Dado está na edição de 2026 da pesquisa “Tax do Amanhã”, realizada pela Deloitte com 148 companhias do país
25/05/2026
Entre as empresas que já realizaram estudos sobre os impactos da reforma tributária do consumo para o seu negócio, 51% acreditam que deverá ocorrer aumento de carga tributária, com repasse ao preço do produto ou serviço ou redução de margem de lucro. É o que mostra a edição de 2026 da pesquisa “Tax do Amanhã”, realizada pela Deloitte.
O estudo também aponta que a expectativa de simplificação do sistema tributário caiu em relação à edição de 2025, de 78% para 67% das 148 empresas participantes – 47% com faturamento superior a R$ 2,5 bilhões. “Ocorreu [a queda] porque mergulharam nos detalhes e também porque saíram as regulamentações”, diz Luiz Rezende, sócio-líder de Consultoria Tributária da Deloitte.
Até então, em meio ao período de testes da reforma tributária, a alíquota final ainda não é conhecida pelos contribuintes. A expectativa é que fique em 28%. Mas como o sistema vai mudar, passando a prever creditamento mais amplo do que o do modelo vigente, especialistas estimam que, apesar de a estimativa ser de uma alíquota mais alta, as empresas podem acabar pagando o mesmo valor de imposto.
“Na nossa experiência, depende [o aumento da carga] muito da estrutura de cada empresa. É difícil até apontar os setores que se deram bem ou mal. Em um mesmo setor, a depender de como as empresas se estruturam, os efeitos serão diferentes”, afirma Rezende.
A reforma do consumo tem efeito na cadeia, então haverá uma acomodação, segundo o sócio-líder da Deloitte. Para ele, o percentual de 51% indica que as empresas estão olhando de forma “criteriosa” para o novo sistema.
Segundo Lina Santin, sócia do Heleno Torres Advogados, a preocupação com o aumento de carga tributária existe, mas como hoje as empresas não recuperam custos residuais da cadeia – e passarão a recuperar -, a tributação acaba sendo maior que a oficial.
“As empresas não devem olhar apenas para a alíquota nominal. Devem fazer, de fato, uma análise de todos os custos residuais da cadeia que vão passar a recuperar como crédito para saber se haverá aumento na tributação ou não”, diz Lina, destacando a isonomia, com igualdade de cobranças por setor, “o que reduz as preocupações com relação à concorrência”.
Hoje, de acordo com a pesquisa, a principal preocupação das empresas é com a convivência com dois sistemas tributários na fase de transição (60% dos entrevistados), de 2026 a 2032. Para a Deloitte, isso vai se refletir em maiores níveis de complexidade, demanda por níveis mais avançados de governança e pressão sobre sistemas, controles e equipes.
Discussões sobre preço ou margem com fornecedores foram a segunda preocupação que mais apareceu entre as empresas (mencionadas por 39%). Em seguida, vem o prazo para operacionalizar os novos tributos (lembrada por 31%) e incentivos fiscais, localização geográfica ou cadeia de suprimentos (29%).
Para 16% dos entrevistados pela Deloitte deve ocorrer redução da carga tributária, com potencial de redução de preços ou aumento de margem. Um total de 19% afirma que a carga tributária deve permanecer neutra e para 14% o estudo não foi conclusivo ou não incluiu impactos sobre a carga tributária.
Entre as empresas que se beneficiam de incentivos fiscais e avaliaram em seus estudos os impactos das mudanças no sistema tributário nacional, 57% avaliam mudança de localização ou ajuste na cadeia de suprimentos.
“É muito difícil que as empresas mantenham suas operações do mesmo jeito”, afirma Rezende. Ele destaca que hoje todo imposto faz parte do preço, “então a empresa tem o imposto como algo muito estratégico”. “Temos empresas em que grande parte do lucro e do prejuízo tem a ver com tributo.”
Eduardo Lucas, sócio do Martinelli Advogados, chama a atenção para o impacto no fluxo de caixa das companhias. “Se antes eu conseguia programar pagamentos em caixa para daqui um semestre, agora o impacto no fluxo de caixa será instantâneo”, diz.
No atual sistema, acrescenta, as empresas operam pagando “para frente”, sabem em quais dias do mês ou trimestre terão que provisionar valor para os tributos. “Com o split payment, a arrecadação será na hora, não terei programação pra frente. Com isso, o dinheiro não ficará mais no caixa”, afirma.
Para a tributarista Maria Andréia dos Santos, sócia do Sanmahe Advogados, há preocupação com a parte dos sistemas e tecnologia. Neste ano, já surgiu preocupação com a emissão de notas, em especial pelos desafios enfrentados pelas prefeituras.
Em um primeiro momento, diz a advogada, há grande preocupação se será possível dar andamento a todas as providências que têm que ser adotadas com relação à emissão de notas. “A partir de 2027 começa a apuração assistida, que vai substituir a confissão de débitos. Vai ser uma mudança muito grande na vida das empresas”, afirma.
Por meio dessa ferramenta, de forma eletrônica, os contribuintes terão um campo de apuração assistida, que vai computar tanto créditos das aquisições feitas como débitos das vendas e no final do mês essa apuração vai informar se há ainda imposto a pagar e quanto.
“A grande preocupação das empresas é como lidar com essa declaração assistida porque se aparecer uma informação errada não vai poder corrigir, vai ter que emitir notas e outras obrigações acessórias”, diz a advogada.
Há ainda a preocupação se equipes atuais das empresas darão conta da nova demanda. “É uma quantidade muito grande de novas rotinas com as quais as equipes terão que lidar”, afirma Maria Andréia, acrescentando que há ainda os desafios da precificação. “Há grande preocupação de qual será o parâmetro das empresas para precificar em suas operações de venda. Como precificar produtos e serviços a partir de janeiro de 2027 e também quais novos custos terão na sua própria cadeia de fornecedores.”
Fonte: Valor Econômico




