Possível reajuste da gasolina pela Petrobras, repasses ao longo da cadeia e adesão de importadores tornam difícil medir quanto a subvenção vai ajudar consumidor; economistas alertam para risco fiscal
14/05/2026
A Medida Provisória (MP) que abre espaço para novas subvenções aos combustíveis, especialmente a gasolina, é vista pelo mercado como uma iniciativa favorável para reduzir os efeitos da alta de preços nas bombas. Mas o impacto exato para o consumidor final e na inflação ainda são incertos por vários fatores, incluindo eventual elevação de preço pela Petrobras, falta de clareza sobre a adesão de importadores e a necessidade de haver repasses ao longo da cadeia até a chegada da gasolina nos postos. Além disso, economistas alertam para a volta do risco fiscal neste ano.
A proposta do governo limita subsídios à gasolina nacional ou importada a R$ 0,89 por litro – soma dos impostos federais sobre o produto – e abre espaço para novos benefícios ao diesel, que já conta com medidas nessa direção. A MP também permite que a Petrobras reajuste a gasolina em meio a uma escalada de preços devido à guerra no Oriente Médio. A estatal vinha sinalizando que um aumento nas refinarias poderia acontecer assim que o governo aprovasse uma medida para reduzir o impacto ao consumidor final.
A gasolina da Petrobras nas refinarias estava ontem 85% abaixo do preço internacional, ou R$ 2,13 por litro, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). A StoneX estimou defasagem de 63,5%, ou R$ 1,60 por litro. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicam que a média de preços da gasolina nos postos na semana de 3 a 9 de maio era de R$ 6,65 por litro, queda de 0,3% frente à semana anterior.
A corretora Warren alerta que os efeitos da subvenção podem não chegar ao consumidor final, uma vez que a Petrobras provavelmente reajustará o combustível em breve. Nos cálculos da Warren, a subvenção pode tirar até 0,49 ponto porcentual (p.p.) do IPCA se implementada integralmente. No entanto, a própria equipe econômica sugeriu que a ajuda ficará entre R$ 0,40 e R$ 0,45. Com isso, o impacto sobre o IPCA seria menor, entre 0,23 p.p. e 0,25 p.p.
“Só que a gente não sabe o que a Petrobras vai fazer, se vai aumentar o preço na mesma proporção da subvenção”, pondera a estrategista de inflação da Warren, Andréa Angelo.
Para a Buysidebrazil, a subvenção poderia reduzir o IPCA em até 0,64 p.p., considerando o repasse integral, embora também ressalte que o impacto final tende a ser menor devido a possível reajuste da Petrobras: “Neste contexto, estimamos que haveria espaço para reajuste próximo de 35% nos preços de refinaria, magnitude suficiente para neutralizar o impacto desinflacionário da medida sobre o índice cheio”, diz o economista Marcelo Alonso.
Na terça-feira (12), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse que a estatal trabalhava com o governo em prol da estabilidade dos preços dos derivados, e não descartou elevar a gasolina a curto prazo: “Vai acontecer já, já”. Procurada ontem, a Petrobras disse que não comentaria a decisão do governo na subvenção à gasolina.
O presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), James Thorp Neto, afirmou que é favorável a “toda e qualquer medida” do governo federal que busque amenizar o impacto de preços ao consumidor final de combustíveis: “A Fecombustíveis fica na expectativa da adesão das distribuidoras à medida e destaca que os postos refletem os custos do elo anterior da cadeia, que são as distribuidoras”, afirmou.
Procurado, o Sindicato Nacional de Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) não comentou.
Para Sérgio Araújo, presidente executivo da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), será difícil para os importadores aderirem a esta nova subvenção, uma vez que o modelo desenhado funcionaria como uma espécie de reembolso do pagamento dos impostos federais sobre a gasolina. Ele ressaltou que ainda não teve acesso à minuta.
Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, a MP reforça a percepção de que há um esforço eleitoral nas últimas iniciativas do governo. Além disso, a eficácia da iniciativa pode ser reduzida pelas incertezas que pairam sobre a guerra e o impacto fiscal não pode ser ignorado. “A maior dúvida é sobre o peso fiscal desse subsídio, que pode chegar a R$ 2,5 bilhões por mês se for aplicado o teto do subsídio. E de forma indefinida, dado que não sabemos até onde vai o conflito”, observa Vale.
O economista Matheus Ribeiro, da BRCG, diz que a preocupação fiscal pode voltar ao radar este ano, uma vez que a arrecadação a mais com o petróleo em alta pode ser direcionada para mitigar efeitos em preços de combustíveis: “Assim, a contenção de gastos pode voltar para o debate sobre o cumprimento da meta de resultado primário”, diz.
Fonte: Valor Econômico




