Após 28 anos na companhia, Cristiano Pinto da Costa deixa empresa no fim do mês para assumir expansão da XRG, em Abu Dhabi
14/07/2026
Quatro anos após assumir a Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa deixa a empresa com o dobro de participações em campos de petróleo do que tinha quando se tornou presidente da filial brasileira da anglo-holandesa, em 2022. Na ocasião, a Shell participava de cerca de 30 blocos e hoje atua em quase 70. Nessas áreas, produz cerca de 500 mil barris por dia de petróleo, o que a coloca como a segunda maior petroleira do país em extração, atrás apenas da Petrobras. Em 2025, a empresa investiu R$ 12,5 bilhões no Brasil.
“Nunca a Shell investiu tanto no Brasil quanto em 2025. O país passou a ser o maior produtor de petróleo do grupo no mundo”, disse Costa. Entre os principais investimentos realizados na gestão do executivo está o desenvolvimento do projeto Orca (antigo Gato do Mato), no pré-sal da Bacia de Santos. A Shell também arrematou em leilões áreas na porção sul da Bacia de Santos e na Bacia de Pelotas, entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, em parceria com a Petrobras.
Depois de 28 anos na empresa, o executivo vai deixar a Shell em 31 de julho para assumir a expansão da XRG, empresa criada em 2024 pela Adnoc, a estatal petroleira de Abu Dhabi. O foco, explicou, será em segmentos como petroquímica, negócios de baixo carbono e gás natural, com investimentos entre US$ 100 bilhões e US$ 150 bilhões até 2030. A XRG planeja diversificar investimentos para regiões além do Oriente Médio.
Costa será sucedido a partir de 1º de agosto pelo executivo português João Santos Rosa, que estava na Shell Itália. O convite da XRG, segundo o executivo, veio no momento em que ele pretendia voltar a atuar no exterior. Os planos casaram com a estratégia de crescimento da XRG, que inclui a região das Américas – do Canadá à Argentina. “Passei quase 20 anos da minha carreira fora do Brasil e, apesar de ter sido muito feliz ao estar de volta, senti vontade de voltar ao mercado internacional e fazer algo global.”
Na visão dele, o Brasil tem oportunidades que podem ser inseridas nos projetos da XRG. No cenário atual, em que a geopolítica vem ditando, nos últimos anos, o desenho do mercado de energia, o Brasil ganhou papel de maior relevância junto com os Estados Unidos e o Canadá. Desde 2022, quando eclodiu a guerra na Ucrânia, o mundo reduziu a velocidade da transição energética para priorizar a segurança do suprimento.
O Brasil, nesse caso, ganha protagonismo pelo lado da indústria de óleo e gás e pela transição energética, por ter grandes reservas de petróleo, um poder hidrelétrico “fantástico”, potencial elevado de gerar energia eólica e solar e oferta abundante de matéria-prima para biocombustíveis, especialmente etanol por meio da cana-de-açúcar e do milho, disse Costa.
O executivo projeta que o avanço dos carros elétricos no país poderá permitir que a oferta do etanol usado em veículos leves seja redirecionada nas próximas décadas para outros meios de mobilidade com descarbonização mais difícil, como veículos pesados, navegação e aviação. A Shell, acrescenta ele, está testando etanol em embarcações de apoio a operações “offshore”, misturando o produto ao combustível fóssil para reduzir emissões de carbono.
Além do alto potencial de produção de biocombustíveis, o país se tornou protagonista na produção global de petróleo como exportador, acrescentou. O movimento é impulsionado pelo pré-sal nos últimos 15 anos. Costa diz que o óleo brasileiro não precisa cruzar nenhuma rota “complicada” para acessar mercados como o chinês e o europeu.
Outro fator foi a retomada de leilões anuais de petróleo a partir de 2021, o que é “construtivo”, segundo ele. “Obviamente, o Brasil pode ser um protagonista no novo rearranjo de alocação global de capital se conseguirmos acertar a mão nas questões de competitividade, licenciamento ambiental, estabilidade regulatória, jurídica e fiscal”, disse o executivo.
Neste quesito, ressaltou, a recente decisão do governo de estender a vigência do imposto de exportação de petróleo provoca reabertura de contrato e aumento de carga fiscal sobre um setor que dedica dois barris de cada três produzidos para impostos, participações especiais e royalties. Isso pode gerar desvantagem do Brasil frente a outros países que competem pelo dinheiro dos investidores que buscam novas fronteiras petrolíferas, como Guiana, Argentina e Namíbia, afirmou. Em outros países, afirmou Costa, a carga tributária sobe na alta do preço do petróleo e vice-versa.
“Os modelos contratuais de concessões de exploração e produção são diferentes no mundo. Uma das coisas que fazem o Brasil ser atrativo frente a outras jurisdições é um modelo independente do preço do petróleo. Você decide tomar o risco. Se o preço subir, você ganha mais; quando cai, você arca sozinho”, explicou.
Costa prossegue: “o que parece estar acontecendo é que se escolhe um modelo como país, mas depois, ao longo do contrato, vai ajustando o modelo dependendo da necessidade do momento. Isso também é uma instabilidade jurídica, uma mudança do contrato.”
Para o executivo, seu sucessor tocará uma organização com um grau de comprometimento com o país que é reconhecido pelo Grupo Shell como acima da média de outros países. Segundo ele, a ida de João Santos Rosa para a Itália foi pensada tendo em mente a sucessão futura no Brasil. Embora a Itália tenha operação menor, há elementos semelhantes entre os dois países que podem ajudar no momento da sucessão. “Quero que ele [Rosa] seja tão feliz tocando a Shell Brasil quanto eu fui.”
Fonte: Valor Econômico



