Data centers podem levar Paraguai a usar toda sua parte de Itaipu

22/10/2026

O crescimento do consumo de energia no Paraguai, que já vem reduzindo o excedente da hidrelétrica binacional de Itaipu destinado ao Brasil, poderá ganhar uma nova demanda com a instalação de um data center anunciado nesta semana pelo governo dos Estados Unidos. 

O empreendimento começará a operar em 2027 e poderá alcançar 280 MW no longo prazo, potência que, se utilizada continuamente, equivaleria a quase 25% da energia da parcela paraguaia recebida pelo Brasil em 2025.

O projeto se insere em um movimento já considerado nos estudos de planejamento energético brasileiro. A usina binacional, que tem 14 mil MW de potência instalados, tem a geração de energia dividida de forma igual entre Brasil e Paraguai. O país vizinho, porém, historicamente não utiliza toda a capacidade disponível, e o Brasil é obrigado a comprar o excedente por um preço acordado entre as alas diplomáticas de seus respectivos governos.

Após décadas de estagnação, o consumo de eletricidade no Paraguai tem crescido, ancorado, principalmente, na chegada de data centers voltados para mineração de criptomoedas, atraídos pelo baixo preço da energia. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), entre 2023 e 2025, o fornecimento de Itaipu ao Paraguai aumentou 32%, enquanto a energia da parcela paraguaia destinada ao Brasil caiu 53%. 

O anúncio feito pelo governo dos Estados Unidos marca um novo momento dessa expansão do consumo de energia do Paraguai. A americana Crusoe divulgou nesta quinta-feira, 22 de outubro, detalhes da parceria com a paraguaia Araico para desenvolver o o empreendimento. 

A primeira etapa deverá entrar em operação em meados de 2027, com expansão até 106 MW de capacidade de tecnologia da informação (TI), cerca de 10% da energia excedente de Itaipu enviada ao Brasil ano passado.  No longo prazo, a empresa prevê a possibilidade de ampliação até os cerca de 280 MW, ou 23,5% do total exportado em 2025.

“Esse montante é pequeno, mas pode ser o começo de um novo negócio para Itaipu, o que, naturalmente, pode aumentar a utilização pelo Paraguai dessa energia, com implicações para o Brasil”, disse Luiz Barroso, CEO da PSR, à MegaWhat.

Para Barroso, a atração de novos data centers poderá, no longo prazo, levar o Paraguai a utilizar toda a sua parcela da produção de Itaipu, eliminando o excedente atualmente destinado ao Brasil.

Brasil já considera redução no planejamento

Segundo dados do MME, o volume de energia da parcela paraguaia comercializado no Brasil caiu de 22,203 milhões de MWh em 2023 para 12,973 milhões de MWh em 2024 e 10,455 milhões de MWh em 2025.

No mesmo período, o fornecimento de Itaipu ao Paraguai aumentou de 19,515 milhões de MWh para 25,768 milhões de MWh. A geração total da hidrelétrica passou de 83,879 milhões de MWh em 2023 para 72,879 milhões de MWh em 2025.

Segundo o presidente da EPE, Thiago Prado, a redução do excedente destinado ao Brasil já é considerada nos estudos de planejamento. Ele citou como exemplo a decisão de revitalizar inicialmente apenas um dos dois bipolos do sistema de transmissão em em corrente contínua que transporta a energia de Itaipu entre Foz do Iguaçu (PR) e Ibiúna (SP).

A modernização completa das conversoras do Bipolo 1 foi priorizada, enquanto a decisão sobre uma intervenção equivalente no Bipolo 2 ficou condicionada à evolução da demanda paraguaia e à disponibilidade de energia para o Brasil.

Embora o Brasil hoje tenha uma sobra estrutural de energia, a eletricidade de Itaipu contribui com o atendimento dos picos de consumo, no fim do dia, quando não há geração solar. Por isso, a redução do envio de eletricidade do Paraguai contribuiu com a contratação do leilão de reserva de capacidade (LRCap) de março, voltado para termelétricas e hidrelétricas, e também vai ter reflexos na demanda do certame de baterias previsto para dezembro.

Quanto custa a energia de Itaipu

Pelo Tratado de Itaipu, assinado em 1973, Brasil e Paraguai têm direito a metade da energia produzida pela hidrelétrica. A legislação brasileira, por sua vez, determina que a energia seja destinada às distribuidoras das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. 

Em 2026, a energia da hidrelétrica tem representado cerca de R$ 220/MWh nos reajustes das distribuidoras, abaixo do custo médio de aquisição do país, estimado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em R$ 342/MWh neste ano.

O aumento do consumo no Paraguai, portanto, tem potencial de pressionar as tarifas de energia dessas distribuidoras para cima, mas o impacto efetivo depende de uma série de questões, incluindo o preço de contratação dos leilões.

Por outro lado, o encerramento do acordo tarifário firmado entre Brasil e Paraguai tem potencial para reduzir as tarifas. Desde o fim do pagamento da dívida contraída para construção da usina, em 2023, há expectativas de redução da tarifa da usina, mas isso tem esbarrado nas negociações com o Paraguai sobre a compra da energia excedente.

A revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, que estabelece as bases financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade da hidrelétrica, deveria ter sido concluída até dezembro de 2024, mas o prazo não foi cumprido. 

As negociações foram suspensas pelo Paraguai em abril de 2025, após denúncias de espionagem envolvendo a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e retomadas posteriormente.

Em 2024, os países chegaram a um acordo tarifário, válido até 31 de dezembro de 2026.

O entendimento estabeleceu que, a partir de janeiro de 2027, o Paraguai deverá contratar toda a potência necessária ao seu consumo e que a tarifa de Itaipu deverá contratar toda a potência necessária ao seu consumo e que a tarifa de Itaipu deverá refletir apenas os custos estritos de operação, sem despesas discricionárias.

Também ficou prevista uma mudança na comercialização da energia paraguaia não consumida internamente, que poderá ser vendida livremente no mercado brasileiro, em substituição ao atual modelo de cessão.

Na avaliação de Luiz Barroso, da PSR, o desenvolvimento de novos negócios em Itaipu poderá trazer outras questões para a negociação entre os países. Uma possibilidade mencionada pelo executivo é a instalação de geração solar flutuante no reservatório para atender ao crescimento de cargas como os data centers.

Segundo ele, a participação dos dois países na energia de novos empreendimentos precisaria ser negociada, uma vez que o tratado não estabelece regras específicas para essas atividades. Barroso considera que a presença de investidores em data centers poderá acrescentar interesses comerciais às negociações entre Brasil e Paraguai.

Projeto será instalado próximo a Itaipu

A infraestrutura desenvolvida pela Crusoe e pela Araico ficará localizada nas proximidades de uma subestação de Itaipu, no Paraguai. 

Segundo as empresas, a Araico será responsável pelo desenvolvimento local e pela infraestrutura do terreno, enquanto a Crusoe ficará encarregada de administrar e operar os equipamentos de computação destinados à sua plataforma de serviços de nuvem.

A Araico já havia anunciado o desenvolvimento do Iguazú AI City, um campus de data centers no departamento de Alto Paraná, com investimentos previstos de US$ 12 bilhões nos primeiros três anos. 

Em setembro, o executivo Alejandro Zuccolillo, co-fundador da Araico, afirmou ao jornal paraguaio ABC Color que a empresa negociava com a estatal Administración Nacional de Electricidad (Ande), estatal responsável pela gestão da energia de Itaipu do lado paraguaio, um contrato de fornecimento de energia com tarifa inicial de US$ 45/MWh e reajustes anuais.

Fonte: MegaWhat

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