Mundo se aproxima de um colapso na oferta de gás

Navios que partiram do Oriente Médio antes do início dos ataques com mísseis do Irã devem chegar aos seus destinos nos próximos 10 dias
23/03/2026

Países de todas as partes do mundo enfrentam uma situação crítica, uma vez que o fluxo de gás natural liquefeito (GNL) proveniente do Golfo Pérsico será interrompido nos próximos dez dias, quando os últimos navios petroleiros que deixaram a região alcançarem seus destinos.

O Catar, responsável por um quinto da produção mundial de GNL, foi obrigado a suspender as exportações depois que o Irã bloqueou o Estreito de Ormuz nos primeiros dias do conflito.

Desde então, o país sofreu danos enormes em sua gigantesca unidade produtora de GNL de Ras Laffan, que foi atacada por mísseis iranianos dias atrás, fazendo disparar os preços do gás na Ásia e Europa.

Mas muitos navios de GNL que haviam sido carregados no Catar e nos Emirados Árabes Unidos (EAU) já estavam a caminho de seus destinos antes de a guerra começar, segundo análise da corretora marítima Affinity. Isso significa que só agora alguns compradores estão prestes a sentir os efeitos da interrupção do fornecimento.

Os países que dependem das importações para sustentar suas economias terão de pagar preços exorbitantes para competir por cargas de GNL dos EUA e outras origens, recorrer a combustíveis alternativos ou impor restrições ao consumo de residências e empresas.

Muitos países asiáticos com escassez de petróleo e gás já adotaram medidas para economizar combustível, como reduzir a semana de trabalho a quatro dias.

Apenas uma carga de GNL do Golfo está programada para chegar à Ásia, que compra quase 90% da produção da região, segundo dados da Affinity. A Europa deve receber ainda seis cargas de GNL.

O Paquistão encontra-se em uma situação particularmente vulnerável. Quase 99% de suas importações de GNL vieram do Catar no ano passado. Suas últimas cargas provenientes de Ras Laffan chegaram no segundo e no terceiro dias da guerra com o Irã. Os dois terminais de importação de GNL do país reduziram suas operações para um sexto dos níveis normais e pararão completamente de despachar gás até o fim do mês, segundo duas fontes a par da situação.

Um dos dois terminais, pertencentes à Pakistan GasPort, ficará sem GNL para processar nos próximos dias, segundo seu CEO e presidente do conselho Iqbal Ahmed. “Depois disso, vamos ficar sem nada”, disse ele. “Não sabemos quando a próxima carga vai chegar.”

Antes do início dos ataques dos EUA e Israel contra o Irã, Islamabad enfrentava um excesso de oferta de GNL e havia pedido ao fornecedor QatarEnergy que redirecionasse 24 cargas previstas para chegar ao Paquistão neste ano. Também solicitou à italiana Eni que redirecionasse outros 11 carregamentos. A estatal Pakistan LNG pediu à Eni que enviasse parte desses carregamentos após o inicio da guerra, segundo uma fonte, mas o pedido não foi atendido. A Eni não quis comentar.

A Pakistan LNG também entrou em contato com tradings e fornecedores da Europa, Omã, EUA, Azerbaijão e África, mas todos apresentaram preços elevados demais para que o Paquistão pudesse aceitar, disse a fonte. A Pakistan LNG não quis comentar.

Comprar GNL no mercado à vista (spot) é proibitivamente caro para o Paquistão. Os preços asiáticos do GNL, medidos pelo indicador Platts JKM, dobraram desde o início da guerra, atingindo cerca de US$ 23 por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu). Os custos de transporte também aumentaram por causa da alta dos fretes e das rotas mais longas até fornecedores alternativos de GNL.

É provável que o Paquistão recorra, tanto quanto possível, ao uso de óleo combustível, mais caro e poluente, para gerar energia, caso o conflito continue. Mesmo assim, “prevejo que teremos um ano muito difícil, seguido por mais dois ou três anos difíceis”, diz Ahmed da GasPort.

Bangladesh está vulnerável por motivos parecidos, embora em menor grau, porque recebe parte de seu GNL de fora do Golfo. Ainda assim, terá dificuldade para arcar com preços exorbitantes para substituir o gás que normalmente viria da região e carece de combustíveis alternativos. O governo já iniciou medidas de racionamento de gás, incluindo o fechamento de universidades.

Por ser um dos maiores compradores de GNL do Golfo, Taiwan vem enfrentando as consequências de sua tentativa de substituir o carvão por gás – de queima mais limpa – ao mesmo tempo em que elimina gradualmente a energia nuclear antes de completar a transição para fontes renováveis. O país agiu rapidamente para garantir cargas substitutas logo após o início da guerra.

Em 10 de março, o Ministério de Assuntos Econômicos informou que 22 carregamentos do Golfo haviam sido assegurados, garantindo o abastecimento até abril. Ainda assim, a demanda por eletricidade aumenta no verão, elevando o risco de “escassez severa de energia” se o Estreito de Ormuz permanecer fechado, afirma Kevin Li do Centro Global de Energia do Atlantic Council.

China e Japão também deverão recorrer à compra de cargas de GNL no mercado à vista para compensar a redução do fornecimento, segundo operadores do setor. “Nosso plano é comprar no mercado à vista, com base no JKM, para cobrir o abastecimento”, disse um operador japonês de GNL. Mas operadores e concessionárias estão adotando uma postura de esperar para ver e devem voltar a usar carvão.

As concessionárias japonesas estão, por ora, segurando compras de GNL, disse outro operador. “Só alguns compradores estão considerando cargas no mercado à vista.” Embora o Japão seja o segundo maior importador de GNL do mundo, atrás da China, ele está menos exposto à interrupção dos fluxos do Oriente Médio, já que apenas 6% de seu abastecimento passa pelo Estreito de Ormuz.

A China obtém cerca de 30% do GNL que consome do Golfo, mas conta com alguma produção interna de gás e pode recorrer à geração elétrica a carvão, se necessário.

O Japão também deve aumentar o uso de carvão e energia nuclear para gerar eletricidade. Em janeiro, o país retomou parcialmente as operações da maior usina nuclear do mundo, localizada em Niigata.

Enquanto mais navios não foram autorizados a atravessar o Estreito de Ormuz, a oferta global de GNL permanecerá apertada.

Mesmo depois disso, haverá menos gás disponível no mercado porque 17% da capacidade de produção de GNL do Catar continuará fora de operação por três a cinco anos em razão dos ataques à unidade de Ras Laffan, segundo afirmou dias atrás o ministro da Energia do país.

Fonte: Valor Econômico

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