Defasagem chega a 28% no diesel e 12% na gasolina. Ano eleitoral deve pesar na decisão da petrolífera, dizem especialistas
03/03/2026
Com a escalada do conflito no Oriente Médio desde sábado, após os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e a contraofensiva de Teerã, o preço do petróleo no mercado internacional chegou a saltar 13% no início dos pregões ontem, superando US$ 82 o barril do tipo Brent. À medida que mais bolsas foram abrindo ao longo do dia, o movimento perdeu força, mas acendeu o alerta para os preços domésticos de combustíveis. Se as cotações do barril seguirem em alta, a Petrobras poderá reajustar seus preços nas refinarias.
Novas altas do petróleo aumentarão a defasagem do preço da gasolina e do diesel nas refinarias da estatal no Brasil, na comparação com o patamar global. Quanto maior a defasagem, maior o potencial de perdas financeiras para a Petrobras, pressionando por reajustes. Mesmo assim, especialistas e fontes próximas à petroleira avaliam que a companhia deverá aguardar. Afinal, ainda há incertezas sobre a duração e a intensidade da escalada bélica.
— Na sexta-feira passada, com o fechamento do mercado de quinta, o preço do litro do diesel nas refinarias da Petrobras estava 12% abaixo do praticado no mercado internacional, enquanto na gasolina a diferença era de 3% — disse Sergio Araújo, presidente da Abicom, associação das importadoras de combustíveis.
Com as cotações de sexta-feira, véspera dos ataques ao Irã, as defasagens foram para -23% no diesel e -17% na gasolina, segundo a Abicom. Após o fechamento do mercado ontem, as diferenças passaram para -28% no óleo diesel e -12% na gasolina.
Hora de aguardar
A Petrobras considera o momento atual como de forte instabilidade e volatilidade e, com isso, vai aguardar as próximas duas semanas para entender como o preço do barril irá se comportar para, então, avaliar possíveis mudanças nos preços em suas refinarias, segundo uma pessoa do alto escalão da companhia, que falou sob condição do anonimato. Ontem, não havia nenhuma indicação de mudança nos preços.
A estatal divulgou uma nota ontem ressaltando que não há risco de interrupção das importações e exportações no momento. Segundo a estatal, isso garante “segurança e custos competitivos para as operações da companhia, preservando as margens”.
Boa parte do salto nas cotações do barril tem a ver com a interdição do Estreito de Ormuz. Os grandes produtores do Oriente Médio usam os portos do Golfo Pérsico para escoar a produção e, para entrar e sair de lá, é preciso passar pelo estreito. Mesmo que as rotas de exportação do petróleo brasileiro não passem por lá, o transporte global poderá ser afetado, lembrou Telmo Ghiorzi, presidente da ABESPetro, associação dos fornecedores do setor de petróleo e gás:
— O principal mercado comprador do petróleo do Brasil é a China, e o Estreito de Ormuz não é uma rota prioritária. Mas, com o bloqueio, os navios podem ficar parados, e isso pode afetar o transporte de petróleo.
Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE, criticou a atual política de preços da Petrobras, que não segue de perto o exterior, como era nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro:
— O movimento de redução de preço é feito no dia seguinte, mas quando é aumento, ele não vem.
Questionada pelo GLOBO, a Petrobras defendeu sua política.
“A Petrobras monitora diariamente os fundamentos do mercado internacional e seus possíveis desdobramentos para o mercado brasileiro, tendo como premissas a prática de preços competitivos com as principais alternativas de suprimento e o não repasse da volatilidade externa para os preços internos”, disse a estatal, em nota. “Essa prática é especialmente importante em momentos de alta volatilidade”, como agora.
O último ajuste da gasolina anunciado pela Petrobras entrou em vigor em 27 de janeiro, com uma queda média de 5,2%, para R$ 2,57 por litro, nas refinarias.
Pressão maior no diesel
No diesel, a pressão por reajustes é maior, porque a defasagem é maior, como indicam os cálculos da Abicom, mas também porque o Brasil precisa importar mais diesel do que gasolina — por isso, a perda financeira com a defasagem tende a ser maior. Segundo a Abicom, o Brasil importa o equivalente a 30% da demanda doméstica de diesel.
São 10%, no caso da gasolina. No Norte e no Nordeste — onde a dependência de fornecedores privados, com destaque para a Refinaria de Mataripe, na Bahia, é maior —, o impacto nos preços ao consumidor será maior, alertou Araújo.
— Acredito que o preço do barril de petróleo vai flutuar em torno de US$ 80 ou um pouco para cima. De um lado, é positivo porque o Brasil é exportador de petróleo, favorecendo a balança comercial e elevando a margem das petroleiras — disse o presidente da Abicom.
Por causa desse fator, um relatório de analistas do banco Scotiabank ponderou que uma queda do dólar no médio prazo poderia fazer diferença na defasagem — para comparar os preços internos dos combustíveis com o internacional é preciso levar em conta a cotação do barril, os custos de frete e a taxa de câmbio.
Para os analistas, um cenário prolongado de alta do petróleo poderá impulsionar as exportações do Brasil, abrindo caminho para uma valorização do real ante a moeda americana.
Efeitos do conflito
US$ 82 foi o valor que o barril do tipo Brent atingiu ontem
- As cotações máximas foram registradas no início dos pregões, mas depois a alta arrefeceu
28% É a defasagem nos preços de diesel da Petrobras
- O cálculo considera o fechamento das cotações ontem. Na quinta-feira, a diferença era de 12%.
12% é a defasagem nos preços de gasolina da Petrobras
O cálculo considera o fechamento das cotações ontem. Na quinta-feira, a diferença era de 3%.
Fonte: O Globo


