20/08/2026
A expansão de data centers de grande porte no Brasil começa a criar novos desafios para o planejamento e a operação do sistema elétrico. Segundo Alexandre Zucarato, diretor de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), cerca de 10 GW em projetos de data centers já estão em diferentes etapas de conexão à rede, e cargas nessa escala exigem uma nova abordagem nos estudos de acesso e de segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Além de encontrar espaço disponível na transmissão, o operador terá de avaliar como esses consumidores se comportam diante de perturbações e oscilações do sistema, em um cenário em que alguns projetos podem alcançar potência superior à maior contingência simples atualmente considerada no SIN.
Dos 10 GW, aproximadamente 3 GW têm contrato de uso da rede de transmissão (Cust) assinado, 2 GW obtiveram parecer de acesso emitido e dentro da janela de 90 dias para assinatura do contrato e outros 5 GW estão em avaliação de viabilidade de conexão. Os projetos que já possuem Cust assinado apresentam, segundo ele, um nível maior de comprometimento.
Esses empreendimentos precisam aportar garantias equivalentes a 40 meses de encargos, o que representa uma quantia relevante de recursos e dá maior credibilidade à intenção de conexão. Além disso, muitos projetos desistiram ao longo do processo por não conseguirem cumprir as exigências necessárias.
“Encontrar espaço na rede para cargas desse porte não é exatamente algo trivial”, afirmou, durante participação no MinutoMega Talks, evento realizado pela MegaWhat em São Paulo nesta quinta-feira, 20 de agosto.
Grandes cargas mudam critérios de segurança do sistema
A entrada de cargas de centenas de megawatts ou até de alguns gigawatts também modifica a forma como o ONS precisa analisar o impacto desses empreendimentos no Sistema Interligado Nacional (SIN). Tradicionalmente, cargas individuais de algumas centenas de megawatts são pequenas diante da dimensão do sistema brasileiro. Nesse cenário, os estudos avaliam contingências como perdas simples e duplas e seus efeitos sobre a operação.
De acordo com Zucarato, atualmente, a perda simples mais crítica do SIN é a saída da maior máquina isolada do sistema, a unidade de Angra 2, com cerca de 1,2 GW. O problema é que um data center ou uma planta de hidrogênio verde em escala superior a esse patamar pode passar a representar uma nova referência para a análise de segurança.
Se uma carga de 2 GW, por exemplo, estiver conectada a um circuito de 500 kV e sua desconexão puder ocorrer como consequência de uma contingência simples, o impacto sobre o sistema deixa de ser apenas uma questão relacionada à continuidade do atendimento daquele consumidor.
“O meu problema não é o seu data center. Estou preocupado com a dinâmica do sistema de tomar um tranco de 2 GW”, explicou.
Isso pode exigir mudanças na própria configuração da conexão, como a utilização de dois circuitos em vez de um, elevando o custo para o consumidor. A exigência, contudo, decorre dos critérios de segurança do sistema.
Segundo o executivo, a discussão passa a envolver uma nova dimensão do acesso à rede: entender o comportamento dinâmico das grandes cargas e sua capacidade de suportar perturbações no sistema.
Data centers terão de suportar perturbações do SIN
O ONS também precisará avaliar como as grandes cargas respondem às perturbações do sistema elétrico. Segundo o executivo, um data center não pode simplesmente se desconectar da rede diante de uma oscilação de frequência e acionar seu sistema de backup. Assim como os geradores precisam suportar determinadas perturbações do SIN, grandes consumidores também deverão apresentar capacidade de suportabilidade compatível com os requisitos do sistema.
Caso uma carga se desconecte de forma inadequada durante uma perturbação em condições normais de operação, o desligamento pode produzir uma nova onda de perturbações e comprometer a segurança do sistema, aumentando o risco de ocorrências de maior proporção.
A escala desses projetos, portanto, começa a aproximar o tratamento dado a grandes consumidores daquele aplicado a grandes unidades geradoras.
ONS ainda avalia perfil de consumo dos data centers de IA
Questionado sobre a preparação do sistema para data centers voltados à inteligência artificial, que podem demandar grandes volumes de energia firme e flexível, o executivo afirmou que os estudos estão concentrados principalmente em duas frentes: a capacidade elétrica do sistema de atender às novas cargas e a suportabilidade dessas cargas diante da dinâmica do SIN.
O sistema possui mecanismos de controle capazes de absorver oscilações naturais da demanda, como a inércia, os reguladores de velocidade e o controle secundário do Controle Automático de Geração (CAG).
“Se o perfil de consumo for de zero a 2 GW, volta para zero, vai para 2 GW novamente, esse é o tipo de situação que não é tão simples o sistema ficar absorvendo”, explicou.
Segundo ele, ainda existe aprendizado sobre o comportamento dessas novas cargas, justamente porque se trata de uma realidade nova para o setor elétrico. “Está todo mundo aprendendo no processo, porque é tudo muito novo. Para mim, faz parte das dores do crescimento.”
Apesar dos desafios, o executivo avalia que o Brasil possui uma vantagem competitiva diante da expansão dessas cargas, especialmente pela predominância de fontes renováveis na matriz elétrica.
O país, segundo ele, tem vocação para exportar insumos eletrointensivos de baixo carbono, e o setor elétrico terá papel importante nesse processo. Segundo ele, o ONS fará o possível para viabilizar a integração desses empreendimentos ao sistema, desde que sejam adotadas as salvaguardas necessárias para preservar a segurança e a confiabilidade do atendimento.
Pnast: ONS prepara mapa de margens para conexão de cargas
A primeira etapa do Programa Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (Pnast) também trouxe informações importantes sobre a capacidade da rede brasileira de receber novos projetos.
Segundo Zucarato, os cerca de 20 GW admitidos na primeira temporada de acesso do PNAST são compatíveis, de maneira geral, com o que já vinha sendo indicado pelo mapa de margens divulgado pelo ONS. A metodologia utilizada é a mesma, assim como a equipe e os critérios empregados nos cálculos.
A novidade é que o ONS pretende divulgar, ainda em 2026, um mapa indicativo de margens para cargas. A ferramenta deverá ajudar investidores e desenvolvedores de grandes projetos a identificar regiões da rede básica com maior disponibilidade para novas conexões, contribuindo para uma localização mais eficiente de empreendimentos como data centers, projetos de hidrogênio verde e outras cargas eletrointensivas.
A iniciativa também pode reduzir incertezas para os investidores ao permitir que a disponibilidade da rede seja considerada desde as etapas iniciais de desenvolvimento dos projetos.
Fonte: MegaWhat




