Mesmo com avaliação mais modesta do governo, com impacto sobre 21% das vendas, perda é grande para setores afetados
03/06/2026
A aplicação de nova tarifa de 25% colocada em consulta pública pelos EUA na segunda, 1º, pode atingir até cerca de 45% do que o Brasil exporta aos americanos, dependendo da forma como a conta foi feita. Dentre cálculos coletados pelo Valor, o governo tem a estimativa mais modesta de impacto, de 21%, embora a avaliação seja de “muito prejuízo” aos aos setores atingidos. Porta-vozes do governo afirmaram não acreditar que a proposta seja efetivamente convertida em tarifas, mas especialistas destacam que, diferentemente da tributação imposta em 2025 pelo presidente americano, Donald Trump, a que pode resultar da medida atual é considerada difícil de ser contestada. Além disso, outras investigações em curso podem resultar em novas tarifas.
A nova tarifa proposta pelo USTR, o escritório americano de representação comercial, vem com base na Seção 301, legislação de 1974. O relatório, que concluiu a investigação iniciada contra o Brasil em julho de 2025, sustenta que determinadas políticas e práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, como Pix, propriedade intelectual, combate à corrupção e acesso a mercados, entre outros, afetam negativamente os EUA. A proposta de tributação punitiva foi colocada em consulta pública, o que significa que a tarifa de 25% não tem aplicação imediata e abre-se um período de manifestação dos interessados. Uma audiência pública está marcada para 6 de julho, em Washington.
Os produtos brasileiros já sofrem com uma taxa de 10%, imposta globalmente por Trump após a Suprema Corte do país invalidar o tarifaço – essa medida vale até o fim de julho.
Welber Barral, sócio da BMJ e do escritório Barral Parente Pinheiro, explica que a estratégia agora de empresas e setores afetados é apresentar petições e demonstrar o impacto da tarifa para a produção e preços no mercado americano. Para ele, são maiores as chances de quem conseguir atuar nas defesas em conjunto com os importadores americanos, que podem relatar o efeito da nova tarifa sobre seus custos e sobre a importância do fornecimento brasileiro.
Vera Kanas, advogada especializada em comércio internacional e sócia da VK Law, destaca que, além do processo que resultou na tarifa de 25%, o Brasil é, ao lado de outros 59 países, alvo de outra investigação com base na Seção 301, para averiguar importações de países que alegadamente não combateriam o trabalho forçado.
É importante ressaltar, diz Kanas, que, ao contrário do tarifaço de 40%/50% que os EUA impuseram a importações brasileiras no ano passado, com base na IEEPA, a lei americana para situações de emergência econômica internacional, as tarifas estabelecidas neste momento com base na Seção 301 são difíceis de se derrubar, porque integra uma legislação mais consolidada. “Desta vez, diferentemente da IEEPA, não deve haver empresas americanas que vão importar produtos brasileiros contando que depois poderão pedir um reembolso.”
Entre os itens que, segundo o relatório do USTR, devem ficar livres da nova tarifa estão aeronaves e partes, suco de laranja, alguns alimentos como café e carnes, celulose, determinados minerais, fertilizantes, minerais críticos e estratégicos. Levantamento do Valor mostra que, embora possua 986 itens na lista de exceções (considerando código do Sistema Harmonizado em seis dígitos), o rol de itens efetivamente exportados pelo Brasil aos EUA é menor, de 666 produtos, ainda considerando os embarques em 2024, sem os efeitos da atual gestão Trump. Em quantidade, são mais itens que os 433 que foram excetuados do chamado tarifaço de 40% a 50% do ano passado e que foram efetivamente embarcados em 2024. Em valores isentos, porém, a lista proposta agora é menor, porque certos tipos de ferro fundido bruto não entraram nas exceções.
Pelos cálculos do Valor, feitos com base nas exportações de 2024, antes dos impactos da política tarifária do atual governo Trump, a nova medida pode atingir 45,8% dos embarques aos EUA, no valor de US$ 18,5 bilhões.
O relatório da 301 não mexe nos produtos que estão submetidos a tarifas setoriais aplicadas sob alegação de segurança nacional, com base na Seção 232, outra legislação comercial americana, de 1962. Esse processo tramita, portanto, paralelamente às investigações da Seção 301 e inclui itens como aço, alumínio e derivados.
A Câmara Americana de Comércio (Amcham) afirma que a nova tarifa pode impactar cerca de US$ 15 bilhões em exportações aos EUA, ou 35,5% dos embarques brasileiros, em cálculo que usou a base de dados de 2024 dos EUA. Os segmentos da indústria de base, de máquinas e equipamentos, do agronegócio, de produtos florestais e de alimentos processados são indicados com os potencialmente mais afetados – o ferro-gusa poderá ser o produto mais impactado, com US$ 1,54 bilhão em exportações sujeitas à tarifa.
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a proposta deve atingir principalmente a indústria de transformação, em linha com a campanha de Trump, de reindustrializar o país. Vale estima que cerca de 27% do que o Brasil exportou aos EUA em 2025, ou US$ 10,1 bilhões, estariam expostos à nova tarifa. Para ele, a medida resultará em queda ainda maior da fatia dos EUA na exportação brasileira e numa aproximação cada vez maior do Brasil com a China. Em 2024 os EUA absorveram 12% da exportação brasileira, participação que caiu para 10,8% no ano passado. Em igual período a fatia da China subiu de 28% para 28,7%.
Para Vale, parece quase inevitável que a nova tarifa se concretize, mesmo com o processo aberto pelo USTR. “O governo americano ofereceu um cardápio de justificativas muito subjetivas, como desmatamento ou propriedade intelectual, ou intangíveis, como o Pix. O Pix está incorporado na economia brasileira, barateou o crédito, bancarizou grande quantidade de pessoas, não tem volta.”
Mais otimista, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, disse que a nova medida pode alcançar 21% do total vendido aos americanos. Segundo o ministro, 54% do exportado aos EUA está livre do tarifaço e 25% estão na Seção 232. Ele citou os setores de máquinas e equipamentos entre os mais impactados, com “muito prejuízo” para emprego, renda e indústria. Ao citar segmentos mais atingidos, Rosa disse que o impacto viria caso a proposta se converta em tarifas, “coisa que a gente acredita que não vá ocorrer”.
Nas contas do CEO da Quantivis Analyitics, José Ronaldo Souza Junior, a medida com base na 301 pode atingir até 43,7% da exportação brasileira aos EUA considerando dados de 2025. Em valores, foram US$ 16,5 bilhões exportados aos EUA desses produtos no ano passado. Ele explica que os cálculos não são precisos porque é preciso fazer uma conciliação entre os dados da lista do USTR, que usa classificação de oito dígitos, com abertura mais detalhada que a do governo brasileiro, que segue o padrão do Mercosul, de seis dígitos.
Fonte: Valor Econômico



