Crise energética entra em nova e mais perigosa fase

Em meio a incerteza no Oriente Médio, verão no hemisfério norte deve aumentar consumo e fazer petróleo subir ainda mais
18/05/2026

Quase 80 países já implementaram medidas emergenciais para proteger suas economias agora que o mundo se aproxima de uma nova e mais perigosa fase da crise energética desencadeada pela guerra no Irã. Os governos estão intensificando suas respostas diante de um ponto crítico iminente,  com operadores do mercado alertando que os preços do petróleo poderão disparar novamente caso mais combustível retido no Golfo Pérsico não consiga ser exportado pelo bloqueado Estreito de Ormuz.

Paul Diggle, economista-chefe da gestora de fundos Aberdeen, diz que sua equipe agora analisa um cenário em que o barril do petróleo do tipo Brent salta para US$ 180, provocando uma disparada na inflação e recessões em diversos países europeus e asiáticos. “Estamos levando esse desfecho muito a sério”, diz, acrescentando que esse ainda não é o seu cenário-base. “Estamos vivendo no limite.”

A demanda por ar-condicionado e viagens de férias no início do verão no hemisfério norte colocará uma pressão adicional sobre a oferta de petróleo, gasolina, diesel e combustível de aviação, num momento em que os estoques globais já caem no ritmo mais acelerado já registrado.

A Austrália prometeu gastar US$ 10 bilhões para reforçar seus estoques de combustíveis e fertilizantes, enquanto a França disse que vai “mudar o escopo e a escala” de seu apoio para proteger sua economia da crise. A Índia pediu à população que evite comprar ouro ou viajar ao exterior, numa tentativa de fortalecer suas reservas em moeda estrangeira.

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que o número de países já forçados a adotar medidas emergenciais chega a 76, ante 55 no fim de março.

Economistas e operadores alertam que a próxima fase da crise poderá trazer outro salto acentuado nos preços da energia, maior racionamento de combustíveis, paralisações industriais e uma desaceleração significativa do crescimento global.

Se o conflito no Oriente Médio “não terminar nas próximas semanas e o Estreito de Ormuz não for reaberto, temo que uma recessão mundial possa estar no radar”, disse Apostolos Tzitzikostas, comissário de Transporte da União Europeia, em um seminário promovido pelo Financial Times em Atenas na quinta-feira.

Desde o início do conflito, o mundo vem vivendo acima de sua capacidade energética. A AIE estima que entre março e junho o consumo mundial de petróleo ficará cerca de 6 milhões de barris por dia acima da produção. Alguns analistas acreditam que o déficit pode estar mais próximo de 8 milhões a 9 milhões de barris por dia.

Para cobrir a diferença, operadores têm drenado estoques de petróleo em terra e no mar, enquanto governos prometeram liberar suas reservas estratégicas. Mais de 2 milhões de barris/dia de petróleo emergencial dessas reservas estão entrando no sistema, mas muitas dessas liberações devem terminar em julho. As reservas globais caíram quase 380 milhões de barris desde que a guerra começou, segundo a AIE, excluindo os estoques inacessíveis retidos dentro do Golfo.

É difícil prever exatamente quando um ponto crítico poderá ser alcançado. A maior parte das reservas de petróleo – mais de 3 bilhões de barris – está nas mãos de petroleiras, tradings e refinarias, mas a maioria desse “estoque” faz parte do próprio funcionamento do sistema. Oleodutos exigem volumes mínimos para manter a pressão, refinarias precisam de fornecimento contínuo e tanques de armazenamento não podem ser completamente esvaziados sem risco de danos.

Analistas afirmam que os mercados entrariam em colapso muito antes de os estoques chegarem a zero. “O nível operacional mínimo varia de acordo com o país e o tipo de produto”, diz Paul Horsnell do Oxford Institute for Energy Studies.

O JP Morgan estima que os estoques dos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) podem se aproximar de “níveis operacionais críticos” já no início de junho.

Mas muita coisa vai depender da intensidade com que governos, empresas e consumidores começarão a racionar. Na maior parte das economias avançadas, analistas acreditam que a crise se manifestará principalmente por meio de preços mais altos, e não de escassez explícita.

Embora o petróleo Brent esteja sendo no momento negociado acima de US$ 105 o barril, Horsnell diz que isso ainda não bastaria para reduzir significativamente a demanda. “Isso ainda está bem abaixo do recorde histórico superior a US$ 140 o barril alcançado há 18 anos. Não faz muito tempo, achávamos que US$ 90 por barril era um preço normal”, diz ele

Em grande parte do mundo em desenvolvimento, porém, a escassez já é visível. A AIE disse que medias emergenciais implementadas no Paquistão, Sri Lanka e Filipinas desde o começo da crise “evocam lembranças” da crise energética de 2022, depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, um choque que acabou desencadeando crises de dívida em várias economias emergentes. Os três países introduziram temporariamente semanas de trabalho de quadro dias.

Até agora, no entanto, os preços dos alimentos não subiram tanto quanto os da energia, enquanto o dólar excepcionalmente forte que agravou a crise de 2022 para os países importadores de petróleo “está ausente agora”, segundo observou a AIE.

Os setores que sofrem a interrupção mais imediata são os de petroquímicos e aviação. Kim Fustier, chefe da análise europeia de petróleo e gás do HSBC, diz que o “epicentro” da perturbação para os consumidores agora está nos combustíveis refinados, cujos estoques estão se exaurindo rapidamente porque as refinarias relutam em comprar petróleo caro e arcar com custos explosivos de transporte marítimo.

Por ora, muitos economistas contam com uma melhora próxima da situação da oferta para fazer o preço do petróleo voltar a ficar abaixo dos US$ 100 o barril e evitar os piores cenários “estagflacionários”, marcados por inflação em forte alta e crescimento mais fraco.

Fonte: Valor Econômico

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