Efeito inesperado pode estar associado a entendimento de que para voltar pode ter pedágio; propensão a poupar aumentou
23/06/2026
Depois que passou a vigorar o novo Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em aportes mais expressivos nos planos Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) de previdência, a partir deste ano, o ritmo de resgates nos primeiros meses de 2026 recuou. O movimento ocorreu após um forte encolhimento da captação no segundo semestre de 2025. Desde janeiro, o IOF de 5% deixou de ser cobrado para aportes no VGBL a partir de R$ 300 mil anuais independentemente da seguradora e passou a valer para valores acima de R$ 600 mil, considerando o total de cada participante no mercado.
“Mostra um pouco que o participante está entendendo que esse dinheiro é de fato para o longo prazo e resgatar tem penalidade para voltar”, avalia Ângela Assis, presidente da Brasilprev. “Mas não há como negar que o IOF prejudicou o setor.”
Rogério Calabria, superintendente de produtos de investimentos e de previdência do Itaú Unibanco, observa que a propensão a poupar aumentou. “Tem o aspecto do endividamento alto, na média, em todos os níveis de renda, e as pessoas estão tentando recompor um pouco o patrimônio”, afirma. “A guerra leva a isso, o juro que ia cair e não cai mais também, tem incertezas importantes e quando isso acontece as pessoas dão uma segurada nos gastos e ficam mais conservadoras nos investimentos.”
Pelos dados do primeiro quadrimestre da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), a captação líquida caiu 7,8% em relação ao mesmo período de 2025, a R$ 6,7 bilhões. A arrecadação foi de R$ 54,1 bilhões (recuo de 8,3% em 12 meses) e os saques foram de R$ 47,4 bilhões, com queda de 8,5% na mesma base de comparação. Até março, a captação líquida tinha crescido 7,2% em 12 meses, justamente pela redução dos resgates, com recuo de 10,7%.
Até dezembro, o IOF de 5% era para aportes no VGBL a partir de R$ 300 mil anuais independentemente da seguradora, e desde janeiro passou a valer para valores acima de R$ 600 mil, considerando o total de cada participante no mercado. Como uma instituição não consegue enxergar o que o cliente tem em outra casa, tem que incorporar em seus processos uma forma de obter essa informação.
Para Edson Franco, presidente da Fenaprevi, o imposto trouxe um efeito colateral até para o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), não sujeito à tributação na entrada, por causa da insegurança regulatória que se criou.
“O investidor acaba recorrendo a outros produtos de acumulação. Há a previdência que oferece, de fato, incentivos fiscais para a permanência de longo prazo, mas tem no Brasil essa incoerência de ter a oferta de modalidades de curtíssimo prazo com isenção total”, afirma Franco, referindo-se aos títulos de crédito incentivados. “Quando o cliente vê ainda a penalização na entrada, ou seja, a redução do valor nominal aportado, ele naturalmente se afasta.”
Franco aponta que o setor intensificou a comunicação com os participantes e tem feito campanhas para atrair dinheiro novo, o que permitiu suavizar o efeito do IOF. “No ano passado, a queda na captação chegou a 20% e neste ano foi de 8%, em grande parte pelo esforço de esclarecimento das entidades em relação a quem é elegível à tributação.” Ele diz ainda não ter uma leitura do que levou à redução dos resgates e que é preciso observar se esse movimento vai virar uma tendência.
Esse é um mercado relevante para a formação de poupança de longo prazo e o setor “fez um esforço grande durante anos para disseminar a educação financeira e convencer a sociedade a investir”, diz Marcelo Flora, sócio do BTG Pactual e CEO da vertical de seguros e previdência. A sua expectativa é que o pedágio em algum momento seja revisto pelo governo pela contradição de tributar na entrada justamente quem se planeja.
“Quem já tem recursos acumulados, agora pensa duas vezes antes de fazer o resgate”, diz Érico Soares Neto, diretor da BTG Vida e Previdência. Ele cita que neste ano a captação teve incremento de 7%, a R$ 1,081 bilhão, puxada por um ritmo menor de saídas.
Ao fim de abril, 11,2 milhões de pessoas tinham algum plano de previdência privada no país, com reservas de R$ 1,8 trilhão, o equivalente a 11% do PIB. É pouco para uma indústria relativamente jovem e que vinha numa escala ascendente ano a ano, até puxar o freio de mão no meio do ano passado. Pelos dados da Anbima, que representa os mercados financeiros e de capitais, os fundos que acolhem as reservas do setor tinham até 17 de junho resgates líquidos de R$ 7,1 bilhões no ano.
“A gente sente a oportunidade perdida porque a previdência poderia estar performando muito acima não fosse essa aberração”, segue Franco. “Tributar a renda é o que se espera dos produtos de acumulação, com incentivo fiscal para o longo prazo; é o que se pratica mundo afora, nunca uma tributação no momento da acumulação. Isso é uma punição para o comportamento previdente.”
A previdência tem tantos benefícios que, dependendendo da situação, vale olhar para a alternativa, inclusive para valores acima de R$ 600 mil, defende Gustavo Lendimuth, executivo sênior da área de distribuição e assessoria do Santander Brasil.
Ele cita o diferimento fiscal no longo prazo, a não incidência come-cotas (o imposto semestral cobrado nos demais fundos condominiais) e uma alíquota que cai a 10% após dez anos na tabela regressiva como alguns desses atributos. Também é um meio de facilitar a sucessão patrimonial, sem passar por inventário. “É uma solução para diferentes demandas: para quem quer acumular, transmitir recursos ou para o investimento de médio e de longo prazo. A partir de cinco anos, já é vantajoso.”
Com R$ 484,2 bilhões debaixo da Brasilprev, Assis diz que, apesar do baque com o IOF, os primeiros meses do ano foram produtivos. Na apresentação de resultados da BB Seguros, a empresa que controla a Brasilprev, reportou crescimento de 10,2% nas reservas de previdência, e captação de R$ 3,9 bilhões, ante resgates de R$ 1,5 bilhão no mesmo intervalo fechado em março de 2025. As contribuições cresceram 9% em 12 meses, a R$ 15 bilhões. O lucro líquido gerencial no primeiro trimestre foi de R$ 538 milhões, aumento de 51% na comparação anual.
Para este ano, as projeções da seguradora são de um crescimento entre 8% e 11% nas reservas da previdência.
Com o IOF no VGBL, a estratégia teve mesmo que mudar, diz Calabria, do Itaú. Ele afirma que, com o uso de tecnologia de dados, a atração de clientes da concorrência, por meio da portabilidade, ficou mais eficiente. “Agora tem essa necessidade porque o mercado ficou menor.”
Com R$ 351 bilhões em estoque de previdência, o esforço também tem sido em cima do PGBL, que não tem incidência do IOF e é um produto em que o banco já lidera as contratações, sabe vender.
A modalidade é usada por quem faz a declaração completa de Imposto de Renda (IR) e pode abater até 12% da renda tributável, amplificando o imposto a restituir. “Nosso cliente entende, é um produto de assessoria, temos esclarecido que alguns poderiam estar melhor alocados em PGBL do que em outros investimentos; [o cliente] tem que realocar, é um benefício que está deixando na mesa”, diz. Outra frente tem sido realmente aumentar a base de clientes, baixar o tíquete médio e trazer mais gente para o produto.
Calabria diz que os primeiros quatro meses foram produtivos até porque o Itaú – assim como outras instituições – correu para atrair o perfil que bate no limite do IOF no VGBL. “Aquele cliente de alto valor que tem R$ 600 mil para alocar no ano em todas as seguradoras, a gente quis chegar primeiro.” A captação até abril chegou a R$ 4 bilhões, com metade vindo da portabilidade.
Apesar de um ritmo menor, o executivo avalia que o setor vai crescer neste ano, até porque tem um incremento orgânico pelo efeito do juro alto nas provisões investidas. “O IOF tem impacto, não há dúvida, mas o mercado não acabou, o setor está se rearranjando, vai ter um crescimento menor do que vinha demonstrando, mas é cedo para fazer projeções muito pessimistas ou otimistas.”
O executivo diz ainda ver demanda pelo produto, mas há um perfil de investidor que se desinteressou pelo produto. Diz que ficou mais difícil vender, explicar IOF. “Não há como não ficar preocupado com a quebra de regra, espantou alguns clientes que pensam que é melhor não mexer com isso.”
Lendimuth, do Santander, afirma que após a mudança do IOF, neste ano o grupo volta a ganhar “market share” na previdência. “Essa é uma reversão que foi plantada”, diz O executivo cita que enquanto o cliente podia fazer o aporte de R$ 600 mil sem o novo tributo, até o fim do ano passado, o foco comercial foi nessa execução, e que agora o esforço tem sido atuar na portabilidade e na retenção. “Foi o melhor primeiro trimestre em novos aportes, mas plantamos muita portabilidade, que vamos colher no futuro.”
O executivo diz que o corpo a corpo dos especialistas de investimentos dos escritórios AAA tem feito a diferença, já que essa é uma venda predominantemente consultiva. Houve o redesenho de incentivos, repertório e a tempestividade na informação.
Em geral, são as seguradoras dos grandes bancos que mais sofrem perdas, mas o Itaú tem conseguido defender o seu terreno, com vendas consultivas.
No primeiro quadrimestre, conforme a Susep, a Itaú Vida e Previdência conseguiu reter liquidamente, entre valores aceitos e cedidos, quase R$ 2 bilhões. A Bradesco Vida e Previdência perdeu R$ 1,3 bilhão, seguida pela Brasilprev (R$ 827,3 milhões), Caixa Vida e Previdência (R$ 297 milhões), Zurich Santander (R$ 290,5 milhões), SulAmérica (R$ 226,2 milhões), e Icatu Seguros (R$ 82,5 milhões).
As novatas andaram em direções opostas, com o BTG atraindo R$ 1,3 bilhão e a XP Vida e Previdência perdendo R$ 38,5 milhões, depois de ser uma das líderes ao longo de 2025.
No ano passado, a XP teve a captação turbinada pela transferência de planos vendidos na sua plataforma da Icatu e SulAmérica para a própria seguradora. A conta do rouba-monte amigável chegou a R$ 17 bilhões. A companhia foi seguida pelo BTG (R$ 7,8 bilhões) e pelo Itaú (R$ 7,5 bilhões).
Fonte: Valor Econômico



