Cerco de Ormuz aumenta pressão sobre petróleo

Subvenções do governo para mitigar efeitos da guerra podem não ser suficientes, caso cotações do petróleo sigam em alta
14/04/2026

O bloqueio promovido pelos Estados Unidos no Estreito de Ormuz, na segunda-feira (13), dias após um anunciado cessar-fogo, não só elevou os preços internacionais do petróleo como pode desestabilizar ainda mais os mercados globais, com riscos de que o conflito se amplie, na avaliação de especialistas. No Brasil, afirmam, as subvenções concedidas pelo governo para mitigar impactos da guerra podem não ser suficientes caso as cotações sigam em alta.

Com a movimentação americana no Golfo Pérsico, o barril do petróleo tipo Brent, para entrega em junho, ficou acima dos US$ 100 em parte do dia de ontem, mas terminou o pregão em US$ 99,26, alta de 4,36%.

Em paralelo, a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) reduziu em 500 mil barris/dia a previsão de demanda da commodity para o segundo trimestre, em relação ao projetado pela entidade em março, para 105,07 milhões de barris/dia em abril. No Brasil, nos últimos 30 dias, o governo editou várias medidas para diesel e o gás de cozinha (GLP). Ontem, os preços do diesel ficaram de 29,2% a 42,8% abaixo do exterior, a depender da casa consultada (ver quadro acima).

Felipe Germini, fundador e presidente da Germini Energy, disse que o bloqueio de Ormuz representa o maior choque de oferta da história moderna, ao reduzir a praticamente a zero o trânsito de 20 milhões de barris/dia de petróleo. Sem Ormuz, afirmou, o petróleo consolida uma cotação entre US$ 100 e US$ 110, com risco real de superar US$ 120 se a situação se prolongar. “O impacto nos derivados é proporcionalmente muito maior do que no petróleo bruto. Diesel e querosene de aviação são os mercados mais estressados”, acrescentou Germini.

Luiz Augusto Rutledge, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e analista de geopolítica energética, afirmou que a ação dos EUA impedirá um fluxo da ordem de 2 milhões de barris/dia de petróleo iraniano, aumentando a escassez e tensionando ainda mais o mercado de derivados. Rutledge ressaltou que o bloqueio motivará uma nova escalada nos preços do petróleo, agravando o cenário global e uma potencial falta de combustíveis. “Esses impactos tendem a se transmitir ao Brasil não apenas por meio do encarecimento dos combustíveis, mas também pela restrição na oferta de fertilizantes.”

Para David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e consultor, há risco ao suprimento de derivados caso a alta nos preços externos se mantenha e o Brasil não acompanhe esse movimento. “Se o petróleo importado não é competitivo, há risco de desabastecimento”, afirmou. Zylbersztajn destacou que o governo não erra em adotar medidas que amorteçam impactos da guerra, mas lembra que a causa da alta do petróleo, o conflito, é algo sobre o qual não se tem controle.

“Com o aumento nos preços, aumenta a necessidade da Petrobras reajustar seus preços, mas não acredito que haverá, em curto prazo, essa movimentação”, disse Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom).

Fonte: Valor Econômico

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