Analistas preveem preço do barril perto de US$ 100, o que impactará no crescimento e na inflação global
02/03/2026
No último ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou uma guerra comercial, atacou instituições americanas como o Federal Reserve (Fed) e ameaçou aliados por causa da Groenlândia, mas o crescimento global mostrou-se resiliente. A inflação continuou caindo e os mercados de ações da Europa e outras partes do mundo atingiram novas máximas, apesar dos choques.
Agora, com o ataque ao Irã se transformando em um conflito regional mais amplo, o mercado de petróleo é o principal canal para determinar se essa trajetória relativamente favorável continuará, dado o potencial de a conflagração interromper o fornecimento.
A questão é saber se os EUA e seus parceiros conseguirão evitar uma interrupção prolongada dos embarques de energia pelo Estreito de Ormuz, que se estende ao longo da costa sul do Irã. Se o tráfego continuar fluindo e os aumentos de preços forem contidos pela decisão de ontem dos produtores de petróleo de elevar a produção, o impacto sobre o crescimento poderá permanecer limitado.
Caso contrário, uma alta nos preços da energia ameaça reacender a inflação nas principais economias, frustrar os planos de corte de juros dos bancos centrais e abalar a confiança nos negócios.
Na segunda-feira, o Brent subiu na Ásia até 13%, para mais de 82 dólares por barril, o nível mais alto desde janeiro de 2025. Mas depois desse pico, começou a recuar. O tráfego de petroleiros por Ormuz foi praticamente interrompido, com uma pausa autoimposta por armadores e comerciantes. Embora as autoridades iranianas tenham afirmado no domingo que a via permanecia aberta, também disseram ter atacado três petroleiros.
“O petróleo é o canal decisivo”, diz Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics.
Há dois cenários principais para os mercados de energia, segundo Edward Fishman, pesquisador do Council on Foreign Relations e autor de “Checkpoints”, um livro sobre a guerra econômica dos EUA.
Sob um desses cenários, haveria “uma interrupção significativa e prolongada de todo o tráfego no Estreito de Ormuz, que é o ponto de estrangulamento marítimo mais importante do mundo”, diz ele. Como o estreito responde por cerca de um em cada cinco barris transportados no mundo, se ele for fechado “estaríamos diante de um choque monumental nos preços globais do petróleo”.
Tal cenário poderia lançar os preços do petróleo para mais de US$ 100 o barril, segundo analistas. O tipo Brent já se encontra perto do maior nível em sete meses, a US$ 73 o barril, após subir quase 12% no último mês, diante das expectativas de um conflito entre os EUA e o Irã.
Os fluxos de gás natural também seriam afetados, desencadeando pressões inflacionárias em grandes mercados, incluindo a Europa.
O cenário mais provável e menos danoso é que não haja um fechamento total do Estreito de Ormuz, mas que as próprias exportações de petróleo do Irã sejam interrompidas, afirma Fishman. Nesse caso, um aumento no preço do petróleo para pelo menos US$ 80 o barril seria mais provável.
Se outros produtores de petróleo aumentarem a produção, o impacto poderia ser mais limitado. Neste domingo, a Opep+ disse que elevará a produção em abril em 206.000 barris/dia, numa tentativa do grupo liderado pela Arábia Saudita de acalmar os mercados de petróleo. O aumento é inferior ao que alguns analistas e observadores da Opep+ esperavam.
Um aumento de US$ 10 por barril “não terá grande impacto” na inflação e no crescimento, segundo Shearing, da Capital Economics.
Embora o Irã seja um importante fornecedor para economias como a China, ele não é crucial para o consumo global de petróleo. Ele produziu 3,45 milhões de barris/dia em janeiro, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), menos de 3% da oferta.
Os EUA são hoje em grande medida autossuficientes em energia. Dados da Administração de Informação Energética dos EUA mostram que apenas 17% da energia consumida pelos americanos em 2024 foi importada – a menor parcela em 40 anos.
Mas isso não significa que uma interrupção no fluxo de petróleo do Golfo seria irrelevante para economia dos EUA. “Uma forte alta nos preços globais do petróleo poderia causar prejuízos aos consumidores e às empresas americanas”, diz James Knightley, economista do ING para os EUA.
Isso se traduziria em preços mais altos da gasolina, impondo uma pressão visível sobre os consumidores, muitos dos quais já se queixam de uma crise no custo de vida às vésperas das decisivas eleições de meio de mandato.
O petróleo a US$ 100 o barril poderia elevar a inflação medida pelos preços ao consumidor nos EUA de 2,4% no acumulado de 12 meses até janeiro para mais de 4%, segundo estimativa de Knightley. O Fed tem como meta uma inflação de 2%, medida pela variação anual do índice de preços de gastos com consumo pessoal.
No curto prazo, isso tornaria menos provável que o Fed reduzisse as taxas de juros mais adiante.
A guerra de 12 dias entre Israel e Irã no ano passado teve apenas efeitos passageiros sobre os preços das commodities, mas um conflito mais prolongado e severo enfraqueceria a economia nos EUA e em outras regiões.
“A cada alta sustentada de US$ 10 por barril no preço do petróleo, o crescimento pode perder de 10 a 20 pontos-base nos 12 meses seguintes”, diz Ajay Rajadhyaksha, chefe de pesquisa de juros do Barclays. “Se o petróleo subisse, digamos, para US$ 120 o barril e permanecesse nesse nível, os EUA (e a economia mundial) sofreriam um impacto considerável”.
Outro efeito colateral, segundo economistas do Barclays, poderia ser uma valorização do dólar. “Os acontecimentos no Oriente Médio apontam para riscos elevados de um conflito prolongado e de preços mais altos do petróleo. Historicamente, choques desse tipo sustentam o dólar”, afirma Themistoklis Fiotakis, economista do banco britânico.
O Barclays prevê uma valorização do dólar diante de uma cesta de moedas globais “na ordem de 0,5% a 1% para cada aumento de 10% no preço do petróleo”.
A China é uma grande compradora de petróleo do Golfo, o que significa que sua economia seria prejudicada por uma interrupção do tráfego. Cerca de 84% do petróleo bruto e do condensado, e 83% do gás natural liquefeito, que passaram pelo Estreito de Ormuz em 2024 tiveram como destino mercados asiáticos, segundo a Administração de Informação Energética dos EUA. China, Índia, Japão e Coreia do Sul figuraram entre os principais destinos, acrescenta ela.
Um aumento do petróleo Brent para US$ 100 o barril poderia acrescentar entre 0,6% e 0,7% à inflação global, segundo analistas da Capital Economics. A Europa também estaria entre as economias bastante afetadas por uma disparada não apenas nos preços do petróleo, mas também nos custos do gás natural liquefeito (GNL).
O impacto imediato para a política monetária do Banco Central Europeu, porém, poderia ser relativamente limitada, uma vez que a inflação na zona do euro permanece confortavelmente abaixo da meta de 1,7%. Isso poderia permitir ao BCE manter sua atual orientação de estabilidade dos juros.
Para o Banco da Inglaterra, as implicações de uma forte alta nos preços do petróleo podem ser mais imediatas, segundo Hetal Mehta, economista-chefe da gestora de recursos St James’s Place.
A resposta “clássica” dos bancos centrais diante de um choque nos preços do petróleo é “olhar além” do aumento, em vez de reagir a ele, uma vez que o impacto de longo prazo pode ser desinflacionário, já que o poder de compra do consumidor é corroído por custos mais altos de energia.
Mas isso pode ser mais difícil para o Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra, que está dividido quanto à conveniência de um corte de 0,25 ponto porcentual na taxa de juros já na reunião deste mês.
“Dado o quão equilibrada está a votação, acredito que isso pode tornar um pouco mais difícil avançar com um corte nos juros até que haja mais clareza sobre a magnitude da reação inicial aos preços do petróleo e sobre quanto tempo ela pode durar”, diz Mehta.
O conflito ocorre em um momento já tenso para os mercados financeiros globais. Na sexta-feira, as ações bancárias dos EUA tiveram suas maior queda desde o choque provocado pelas tarifas anunciadas por Trump em abril, diante de preocupações com uma desaceleração no crédito privado em com a ruptura que a inteligência artificial está provocando nas grandes empresas. As ações de tecnologia dos EUA continuaram em queda associada à IA, levando as perdas do índice Nasdaq Composite a mais de 3% em fevereiro.
Um conflito prolongado no Golfo que desestabilize os mercados globais de energia representaria um novo choque de confiança para os mercados, especialmente se alimentar temores de uma menor propensão do Fed em flexibilizar sua política monetária.
Também poderia abalar o otimismo das empresas e conter os investimentos, segundo Tomasz Wieladek, economista-chefe da T Rowe Price para a Europa. “Há uma sensação de que choques demais estão ocorrendo de uma só vez. Temos a Venezuela, a Groenlândia, as tarifas e agora o Irã, tudo em questão de dois meses.”
Outros analistas, porém, mantêm-se mais otimistas, diante do desempenho vigoroso da economia mundial no último ano. “Apesar da sucessão de eventos geopolíticos recentes, o nível de crescimento da economia e do comércio globais tem sido incrivelmente resiliente”, diz Innes McFee, economista-chefe da consultoria britânica Oxford Economics.
Fonte: Valor Econômico



