Bancas projetam crescimento para 2026

Principais apostas estão nas áreas transacional, de contencioso, reestruturação e tributária
28/05/2026

Mesmo com um cenário de incertezas, o mercado da advocacia está aquecido este ano e a expectativa entre alguns dos maiores escritórios do país é de crescimento. Recentes investimentos internos na área transacional – que voltou a brilhar em 2025 – apontam nessa direção. Além disso, ficam mantidas as apostas nas áreas de contencioso, reestruturação de empresas e consultivo tributário. Outra aplicação de capital comum é em inteligência artificial (IA).

“Temos questões importantes a considerar como a eclosão da guerra do Irã, que gera preocupação com o impacto geopolítico, assim como o fato de este ser um ano eleitoral, o que torna natural que, em algum momento do segundo semestre, as coisas tendam a ficar mais devagar, com o ambiente polarizado, o que repercute na economia, mas o ano começou mais forte do que no início de 2025”, afirma Tito Andrade, CEO do Machado Meyer.

Andrade destaca que a área de reestruturação do Machado Meyer está envolvida em grandes casos como Braskem, Raízen e Grupo Pão de Açúcar (GPA). “O ambiente de juros altos, entre outros fatores, leva a incertezas que provocam esse tipo de situação, de recuperação judicial ou extrajudicial.  O escritório tem sido muito ativo nesse casos e percebemos que essa área deve continuar gerando e ocupando muito os nossos profissionais”, diz.

Por outro lado, para Andrade, poderá haver uma janela de mercado de capitais. “Um exemplo é a Compass querendo fazer IPO [abertura de capital], o que é importante porque o IPO se desdobra em M&A [fusões e aquisições], capitalização das empresas, saída de investidores, entre outras oportunidades para o mercado jurídico.”

De 2024 para 2025, a banca registrou um pequeno crescimento. Para este ano, a expectativa é de alcançar dois dígitos. Para isso, o Machado Meyer elegeu cinco sócios no ano passado, em diversas aéreas, como mercado de capitais, tributário e trabalhista. O CEO da banca destaca ainda o investimento em IA. “Há ferramentas cada vez melhores para o mundo jurídico, tanto para a área empresarial quanto para a de contencioso, mas temos que ter o olhar humano, a governança que faz toda diferença”, diz.

Para o TozziniFreire, a mudança para a Avenida Faria Lima, na capital paulista, foi um dos seus maiores investimentos de 2025. “Já pensamos até numa expansão, ficar mais perto dos clientes acaba sendo bom para todos. A Meta, por exemplo, está aqui atrás, vemos pela janela”, afirma o CEO da banca, Fernando Serec.

Entre as áreas do Direito, a transacional foi o foco dos maiores investimentos do Tozzini no ano passado. “E continuamos trazendo mais gente. Esses investimentos já estão se pagando porque nos destacamos tanto no número como no volume de transações”, diz.

Com o início da fase de testes da reforma tributária, acrescenta, a área continua gerando bastante trabalho. “No geral, crescemos em termos de receita 15% em 2025, ano em que tivemos um lucro histórico”, afirma. “Projetamos para este ano o mesmo percentual de crescimento em relação ao ano passado, mas com o resultado do primeiro trimestre, se não houver algum tipo de paralisação de negócios por causa das eleições, até podemos bater essa meta.”

Em relação à IA, o escritório criou a assistente Helena – “porque remete à Grécia, democracia, feminino” – para a classificação de casos novos, alimentar o banco de dados, analisar se é deep fake, se a questão está dentro das normas atuais. “E aí veio junto o desafio de treinar os advogados novos sobre o uso dessa ferramenta”, diz Serec.

Alexandre Gossn, CEO do Cescon Barrieu, lembra que há dois anos muita gente dizia que o Brasil estava fora do radar. “Esse cenário mudou e vemos muito mais interesse dos estrangeiros pelo Brasil, tanto que o mercado de M&A deu uma bela acelerada, já tivemos grandes operações nesse começo de ano e temos um pipeline sólido de M&A”, afirma ele. “Parece que entramos novamente para o eixo dos EUA, como alocação estratégica, a China continua olhando para nós e agora a União Europeia também.”

A área de contencioso continua superquente, segundo Gossn. “O escritório tem rodando atualmente mais de 50 arbitragens”, diz o CEO do Cescon Barrieu.

Também há, afirma, questões importantes no mercado de energia ainda a serem solucionadas, que têm demandado o consultivo. “Há a necessidade de mudanças regulatórias e questões a serem resolvidas sobre o curtailment [cortes de geração de energia elétrica decididos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico para evitar apagões]”, diz.

No ano passado, em relação a 2024, a banca suou para tentar ficar perto dos dois dígitos, afirma o CEO, mas não conseguiu. “Já neste primeiro trimestre, o crescimento é de 17% em comparação com o primeiro trimestre de 2025. Por isso, nossa projeção para 2026 é de um crescimento em torno de 15%”, diz. A maior parte das contratações feitas pela banca em 2025 foi na área de M&A.

O CEO do Pinheiro Neto, Fernando Meira, pondera que vivemos tempos difíceis, com juros reais altos, alta taxa de inadimplência e tensão institucional que geram neblina e impactam o ambiente de negócios no Brasil. Mas a banca foi bem no primeiro trimestre, diz ele, e esse mesmo crescimento é esperado para o ano, de 10%, 11%.

“Entre as práticas que puxam mais o resultado no cenário atual está a de recuperação de empresas e negociação de dívidas, em razão da estrutura de capital alavancada, com dívidas altas por muito tempo, e a dificuldade de olhar para frente e ver uma melhoria sustentável”, afirma. Isso gera negócios não só para a área de recuperação, mas também para mercado de capitais e M&A. “Porque você tem uma segregação de ativos de operações ou vendas da própria empresa, como vimos com a Cosan trazendo BTG e Perfin.”

Outro destaque é a área de infraestrutura, que deslanchou em 2025. “Trabalhamos no Galeão, na venda dos aeroportos da CCR Motiva, estradas, saneamento e, na área de telecom, a infraestrutura digital ainda é incipiente, mas tem muto potencial”, diz.

Na área tributária, Meira destaca a volta dos julgamentos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) e a reforma tributária. “Para operar no novo ambiente, as empresas estão se preparando para o impacto na cadeia de fornecedores, logística, o que também tem aumentado o volume de trabalho”, explica.

No ano passado, o escritório fez a primeira contratação de sócio lateral para uma outra área que considera estratégica: de TMT – telecom, mídia e tecnologia. “A gente queria fortalecer essa frente olhando para essa área de infra digital”, diz Meira.

No Mattos Filho, as áreas que deverão se destacar este ano, segundo o CEO Pedro Dias, são contencioso em geral e consultivo tributário por conta da reforma. “Por outro lado, a área transacional em 2025 teve uma retomada importante e continuou bem ativa no primeiro trimestre deste ano”, afirma. “Obviamente que tem o desafio da eleição e Copa, mas vemos um movimento sólido de operações, não tanto no volume, mas mais sofisticadas”, acrescenta.

Dias diz que vê várias companhias abertas buscando soluções envolvendo M&A. “Hoje em dia, com as taxas de juros elevadas, uma forma de expansão é buscar operações de M&A, usando ações como moeda para fazer uma incorporação de empresa”, afirma.

Em 2025, diz ele, o escritório teve crescimento de 9% na receita líquida em relação a 2024. “Esse ano estamos acima da receita já no primeiro trimestre. Mas a projeção conservadora para 2026 é de crescimento menor, na casa de 5%.”

Já Amir Bocayuva, CEO do BMA, destaca que uma parte relevante do negócio da banca não é afetada por fatores pontuais, como Copa, guerras, eleição. “São áreas que navegam bem por mares turbulentos, como a de propriedade intelectual envolvendo disputa de patentes e conflitos relacionados a esses direitos”, afirma. “É uma tendência que vem se intensificando porque grandes players internacionais têm olhado Brasil como um mercado importante.”

Outra área de sucesso no BMA é a de projetos de infraestrutura, que por sua natureza são de longo prazo. “E também continua atraindo trabalho, por conta da taxa de juros muito alta, a área de reestruturações,  o que envolve tanto renegociações com credores em geral, como casos em que o crédito muda para as mãos de fundos de direitos creditórios que acabam por obter o controle da empresa, uma prática cada vez mais comum no Brasil, quanto processos de recuperação”, diz. “E muito M&A resulta disso, da tentativa de se reestruturar a dívida. M&A voltou em 2025 e segue.”

Já no início deste ano, o BMA fez cinco sócios, a maioria para a área concorrencial, que é tradicional na banca. Quanto ao faturamento, de 2024 para 2025, o crescimento de receita foi da ordem de 12%, segundo Bocayuva. “Para 2026, em relação a 2025, a estimativa é de crescimento na faixa de 10%, já que o segundo semestre é um ponto de interrogação. As delações do Master, por exemplo, têm potencial de atingir as três esferas do poder.”

Fonte: Valor Econômico

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