeração distribuída (MMGD) pode saltar de 40 gigawatts (GW), registrados em 2025, para 78 GW em 2035, segundo o cenário de referência do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035). O plano está em consulta pública pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

O segmento que permite que o consumidor produza a própria energia vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos, impulsionado por financiamento e regras flexíveis. Esses fatores permitem a geração remota e um modelo de compensação de créditos considerado favorável. Até dezembro de 2024, a MMGD respondeu por 5,6% da geração total de eletricidade no Brasil.

A tendência, segundo o PDE, é de continuidade dessa expansão. O governo elaborou três cenários para o período e, em todos eles, há crescimento do segmento, mesmo com a previsão de encerramento, a partir de 2029, de descontos nas tarifas de distribuição aplicáveis a parte dos sistemas. No cenário superior, a capacidade instalada pode chegar a 97,8 GW em 2035. A contratação de outras fontes pelo governo é feita com base em informações de demanda, enquanto no caso da MMGD basta o consumidor querer instalar. Isso faz com que o crescimento do segmento ocorra, na prática, sem acompanhar a demanda.

Uma das consequências negativas da expansão é que a geração solar fotovoltaica se concentra nas horas de maior incidência solar, especialmente à tarde. Com o pôr do sol, há uma queda rápida na produção, o que exige o acionamento de outras fontes de energia, inclusive usinas poluentes movidas a combustíveis fósseis e mais caras. Mas o desequilíbrio também contribui para agravar os cortes de geração de energia, os chamados “curtailments”, que trazem prejuízos para o sistema.

O professor e coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel-UFRJ), Nivalde de Castro, destaca que, diferentemente dos leilões realizados pelo governo para outras fontes – nos quais a contratação é baseada em projeções técnicas de crescimento da demanda -, a decisão de instalar sistemas de geração distribuída parte do investidor ou do consumidor residencial.

“Estamos ampliando a capacidade instalada sem aumentar a demanda e substituindo a demanda atendida pelas distribuidoras, que têm um portfólio de contratos de longo prazo. E a tendência é cada vez mais pessoas instalarem painéis, pois a tarifa no mercado regulado cresce acima da inflação. Então, possivelmente vai crescer mais do que o previsto”, diz.

Nesse contexto, a avaliação é que os desafios enfrentados hoje pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tendem a se intensificar nos próximos anos. Segundo o especialista, devem aumentar os cortes por razões energéticas e as dificuldades para atender ao consumo no fim da tarde e início da noite.

Na mesma linha, Luiz Ciocchi, ex-diretor-geral do ONS, ressalta que, caso o cenário de referência se concretize, aumentará a necessidade de fontes capazes de garantir o suprimento. No entanto, explica que fontes despacháveis sobre as quais o operador tem maior controle, como hidrelétricas e termelétricas, e até mesmo eventual expansão de sistemas de armazenamento por baterias não tendem a avançar na mesma velocidade.

“O crescimento da geração distribuída, dentro dos conceitos utilizados, era sempre marginal. Isso se tornou elemento estruturante da operação do sistema elétrico brasileiro. O setor, se quiser ter uso dessa energia, terá que ter resposta para a operação desses sistemas para o futuro”, diz.

Nesse contexto, ganham espaço alternativas como sistemas de baterias para armazenamento, previstos no Plano em 7 GW até 2035, e usinas hidrelétricas reversíveis. Mas elas não eliminam o problema, apenas atenuam os efeitos. Eventual inclusão da geração distribuída nos cortes de geração também traz desafios, uma vez que o operador não tem controle direto sobre esses sistemas.

O presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), José da Costa Carvalho Neto, defende que os benefícios que a MMGD traz ao sistema elétrico devem ser considerados. Segundo ele, a produção próxima ao ponto de consumo reduz a necessidade de expansão da infraestrutura de escoamento, ao diminuir a transmissão por longas distâncias, e de perdas elétricas. Apesar de reconhecer os desafios, o dirigente diz que há alternativas para mitigá-los.

“Estamos vendo o casamento perfeito: a geração distribuída com o armazenamento. Já propusemos às autoridades a MMGD com esses sistemas, que é competitiva frente a outras soluções como térmicas, hidrelétricas reversíveis e armazenamento centralizado. Podemos armazenar energia e entregar ao sistema nos horários de maior necessidade. Isso tem um custo, mas esse custo é menor do que prejuízo com cortes de geração”, avalia.

A análise desses impactos está no radar do Ministério de Minas e Energia, que acompanha o avanço da MMGD com preocupação e avalia medidas para mitigar os efeitos sobre o sistema, segundo apurou o Valor. A avaliação é que dificilmente o cenário será revertido, mesmo com a limitação de subsídios ao segmento a partir de 2027. A situação também é acompanhada pelo ONS, com o intuito de avançar em aprimoramentos regulatórios, como o maior controle dos geradores distribuídos, para facilitar a gestão.

Fonte: Valor Econômico

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