11/05/2026
Como esperado pelo mercado, 2026 já seria mais desafiador para a hotelaria, em especial a corporativa. Afinal, anos com eleições majoritárias no Brasil costumam afetar decisões de investimento das empresas. No entanto, dois componentes entraram na equação para tornar o cenário ainda mais complexo, sendo um esperado (e gerenciável com antecipação) e outro completamente imprevisível (e de gestão mais trabalhosa): feriados prolongados e a guerra no Irã, respectivamente.
Ainda que neste momento efeitos mais concretos estejam concentrados na aviação comercial, a preocupação começa a se espalhar por toda a cadeia do turismo. O principal motivo está no aumento do preço do petróleo desde o início do conflito, o que elevou os custos do QAV (querosene de aviação) e vem pressionando o caixa das companhias aéreas. Em resposta, essas empresas devem cancelar voos menos rentáveis, muitos deles regionais.
Semana passada, por exemplo, a Latam anunciou que prevê alta de 8% em junho na capacidade doméstica medida em ASK (Assentos-Quilômetros Oferecidos) frente a igual período de 2025. Apesar do crescimento, trata-se de uma redução de 3% na expansão originalmente planejada para o mês.
Por enquanto, a demanda ainda segue resiliente. O encarecimento das passagens vem sendo parcialmente compensado por aeronaves operando com taxas de ocupação elevadas e consumidores ainda dispostos a viajar. E de fato, quem passa pelos aeroportos rapidamente percebe isso. À Folha de São Paulo, contudo, Juliano Noman, presidente da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), reconheceu que um persistente crescimento no preço dos bilhetes aéreos pode desestimular a demanda.
Outro risco, só que muito mais grave, seria o desabastecimento de combustíveis. Entretanto, por ora, esse cenário estaria fora de cogitação, segundo Jerome Cardier, CEO da Latam. Em entrevista a jornalistas na última semana, o executivo informou que a empresa tem acompanhado com parceiros comerciais uma potencial ameaça de falta de disponibilidade de QAV e que, neste momento, nada aponta para isso.
A duração do conflito passa, portanto, a ser uma variável relevante para toda a indústria do turismo. Quanto maior o período de tensão no Oriente Médio, maior tende a ser a pressão sobre o petróleo, os custos operacionais das aéreas e, consequentemente, os preços das viagens.
Impacto potencial
E a hotelaria? Por enquanto, os impactos ainda aparecem de forma muito mais indireta do que concreta, com a performance mantendo uma trajetória de crescimento frente ao ano anterior. Números do InFOHB mostram isso com exatidão. Até março, o RevPar acumulado dos hotéis associados ao FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil) cresce 10,2% (nominal) em relação a 2025, com a diária média sendo o motor desse desempenho (+8,1% na mesma base de comparação).
Executivos C-Level de operadoras hoteleiras associadas ao FOHB (todas com perfil mais corporativo) ouvidos pelo Hotelier News dizem que o primeiro trimestre foi marcado por um março excepcional, mas que abril teve um cenário mais complexo em função dos feriados prolongados que beneficiam o lazer, mas atrapalham as viagens de negócios. Já maio apresenta uma dinâmica mais desafiadora e uma postura mais cautelosa por parte das empresas.
Então, com o aéreo mais caro, essas incertezas têm se traduzido em maior antecipação da janela de reserva no mercado corporativo da hotelaria. “O comportamento das empresas está mudando, com maior antecipação de compra, o que não existia. Aquela viagem em cima da hora está rareando e, com preços em alta e menor oferta, isso tende a se intensificar”, disse uma das fontes ouvidas. “As empresas não vão deixar de viajar, mas querem gastar o menos possível, e a antecipação ajuda nisso”, acrescentou outro executivo.
Por enquanto, o conflito no Oriente Médio ainda não representa um problema concreto para a hotelaria brasileira. O setor continua sustentado por demanda resiliente, crescimento tarifária e gestão mais eficiente. Entretanto, o mercado acompanha com atenção os desdobramentos sobre a aviação, até porque o turismo é integrado e opera em uma dinâmica interdependente.
Dessa forma, se a pressão sobre custos e oferta de voos persistir por um período prolongado, os efeitos tendem a extrapolar o transporte aéreo e alcançar de forma mais perceptível toda a cadeia de viagens corporativas.
Fonte: Hotelier News




