11/08/2026
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) pretende incorporar de forma mais explícita os efeitos das mudanças climáticas ao planejamento da operação do sistema elétrico brasileiro. A medida busca criar critérios específicos de resiliência climática para orientar tanto a operação quanto os investimentos necessários para aumentar a robustez do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Segundo o diretor do ONS, Alexandre Zucarato, a ideia é avaliar situações de extremos climáticos e identificar quando são necessários critérios diferenciados de operação e de investimentos.
“Uma das incorporações que estamos fazendo é trazer para dentro do planejamento da operação, de forma explícita, o tema de mudanças climáticas. A ideia é permitir uma avaliação, em situações de extremos climáticos, oportunidades de justificar operação e investimentos em critérios diferenciados para aumentar a robustez do sistema, porque aquilo que foi pensado para responder a um cenário em que os extremos tinham uma recorrência decamilenar, hoje está encurtando esse período de recorrência”, afirmou Zucarato durante fala em abertura de evento realizado pelo ONS sobre os reflexos do fenômeno El Niño no SIN nesta terça-feira, 11 de agosto.
De acordo com o diretor, considerar cenários climáticos extremamente raros para dimensionar investimentos pode elevar significativamente os custos. Por isso, o ONS avalia a adoção de critérios de resiliência climática que complementem os parâmetros tradicionais de confiabilidade do sistema, como os critérios N-1 e N-2.
A proposta poderá envolver tanto investimentos em ativos de transmissão quanto requisitos específicos para equipamentos. Entre os exemplos citados por Zucarato estão o aumento da resistência de torres de transmissão e a adoção de medidas operativas para permitir que o sistema atravesse períodos de condições climáticas extremas com maior segurança.
O diretor destacou que algumas dessas estratégias já fazem parte da rotina operacional do ONS e são adotadas de acordo com as condições observadas. Como exemplo, citou a operação do trecho de 765 kV associado a Itaipu em condição N-3 durante alertas climáticos. Zucarato também mencionou a experiência do Nordeste em 2021, quando o ONS adotava o critério N-1 e retornava ao N-2 ao identificar queimadas pelo sistema de monitoramento.
“Então, a ideia é tentar aumentar o uso de estratégias operativas como essas, que são condicionadas à conjuntura, mas também incorporar, seja no requisito do ativo, ou seja, na indicação de ativos de transmissão, o critério de resiliência climática como parte de um esforço de gestão e garantia da confiabilidade e da robustez do nosso sistema ”, explicou.
Os critérios N-1, N-2 e N-3 citados por Alexandre Zucarato são parâmetros tradicionais de confiabilidade que determinam quantas contingências simultâneas o sistema deve ser capaz de suportar.
Eventos mais recentes
Durante sua fala, o diretor-geral do ONS, Márcio Rea, lembrou de eventos recentes que provocaram danos em diversas torres de transmissão nas regiões Sul e Sudeste do país, além de atingir e danificar outras estruturas. Os episódios evidenciaram, segundo ele, a dificuldade de projetar a infraestrutura para condições climáticas que estão se tornando mais severas.
“É um desafio para a gente, para o setor, para as empresas, para os agentes, em tentar ter um pouco de previsibilidade, para a gente poder tentar achar uma solução, tentar achar alguma maneira de minimizar o problema”, afirmou.
Para Valter Cardeal, diretor de Operação do ONS, o sistema elétrico brasileiro está enfrentando eventos climáticos de intensidade e recorrência sem precedentes, o que coloca em discussão os critérios de segurança utilizados no dimensionamento das redes de transmissão e distribuição. Diante desse cenário, Cardeal defendeu uma avaliação dos critérios de segurança empregados no dimensionamento das torres de transmissão.
Segundo ele, é necessário verificar se os parâmetros utilizados no passado continuam adequados diante das novas condições climáticas.
O diretor afirmou que, historicamente, as estruturas eram dimensionadas considerando ventos de até 250 km/h, mas que determinados eventos recentes já ultrapassaram esse patamar.
“Não dá, não suporta ali no ciclone quando ele provoca o que nós chamamos de uma explosão. Naquele momento, ele passa de 250 km/h fácil. Um dos mais recentes que foi medido deu 280 km/h em determinado momento”, afirmou.
Cardeal ressaltou que não seria economicamente viável simplesmente transferir a infraestrutura elétrica para redes subterrâneas, como ocorreu em algumas áreas centrais de grandes cidades.
Por isso, segundo ele, o setor precisa transformar os eventos recentes em conhecimento para aprimorar as estruturas de transmissão e distribuição.
Previsibilidade e antecipação
Para a presidente do conselho de administração do ONS, Solange Ribeiro, a maior frequência e complexidade dos eventos climáticos tornam a capacidade de antecipação um dos principais desafios para o setor elétrico. Segundo ela, o ONS pode exercer um papel central como um hub de informações e inteligência climática, reunindo dados próprios e dos agentes.
“Quanto maior a nossa capacidade de antecipar isso, maior vai ser a nossa capacidade de proteger o sistema”, afirmou.
A executiva destacou que a antecipação é especialmente relevante para as distribuidoras, que precisam mobilizar equipes e recursos antes da ocorrência dos eventos para acelerar a resposta aos impactos.
Coordenação entre agentes
O segundo desafio apontado por Solange é a coordenação entre os diferentes agentes envolvidos na resposta a eventos extremos. Além de geradores, transmissoras e distribuidoras, a atuação envolve órgãos de defesa civil e governos estaduais.
“Ninguém faz nada sozinho e precisa, de fato, fortalecer a coordenação, o compartilhamento de informações e a própria comunicação”, disse a executiva.
Para a presidente do conselho, a qualidade dos dados e o compartilhamento das informações no momento adequado podem melhorar os diagnósticos e permitir respostas mais rápidas. A necessidade de coordenação também se torna mais evidente no sistema de distribuição, especialmente na interação com a defesa civil e no planejamento da infraestrutura dentro das cidades.
Investimentos e adaptação da infraestrutura
O terceiro desafio destacado por Solange é a necessidade de investimentos para tornar o sistema elétrico mais resiliente. Segundo ela, a adaptação das redes, a modernização da infraestrutura e a adoção de novas soluções serão necessárias para responder aos impactos climáticos.
A executiva também citou a discussão relacionada às normas de divulgação de riscos climáticos para empresas, como as normas IFRS S1 e S2, que incluem a avaliação dos efeitos de questões relacionadas ao clima sobre os negócios e ativos.
Para Solange, o setor terá de discutir não apenas quais investimentos são necessários, mas também como eles poderão ser reconhecidos e incorporados ao planejamento.
“Um sistema que estava preparado para o clima do passado” terá de responder aos desafios do clima futuro, afirmou.
Transmissão pode exigir novas soluções
Solange também citou uma estimativa apresentada durante as discussões de que, para suportar os níveis de vento atualmente observados nas linhas de transmissão, seria necessário multiplicar significativamente a quantidade de aço utilizada nas estruturas.
Segundo ela, a solução não pode ser simplesmente aumentar a quantidade de material empregada nas torres, devido à inviabilidade econômica. O desafio passa por incorporar os riscos climáticos ao planejamento e tomar decisões diferentes sobre localização e características dos ativos.
Entre as possibilidades estão avaliar onde construir subestações, definir a altura das redes em determinadas regiões e considerar as condições climáticas locais na expansão da infraestrutura.
“De que forma a gente pode agregar isso ao planejamento e já tomar algumas decisões de local que você constrói as subestações, o quanto você tem que altear a rede em algumas situações”, afirmou.
Na avaliação da executiva, o ONS tem um papel central nesse processo ao transformar conhecimento em preparação e coordenação. A discussão, segundo ela, não deve ser pontual, uma vez que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e os agentes do setor também vêm tratando do tema.
“Diante da situação climática que a gente tem hoje, é cada vez mais importante a gente coordenar, antecipar e agir de forma conjunta”, concluiu Solange Ribeiro.
Fonte: MegaWhat




