Abalos na geopolítica levam a uma diversificação de investimentos para além dos EUA
18/05/2026
Os abalos na geopolítica mundial estão redefinindo as estratégias de expansão da indústria da hotelaria de luxo, que tem diversificado seus investimentos para além dos Estados Unidos. “Nos últimos anos, os grupos de hotéis estavam apostando muito nos EUA por ser o maior mercado emissor no turismo de luxo”, diz Simon Mayle, diretor na América Latina da ILTM (International Travel Luxury Market). “Mas com os choques na geopolítica, principalmente no ano passado, eles ficaram nervosos e decidiram cultivar novos mercados.”
Assim, diz Mayle, eles se “voltaram para a América Latina por causa da criação de riqueza e da nova geração de afortunados na região que aumenta mais rápido do que em mercados maduros”. A edição da ILTM organizada na semana retrasada no pavilhão da Bienal, em São Paulo, foi a maior já realizada, com um crescimento de 20% no número de participantes em relação a 2025. Reuniu 550 expositores de todo o mundo, da Coreia ao Benim, entre hotéis, empresas de cruzeiros, destinos turísticos, sendo 25% estreantes, todos empenhados em conquistar o público formado por 550 agentes de viagem de 85 cidades de 11 países latino-americanos.
Os viajantes de elite da América Latina e, em especial, os brasileiros, recorrem mais às agências de viagem para ter um atendimento personalizado do que as demais nacionalidades. Por isso, o evento se tornou estratégico para a indústria de hospitalidade.
“O brasileiro tem um relacionamento muito próximo do agente de viagem. Eles consomem o serviço de concierge, do spa, gostam de visitar os restaurantes do momento, ir para as lojas e fazer compras. Vão para o bar antes do jantar e voltam para o bar depois do jantar. Assim como os latinos, são os hóspedes que os hotéis querem muito ter”, diz Mayle.
Entre os expositores da ILTM, a Preferred, associação que reúne 625 hotéis independentes de luxo pelo mundo, informou, por exemplo, que a receita com reservas dos viajantes brasileiros na rede no exterior aumentou 43% nos primeiros quatro meses do ano, comparada ao mesmo período de 2025, com destaque para destinos como Itália, Espanha e Portugal, onde conta com mais de 100 membros. No ano de 2025, esse aumento foi de 15%.
A demanda interna aumentou ainda nos cinco hotéis que fazem parte da associação no Brasil, como Unique e Pulso, em São Paulo, Fera Palace, em Salvador, NÓR, em São Roque, e Paru Boutique, em Passo de Camaragibe (AL): alta de 85% das vendas no primeiro quadrimestre.
Na ILTM, o grupo anunciou a entrada de mais três representantes no portfólio: Nannai Muro Alto (PE) e Nannai em Fernando de Noronha, e Duke Beach, em Maresias, (SP). “Como o Brasil está na moda, muitos hotéis têm buscado a Preferred para fortalecer seu posicionamento global no segmento de luxo”, disse Simone Mariote, vice-presidente-executiva da Preferred para a América do Sul.
Nos últimos três anos, os gastos do viajante de luxo latino cresceram 18%, segundo levantamento do Virtuoso, rede global que reúne as agências de viagem de luxo. “É possível que com os conflitos os gastos dos latinos sejam um pouco menores este ano, e que cresçam em torno de 15%, mesmo assim um resultado importante”, disse Angeles Yugdar, diretora do Virtuoso na América Latina. “Pode haver uma reconfiguração dos destinos preferidos, mas esse público vai continuar viajando, com desejo por personalização, autenticidade e bem-estar.”
O departamento de turismo da Suíça, por exemplo, registrou crescimento de viajantes da região, sendo que os brasileiros aumentaram em 6,6% os pernoites nos hotéis alpinos, mais do dobro da média global de 2,6% no ano passado. Pelo levantamento do Virtuoso, o Japão é o destino preferido este ano, tanto para famílias como para quem viaja só, superando pela primeira vez a Itália. Em 2025, 110 mil brasileiros viajaram para o Japão, com uma parte considerável no segmento de luxo.
Os hotéis da marca de joalheria Bvlgari, joint venture do grupo Marriott com a grife italiana que pertence ao conglomerado LVMH, reforçaram sua presença na ILTM, com representantes de suas unidades em Tóquio, Xangai e Pequim. Em 2025, com a promoção do Bvlgari de Roma no evento, o público brasileiro passou a ocupar a terceira posição em reservas.
“Precisamos estar mais próximos do mercado latino e, em especial, do Brasil. Muitas famílias brasileiras se hospedaram no Bvlgari, em Tóquio, no ano passado, por exemplo”, disse Francesca Stancanelli, diretora global de comunicação dos hotéis Bvlgari. A grife também ampliou seus investimentos na região ao anunciar para 2029 seu primeiro empreendimento nas Bahamas. No total serão cinco aberturas até 2030.
Segundo a consultoria McKinsey, o turismo de luxo está crescendo a uma taxa composta anual de cerca de 6%, superando o setor de viagens em geral em dois pontos percentuais. Pelo report da Grand View Research, a receita do mercado global de viagens de luxo foi US$ 1,59 trilhão em 2025. A projeção para este ano é chegar a US$ 1,7 trilhão, com uma taxa de crescimento anual de 8,5%, o que bateria os US$ 3,04 trilhões em 2033. Em termos de receita, a região da América Latina representou 8,4% do mercado global de hotéis de luxo no ano passado.
Os viajantes de luxo na faixa etária de 41 a 60 anos responderam por 42,8% da receita do setor no ano passado. O mesmo relatório da Grand View prevê que os mais jovens, entre 21 e 30 anos, vão ocupar cada vez mais espaço no setor, com um crescimento de 9,3% ao ano nos próximos sete anos.
Num momento em que a indústria de bens pessoais de luxo perdeu vinte milhões de consumidores, segundo levantamento da Bain & Co, o setor de hospitalidade amplia suas fronteiras. “O luxo hoje é feito de experiências inesquecíveis, que marcam a vida. Essa transformação começou já em 2010, mas no pós-pandemia se acelerou. Há cada vez mais pessoas querendo se desconectar, estar próximas a natureza, vivendo uma nova cultura ou aproveitando uma gastronomia muito diferente da sua”, diz Mayle.
Para tanto, a hotelaria internacional precisa decodificar algumas particularidades do mercado latino, como as viagens em família e intergeracionais, principais tendências na região, segundo levantamento do Virtuoso. “Na América Latina e no Brasil isso é muito forte. Você vai ver um avô entrar numa agência de viagens e comprar dez quartos para os filhos, genros, noras, netos”, diz Yugdar, do Virtuoso. “A dificuldade é fazer os hotéis entenderem que estes quinze hóspedes, por exemplo, não são um grupo, mas uma família que quer viver todas as experiências personalizadas.”
Fonte: Valor Econômico



