Ocorrência com fluido de perfuração não tem impacto ambiental, diz a estatal
Por Kariny Leal e Fábio Couto
Um vazamento levou a Petrobras a paralisar no domingo (4) a operação na Bacia da Foz do Amazonas, no Amapá. A ocorrência pode dificultar as próximas fases do licenciamento para a empresa produzir petróleo na região dada a sensibilidade ambiental do local e toda a discussão política que envolve o tema. O problema só foi conhecido ontem, quando a Petrobras divulgou uma nota.
Especialistas do setor se dividem sobre as consequências práticas da ocorrência. Mas concordam que o ocorrido vai reacender o debate sobre a viabilidade de se produzir petróleo na região, que é parte da Margem Equatorial e é sensível pela proximidade com a região Amazônica. O vazamento não foi de petróleo até porque ainda não houve confirmação de descoberta no local, mas sim de fluido de perfuração, um produto usado para facilitar a entrada da broca na rocha onde ficam os reservatórios.
Segundo a Petrobras, foi identificada a perda do fluido de perfuração no domingo (4) em duas linhas auxiliares que conectam a sonda ao chamado poço Morpho, o primeiro a ser feito na região Norte do país. A Petrobras atesta que o líquido é biodegradável, dentro dos limites de toxicidade e não causa dano ao ambiente.
“A perda do fluido de perfuração foi imediatamente contida e isolada. As linhas serão trazidas à superfície para avaliação e reparo”, disse a companhia em nota nesta terça-feira (6). “Não há problemas com a sonda ou com o poço, que permanecem em total condição de segurança. A ocorrência também não oferece riscos à segurança da operação de perfuração.”
Técnicos do setor avaliam que o vazamento desse tipo de fluido não é raro de acontecer. “Se ocorresse na Bacia de Campos (RJ), talvez não chamasse tanta atenção”, disse uma fonte. “É mais grave do ponto de vista simbólico por se tratar da Bacia da Foz do Amazonas.”
A visão dos especialistas é de que o acontecimento não invalida a licença de perfuração em curso e tampouco causa dúvidas sobre a competência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) de conceder a autorização para essa primeira fase de pesquisa que busca comprovar se há óleo naquela área.
O Ibama disse ontem que recebeu a informação da Petrobras no domingo pelo sistema oficial de comunicação de acidentes. “As causas estão em investigação e serão apuradas em processo administrativo”, afirmou o instituto.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) disse que acompanha o ocorrido e os desdobramentos junto à Petrobras. A Foresea, fornecedora do navio-sonda contratado pela Petrobras, afirmou que as informações são divulgadas apenas pela estatal.
O processo da Petrobras para obter a licença de perfuração do primeiro poço da Bacia da Foz do Amazonas foi longo e marcado por polêmicas, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e parte do governo fizeram pressão sobre o Ibama e sobre a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para apressar a licença. Marina sempre disse tratar-se de um processo técnico.
A aprovação da licença de perfuração pelo Ibama veio só em 20 de outubro de 2025, 12 anos depois de o bloco ser arrematado em leilão pela britânica bp. A petroleira deixou o projeto em 2020 pelas dificuldades de autorização e transferiu a participação no projeto para a Petrobras.
A Petrobras estima que a perfuração vai durar cinco meses. Não há produção de petróleo nesta fase. Depois disso, caso encontre óleo em níveis comerciais, a companhia precisaria de uma nova licença, a de produção. Para fonte da indústria de petróleo, o vazamento de fluido de perfuração não é preocupante, mas pode atrasar o cronograma da exploração em alguns dias, sem maiores prejuízos.
Para a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, o vazamento deixa claro que não existe risco zero e que a Petrobras não está imune a erros. “A ocorrência alerta que essa atividade precisa ser feita com toda cautela necessária”, disse Araújo, que também é ex-presidente do Ibama. “É frágil a narrativa de que tudo é muito seguro.”
Allan Kardec, ex-diretor da ANP, ressalta a importância da produção na região para a reposição de reservas do país em momento em que se discute o retorno do petróleo venezuelano ao mercado: “Não deve haver dificuldades para que a Petrobras prossiga para a próxima fase de produção na região.”
Julia Touriño, advogada ambiental do Kincaid Mendes Vianna Advogados, afirma que uma possível multa por parte do Ibama à Petrobras deve considerar o porte da companhia e a gravidade do vazamento.