O ano começou e a hotelaria global entra em um período de transição marcado por mudanças fiscais, eventos de grande porte e incertezas macroeconômicas — um cenário que dialoga diretamente com a realidade brasileira, na qual a Reforma Tributária avança e promete alterar de forma estrutural a carga de impostos sobre o setor de serviços, incluindo hotéis e resorts. Enquanto mercados internacionais já sentem os efeitos de aumentos de impostos e novas taxas, o Brasil observa com atenção como essas transformações podem influenciar competitividade, preços e investimentos nos próximos anos.
De acordo com uma publicação recente da STR, o mercado hoteleiro mundial atravessa um ambiente complexo ao projetar seu desempenho para 2026, aponta o Hotel News Resource. As previsões variam significativamente entre as regiões, influenciadas por condições econômicas locais, mudanças tributárias e eventos relevantes, como a Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. Embora alguns mercados apontem crescimento, outros enfrentam revisões negativas diante de políticas fiscais mais rígidas e incertezas econômicas.
Na Europa, as projeções de curto e médio prazo para o RevPAR permanecem estáveis em 31 mercados analisados. A região deve encerrar 2025 com crescimento de 1,1% no indicador, acima da previsão de 0,7% divulgada em agosto, mas a expectativa é de desaceleração para 0,5% em 2026.
Um dos principais fatores de pressão no continente é o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), com destaque para a Holanda. A partir de janeiro de 2026, a alíquota para a hotelaria no país sobe de 9% para 21%, o que levou à revisão negativa do desempenho de Amsterdã, que agora projeta queda de 5,6% no RevPAR em 2026. Outras cidades europeias, como Viena e Edimburgo, também implementaram novos tributos, impactando suas respectivas projeções.
No Reino Unido, o mercado segue relativamente estável. Londres deve registrar crescimento de 0,7% no RevPAR em 2026, enquanto o restante do país projeta avanço de 1,0%. Segundo a STR, esse comportamento reflete o crescimento econômico moderado, a pressão sobre os salários reais e cortes de juros mais lentos do que o esperado, fatores que afetam diretamente a renda e o consumo das famílias.
Já na Ásia-Pacífico, o cenário é mais heterogêneo. A região deve crescer 1,4% em 2025 e 2,7% em 2026, impulsionada principalmente por ajustes favoráveis no calendário de feriados na China. O desempenho do país tem sido determinante para a estabilização regional, embora cidades como Guangzhou tenham sofrido rebaixamentos nas projeções devido ao aumento da oferta e à desaceleração da ocupação.
Hong Kong, por outro lado, apresentou uma revisão positiva relevante, sustentada por avanços tanto na ocupação quanto na diária média. O destino se beneficia do aumento das viagens emissivas da China, especialmente em rotas de curta distância.
No Oriente Médio, o otimismo persiste. A STR projeta crescimento de 9,8% no RevPAR em 2025 e mais 1,6% em 2026. Emirados Árabes Unidos, como Abu Dhabi e Dubai, devem se destacar, impulsionados pelo aumento das chegadas internacionais e por um pipeline de novos empreendimentos mais controlado. A Arábia Saudita, contudo, enfrenta desafios relacionados à ambiciosa agenda da Vision 2030, que pode pressionar o desempenho no curto e médio prazo diante do volume elevado de novos projetos.
Nos Estados Unidos, a perspectiva para 2026 é de cautela. O RevPAR foi revisado para crescimento de apenas 0,5%, com avanço moderado tanto na demanda quanto na diária média. O primeiro trimestre de 2026 deve registrar retração, marcando o quarto trimestre consecutivo de queda na comparação anual. Ainda assim, a Copa do Mundo tende a gerar um impulso pontual, especialmente em destinos de maior padrão, com impacto mais evidente sobre as tarifas.
Cenário brasileiro
As mudanças fiscais em curso no Brasil colocam a hotelaria diante de um cenário semelhante ao observado em mercados internacionais que já passaram por revisões relevantes na tributação sobre serviços. A Reforma Tributária, que prevê a substituição de tributos como PIS, Cofins, ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e ISS (Imposto sobre Serviços) por um modelo de IVA dual — composto pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), de âmbito federal, e pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de competência estadual e municipal — tende a alterar de forma estrutural a dinâmica de custos e preços do setor.
Para a hotelaria, que opera com margens pressionadas, falta de mão de obra e forte sensibilidade à variação de tarifas, o desenho final das alíquotas será determinante. A experiência europeia citada no relatório da STR mostra que aumentos expressivos de impostos sobre hospedagem têm impacto direto no desempenho do RevPAR, seja pela redução da demanda, seja pela dificuldade de repassar integralmente os custos ao consumidor final.
No Brasil, a transição para o novo sistema ocorre em um momento de crescimento do turismo, com alta dos fluxos doméstico e internacional. Nesse contexto, eventuais elevações na carga tributária podem afetar a competitividade dos destinos nacionais frente a outros países da América Latina, especialmente em um ambiente global marcado por cautela econômica e maior seletividade do viajante.
Por outro lado, a proposta de simplificação do sistema tributário e a redução da cumulatividade de impostos podem trazer ganhos de eficiência operacional no médio e longo prazo. A previsibilidade fiscal e a padronização de regras também tendem a influenciar decisões de investimento, expansão e reposicionamento de ativos hoteleiros, sobretudo em um setor cada vez mais orientado por dados, rentabilidade e retorno de capital.
À medida que mercados internacionais já ajustam suas projeções diante de mudanças tributárias concretas, o avanço da Reforma Tributária no Brasil passa a integrar o radar estratégico da hotelaria. O impacto final dependerá do equilíbrio entre arrecadação, competitividade e estímulo ao turismo — fatores que, como mostram os dados globais, têm peso direto no desempenho do setor.
https://hoteliernews.com.br/tributacao-vira-ponto-chave-para-a-hotelaria-brasileira-em-2026/