Setores mais afetados devem ser o que operam de forma continua, como hotéis e serviços
28/05/2026
Economistas criticaram a proposta de reduzir a jornada de trabalho oficial de 44 horas para 40 horas sem redução salarial. Na visão da maioria, haverá impactos negativos para a economia, como mais inflação e judicialização.
Para Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, a medida provavelmente aumentará pressões inflacionárias no curto prazo, especialmente no setor de serviços, que tende a ser mais intensivo em mão de obra.
Setores que operam de forma contínua, como em hotelaria (restaurantes, bares e hotéis, por exemplo), companhias aéreas e o varejo podem ser forçados a recorrer a horas extras mais caras no curto prazo para atender suas necessidades de mão de obra, potencialmente repassando o aumento dos custos.
A transição proposta no parecer do relator – redução de duas horas em 60 dias após a aprovação, seguida por outra redução de duas horas 12 meses depois – também é “surpreendente breve”, diz Secemski.
O impacto sobre a inflação é preocupação também do o economista Fábio Romão, da 4intelligence. Segundo ele, uma transição mais rápida pode ter impacto inflacionário, especialmente nos serviços, que são segmentos mais intensivos em mão de obra. Romão avalia que parte do aumento de custos pode ser absorvida nas margens, enquanto outra parcela pode ser repassada aos preços ou se traduzir em redução da produção total.
“No longo prazo, a alta de custos poderá ser compensada por ganhos de produtividade, mas, no curto prazo, especialmente durante a transição, é possível que tenhamos algum repasse do aumento dos custos aos preços”, afirmou Romão.
A transição é muito rápida também na visão de Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
“Regular uma escala única num país tão complexo e heterogêneo como o nosso é problemático”, avalia. Para ele, mesmo com as exceções propostas, haverá elevação de custo para boa parte das empresas. “Em geral, a literatura mostra que nessas medidas top-down sempre vem alguma coisa tentando gerar uma compensação.” Se a PEC for efetivamente aprovada haverá pleitos nesse sentido, como uma redução de carga em troca de compromissos de manutenção de emprego, exemplifica.
O fim da escala 6×1 vai prejudicar sobretudo as regiões que mais crescem no Brasil – Sudeste, Sul e Centro-Oeste -, afirma o CEO da Quantivis Analytics e professor do Ibmec, José Ronaldo Souza Júnior.
“As regiões que mais crescem são também aquelas onde há menor folga do mercado de trabalho. Caso tenham que encontrar novos trabalhadores para cobrir horas descobertas pela PEC, não vão encontrar. Isso sem considerar detalhes como se a mão de obra tem mesma escolaridade ou condição técnica de substituir”, diz o economista.
Ele dá como exemplos a região agroindustrial do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, fronteira da produção de grãos, o interior catarinense, que abriga o cinturão da agroindústria de proteína animal, e o Noroeste e Sudeste de São Paulo, que combinam plantações de cana e laranja com indústrias de bens de capital e duráveis.
Souza Junior critica a forma como o debate foi conduzido, em especial a transição curta. “Não vejo esse prazo como adequado. Dois anos seria o mínimo. Mas isto é o populismo”, diz, acrescentando que a pouca clareza sobre questões como uma regra para transição das folgas pode alimentar a judicialização da questão.
Para o sociólogo e especialista em relações do trabalho José Pastore, determinar o fim da escala 6×1 por legislação tem efeitos econômicos imediatos e uma das principais consequências é a insegurança jurídica em contratos de trabalho já estabelecidos. Ele prevê uma enxurrada de processos que se acumularão no Supremo Tribunal Federal com a possível aprovação da PEC.
Pastore destaca aspectos que considera meritórios na medida, sendo o principal deles a possibilidade de mães e pais dedicarem mais tempo aos seus filhos pequenos, o que pode ajudar até a melhorar o capital humano no país no longo prazo. Mas afirma que a determinação por lei desconsidera as diferentes características técnicas de milhares de ocupações.
Fonte: Valor Econômico



