Crise do gás impulsiona carvão e leva demanda global a recorde

17/09/2026

A alta dos preços do gás provocada pela crise no Oriente Médio ampliou o uso de carvão na geração elétrica em países da Ásia e da Europa e levou a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) a reverter sua previsão para o consumo global do combustível em 2026. A agência agora projeta alta de 1,2%, para o recorde de 8,94 bilhões de toneladas.

No fim do ano passado, a IEA esperava uma pequena queda da demanda neste ano. O cenário mudou com a redução dos fluxos de gás natural liquefeito (GNL) pelo Estreito de Hormuz, que elevou os preços do gás e tornou o carvão mais competitivo em sistemas elétricos que ainda dispõem de térmicas movidas pelos dois combustíveis. O efeito aparece em mercados como China, Coreia do Sul, Japão e Europa.

A crise afeta o mercado de carvão de forma indireta justamente pela alta do preço do gás. A geração de eletricidade responde por cerca de dois terços do consumo mundial de carvão, o que amplia o impacto de mudanças na diferença de preço entre os combustíveis.

A previsão também foi elevada por causa de um El Niño mais intenso, que tende a aumentar a demanda por eletricidade para refrigeração e reduzir a geração hidrelétrica em partes da Ásia. Índia e Vietnã estão entre os países onde essas condições podem ampliar o uso de térmicas a carvão.

Japão e Coreia recorrem mais ao carvão

Na Coreia do Sul, a IEA prevê aumento de 6% na demanda por carvão em 2026, para 119 milhões de toneladas, revertendo uma expectativa anterior de queda. A geração a carvão cresceu 30% no primeiro trimestre na comparação anual, em meio à menor disponibilidade de usinas nucleares e ao gás mais caro. A retomada de reatores ao longo do ano pode reduzir esse ritmo.

No Japão, o consumo total ainda deve cair 1%, para 161 milhões de toneladas, devido à retração no setor industrial. Na geração elétrica, porém, o uso de carvão ficou acima do que a agência projetava anteriormente, sustentado pelo aumento do preço do gás e por uma mudança regulatória que retirou restrições para o recebimento de pagamentos de capacidade por térmicas a carvão.

A União Europeia também continua em trajetória de redução do consumo, mas em ritmo mais lento que o previsto anteriormente. A demanda deve chegar a 276 milhões de toneladas neste ano, com o gás mais caro sustentando temporariamente o uso de carvão em países como Alemanha e Polônia, que ainda possuem capacidade disponível de geração pelos dois combustíveis.

Na China, maior mercado mundial, a demanda deve crescer 1% e chegar a cerca de 5 bilhões de toneladas. O aumento do consumo de eletricidade, a menor geração eólica em alguns períodos e o GNL mais caro sustentaram o uso de carvão no setor elétrico, apesar da expansão acelerada das fontes solar e eólica.

A Índia deve registrar uma alta maior, de 4,2%, para 1,35 bilhão de toneladas, puxada pelo crescimento da demanda elétrica e pelo consumo industrial, principalmente na produção de ferro e cimento.

Alta pode perder força em 2027

A IEA avalia que parte desse movimento pode ser temporária. Se os fluxos de GNL pelo Estreito de Hormuz se recuperarem e os preços do gás recuarem, a demanda mundial por carvão deve cair 0,4% em 2027, para 8,91 bilhões de toneladas. Se as restrições ao GNL persistirem, porém, o consumo pode voltar a crescer.

Nesse cenário de normalização do mercado de gás, Japão e Coreia tenderiam a reduzir novamente o uso de carvão, enquanto a expansão das renováveis e o fechamento de térmicas manteriam a queda na União Europeia. China deve permanecer próxima dos atuais níveis de consumo, enquanto Índia e Sudeste Asiático continuam entre os principais mercados em expansão.

Os efeitos da crise também chegaram aos preços. O carvão térmico de Newcastle, uma das principais referências internacionais, ficou em US$ 131 por tonelada em agosto, depois de alcançar média de US$ 139 em junho. Os valores estão acima dos níveis do fim de 2025, mas ainda distantes da crise energética de 2022, quando os preços superaram US$ 400 por tonelada.

Além da demanda maior, segundo a IEA, restrições de oferta contribuíram para a recuperação. Um acidente em uma mina na província chinesa de Shanxi levou a inspeções e paralisações que derrubaram a produção do país em cerca de 10% em junho e julho, enquanto a Indonésia, maior exportadora de carvão térmico, reduziu suas metas de produção.

Fonte: MegaWhat

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