Planos de Lula e Bolsonaro mantêm óleo e gás no centro da segurança energética

20/08/2026

Os planos de governo dos candidatos à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (Partidos dos Trabalhadores – PT) mantêm petróleo e gás natural como elementos centrais da segurança energética e do desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que propõem a expansão de fontes renováveis, biocombustíveis, armazenamento de energia e novas tecnologias de baixo carbono. 

Embora ambos os programas apresentem convergências no que se refere à redução dos custos de energia, expansão da infraestrutura, biocombustíveis e aproveitamento de recursos minerais, eles divergem estruturalmente sobre o papel do Estado no setor.

Bolsonaro defende um modelo no qual o Estado atua principalmente como regulador e coordenador, criando condições para a concorrência e atraindo capital privado e estrangeiro. 

Já Lula propõe maior planejamento e coordenação estatal, com participação ativa da Petrobras, investimentos públicos e uso da política energética como instrumento de desenvolvimento industrial e de transição energética.

Petróleo e gás 

O programa de Bolsonaro estabelece como objetivo a “segurança energética total ao menor preço possível para o consumidor”. Para isso, propõe um Programa Nacional de Segurança Energética voltado a refino, processamento, escoamento e transporte de combustíveis e gás.

O candidato também defende a continuidade da abertura do mercado de gás, com expansão das redes de escoamento e transporte e integração de estados atualmente desconectados da malha. O programa afirma que o Brasil produz cada vez mais gás no pré-sal, mas desperdiça parte da produção por falta de infraestrutura de escoamento.

A proposta prevê ainda a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico, desde que realizada com responsabilidade ambiental e dentro da legislação, além da modernização do refino e do aproveitamento do petróleo nacional.

No caso do gás, o programa também relaciona a expansão da oferta à produção nacional de fertilizantes, com o objetivo de reduzir a dependência externa e fortalecer a segurança alimentar.

Maior produtora e refinadora de petróleo e gás, além de importante player no setor de fertilizantes, a Petrobras não é mencionada no plano de Flávio Bolsonaro. No fim do governo de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a estatal foi incluída no programa de parcerias e investimentos (PPI), etapa inicial visando à sua privatização. 

O programa de Lula defende a continuidade dos investimentos em exploração onshore e offshore, a revitalização de campos maduros, a expansão do refino e da infraestrutura de gás e o aumento da produção nacional de fertilizantes.

O texto prevê que a Petrobras amplie sua atuação em exploração, refino, gás, fertilizantes, distribuição de combustíveis e logística de GNL. Ao mesmo tempo, a empresa deverá direcionar investimentos para fontes de baixo carbono e redução das emissões operacionais.

No programa de Bolsonaro, a estratégia para energia enfatiza a concorrência, a segurança jurídica e a atração de investimentos privados. Na seção dedicada aos minerais críticos, o documento explicita que “o Estado atuará como regulador e coordenador, não como empresário”.

Essa orientação aparece também na proposta de expansão da infraestrutura de gás, que deverá, segundo o candidato do PL, ser realizada com regras estáveis para atrair investimento privado.

No programa de Lula, a Petrobras aparece como instrumento central da política energética e industrial, inclusive como vetor de desenvolvimento da indústria naval com base em regras de conteúdo local.

Renováveis e armazenamento 

Apesar da importância atribuída aos combustíveis fósseis, os dois candidatos defendem a expansão das fontes renováveis e da infraestrutura necessária para integrá-las ao sistema elétrico.

Bolsonaro propõe modernizar a rede de transmissão para incorporar novas fontes renováveis e reduzir congestionamentos. O programa também prevê um programa de armazenamento de energia, incluindo baterias de grande porte e outras tecnologias.

A proposta é associada à estratégia de transformar o Brasil em um polo de data centers sustentáveis, aproveitando a matriz elétrica renovável e buscando oferecer energia barata e confiável para atividades intensivas em eletricidade.

Lula também defende a expansão das fontes renováveis, dos sistemas de armazenamento e da flexibilidade do sistema elétrico. Seu programa prevê a expansão coordenada de geração, transmissão e desenvolvimento regional para reduzir restrições operativas e aumentar o aproveitamento dos recursos renováveis.

O plano prevê continuidade dos leilões de transmissão, novos investimentos em baterias e repotenciação do parque hidrelétrico.

Biocombustíveis

Ambos os programas atribuem importância significativa aos biocombustíveis.

Bolsonaro propõe transformar o Brasil em uma “potência de biocombustíveis”, com estímulo à produção de etanol, biodiesel, HVO, SAF e biogás. O programa prevê linhas especiais de financiamento para empresas de biogás e o fortalecimento e ampliação do RenovaBio para o exterior, permitindo ao Brasil vender créditos de carbono.

Lula também defende a expansão de etanol, biodiesel e SAF, além do aproveitamento de subprodutos da agroindústria para produção de bioenergia e biogás.

Seu programa inclui ainda diesel verde, combustíveis sintéticos, etanol de segunda geração, biorrefinarias, captura e armazenamento de carbono e combustíveis marítimos. A participação da Petrobras em biocombustíveis, por meio da Petrobras Biocombustíveis, deverá ser fortalecida.

Transição energética 

A transição energética é outro ponto de convergência, mas aparece sob perspectivas distintas.

Bolsonaro associa a transição principalmente às vantagens competitivas brasileiras. O país teria, segundo o programa, uma combinação de minerais estratégicos e energia limpa e competitiva que poderia ser utilizada para atrair investimentos e desenvolver novas cadeias industriais.

O plano cita lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras-raras como insumos para semicondutores, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos, defesa e inteligência artificial.

A estratégia é agregar valor a esses recursos no Brasil, em vez de exportar apenas a matéria-prima. Para isso, Bolsonaro defende atração de capital e tecnologia estrangeiros, incentivos de mercado, licenciamento e um marco regulatório considerado claro e estável.

Lula apresenta a transição energética como uma transformação mais ampla da economia e da matriz energética. O programa prevê a substituição progressiva de combustíveis fósseis por biocombustíveis e combustíveis de baixa intensidade de carbono, incluindo derivados de hidrogênio.

Também propõe o desenvolvimento de cadeias de baterias e armazenamento, hidrogênio de baixa emissão, petroquímica verde, bioprodutos, fertilizantes e reatores nucleares modulares.

O programa petista utiliza explicitamente o conceito de “transição energética justa” e relaciona a agenda à redução de emissões, ao combate à pobreza energética e à resiliência do sistema diante das mudanças climáticas.

Mobilidade elétrica

O plano de Lula ressalta que o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) permitirá renovar a frota de ônibus de diversos municípios com a aquisição de 203 ônibus elétricos, enquanto o de Bolsonaro afirma que os bancos públicos disponibilização financiamento de ônibus movidos a eletricidade.  

Energia barata 

Bolsonaro e Lula convergem na defesa de uma redução dos custos da energia.

O primeiro propõe simplificar a conta de luz, racionalizar encargos e subsídios cruzados e reduzir gradualmente a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e as fontes incentivadas, mantendo a tarifa social. O programa também defende redução de impostos sobre energia e combustíveis.

A estratégia é apresentada como forma de reduzir o peso da energia no orçamento das famílias e aumentar a competitividade da indústria.

Lula também fala em justiça tarifária e sustentabilidade econômico-financeira do setor. O programa relaciona a redução da pobreza energética à ampliação da tarifa social e a políticas como Luz do Povo e Luz para Todos.

Política industrial e minerais críticos

Bolsonaro afirma que energia abundante e barata significa “indústria de portas abertas” e associa a competitividade energética à atração de data centers e investimentos em inteligência artificial. A estratégia para minerais críticos também busca conectar recursos naturais, energia limpa e novas tecnologias.

Lula promete desenvolver uma política específica para minerais críticos e terras raras e associa a transição energética ao programa federal de neoindustrialização (Nova Indústria Brasil – NIB), prevendo o desenvolvimento de cadeias produtivas relacionadas a baterias, armazenamento, hidrogênio, petroquímica verde, bioprodutos, fertilizantes e tecnologia nuclear.

Em ambos os casos, a intenção é evitar que o Brasil permaneça restrito à exportação de recursos naturais e aumentar a agregação de valor dentro do país. A diferença está nos instrumentos: Bolsonaro enfatiza capital privado, capital estrangeiro e tecnologia internacional, enquanto Lula atribui maior importância à coordenação estatal, à Petrobras e ao investimento público.

Fonte: BNAméricas

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