Choque nos preços do gás acende alerta em países de Ásia e Europa

Suspensão da produção de GNL no Catar ameaça provocar uma crise maior na oferta do que a guerra da Ucrânia
04/03/2026

Os preços do gás na Ásia e Europa decolaram diante da disseminação do conflito no Oriente Médio, com a interrupção quase total da navegação pelo Estreito de Ormuz e a paralisação da produção de gás natural liquefeito (GNL) depois dos ataques iranianos às principais instalações produtivas do Catar, em Ras Laffan.

A situação traz o fantasma de uma repetição de 2022, quando o fluxo de gás russo para a Europa foi reduzido enquanto Moscou se preparava para atacar a Ucrânia (e, depois, com o invasão de fato), desencadeando uma alta de preços que abalou as economias da região.

Em volume absoluto, este choque poderia ser pior do que em 2022. No caso da Rússia, houve uma perda anual de 80 bilhões de metros cúbicos de suprimento anual do país, em comparação às remessas de 120 bilhões de metros cúbicos que poderiam deixar de sair do Oriente Médio com o virtual fechamento do Estreito de Ormuz e a paralisação de dois campos de gás israelenses.

Tudo depende, entretanto, de quanto tempo essas interrupções vão durar. Um conflito prolongado poderia ter um “efeito comparável” ao da guerra da Ucrânia, segundo Natasha Fielding, da firma de dados e inteligência de mercado Argus Media, mas “se isto for uma interrupção temporária, de uma semana, então, não haveria comparação com o momento divisor de águas que foi 2022”.

Embora as cotações do gás tenham subido quase 80% na Europa desde a sexta-feira, o aumento do MWh, para cerca de € 57, é um desdobramento modesto se comparado ao patamar atingido em 2022, de € 343 por MWh.

Ainda assim, o cenário preocupa tendo em vista que o Oriente Médio é uma importante região produtora de gás e o Catar é a força dominante. Como há relativamente poucos gasodutos, a grande maioria é exportada na forma de GNL em navios especializados. O Catar tornou-se o segundo maior fornecedor mundial de GNL, com cerca de 20% da oferta mundial.

Embora represente apenas entre 7% e 8% da oferta mundial total de gás, o GNL é uma fonte marginal crucial em muitos países e, portanto, age na formação dos preços.

“Tudo que ocorre no mercado global de GNL frequentemente define o preço em mercados como a Europa e a Ásia”, disse Andreas Schroeder, chefe da área de energia na ICIS.

A produção de GNL do Catar é muito maior que a de seu vizinho Emirados Árabes Unidos. O único outro produtor na Península Arábica é Omã, que possui instalações exportadoras no lado do Estreito de Ormuz que dá para o mar aberto, o que permite às remessas continuarem mesmo quando navegar pelo Golfo Pérsico é impossível.

O choque no suprimento do gás do Catar vem sendo acompanhado de perto por políticos em países que podem ser afetados e temem mais pressões sobre os custos para famílias e empresas.

China e Índia são os maiores importadores de GNL do Catar, seguidos por Taiwan, Paquistão e Coreia do Sul. Em 2025, o Paquistão recebeu 99% de suas importações de GNL do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, enquanto a Índia e Bangladesh dependem desses países para mais da metade de suas necessidades, segundo da Kpler.

A Europa obtém apenas cerca de 10% de seu GNL no Catar, mas essa proporção sobe para cerca de 35% no caso da Itália. De qualquer forma, a perda do GNL catariano incrementará a competição internacional por suprimentos, com os compradores asiáticos agora desesperados para substituir o Catar e provavelmente em busca de cargas dos EUA que, de outra forma, iriam para a Europa.

Nesse cenário, ministros italianos realizaram reuniões de emergência com grandes grupos empresariais na segunda-feira.

Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, defendeu uma redução da escalada no conflito para evitar “danos ao crescimento econômico global”.

Alguns mercados deverão voltar à geração de energia a carvão caso os preços do gás permaneçam muito altos, segundo Chong Zhi Xin, diretor da área de análises de gás da Ásia na S&P Global Energy.

Em termos históricos, o Catar era um grande fornecedor de gás importado para o Reino Unido, tendo chegado a até 40% dessas importações em seu pico, em 2011.

No entanto, desde 2022, à medida que os EUA expandiram sua indústria de GNL após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, o Reino Unido passou a recorrer cada vez mais às remessas americanas.

Em 2024, 17% das importações de gás do Reino Unido vieram dos EUA e apenas 1,9% do Catar, sendo que a Noruega é o principal fornecedor.

No curto prazo, porém, especialistas afirmam que o gás do Oriente Médio não pode ser substituído. As usinas de GNL já operam com capacidade máxima após vários anos de preços relativamente altos. E, embora a gigantesca instalação Golden Pass, nos EUA, financiada pela QatarEnergy e pela ExxonMobil, deva começar a operar ainda em 2026, ela precisará incrementar a produção de forma apenas gradual antes de atingir plena capacidade.

“O que entrar em operação vai ocorrer de forma bastante progressiva”, disse Anne-Sophie Corbeau, analista do Center on Global Energy Policy, da Universidade Columbia.

Análises feitas em modelos econômicos pelo Oxford Institute for Energy Studies em 2025 concluíram que um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz resultaria em uma perda líquida em torno a 86 bilhões de metros cúbicos de GNL, equivalente a cerca de 15% da oferta mundial de 2024.

Em termos da oferta enviada por gasodutos que poderia substituir o GNL, os fluxos de gás russo para a China já estão no limite máximo. Uma questão em aberto é se a Europa poderia adiar seus planos de eliminação gradual das importações ainda restantes de gás russo, algo que pode fazer se houver uma ameaça séria à segurança de abastecimento. Anna-Kaisa Itkonen, porta-voz da Comissão Europeia, disse “não haver escassez nem emergência”.

Produtores de gás, inclusive nos EUA, o maior exportador mundial de GNL, provavelmente se beneficiarão da interrupção da produção do Catar. Outros exportadores, como a Noruega, Argélia e Azerbaijão, também se beneficiarão, segundo Fielding, da Argus.

Fonte: Valor Econômico

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