Rombo do Grupo Elétron pode ser maior do que R$ 1,1 bilhão

Avaliação é de executivo da área de comercialização, para quem também faltou gestão de risco adequada no processo

O pedido de recuperação judicial (RJ) do Grupo Elétron, feito na semana passada, indica um endividamento que soma mais de R$ 1,1 bilhão, valor que pode ser ainda maior. Essa é a avaliação de um alto executivo da área de comercialização, que conversou com a Brasil Energia, mas prefere se manter no anonimato. 

Para o especialista, que também transita em várias associações do setor de energia, as justificativas do Grupo Elétron para a RJ fazem sentido. Ele acredita que os cortes continuados de energia nos geradores (curtailment) e a atual precificação de energia pesaram no processo da comercializadora, porém é enfático em dizer que o defaut é mais complexo. 

“Embora o Grupo Elétron aponte fatores externos como vilões, a gestão falhou no básico: o gerenciamento de risco e a falta de capital para suportar a volatilidade inerente ao mercado”, resume. 

O executivo reconhece que o curtailment é de fato um problema sério para ser resolvido. De acordo com ele, o processo tornou-se um “jogo de cachorro grande”, destacando que grandes geradores estão ameaçando judicializar a questão e podem acabar ganhando o direito de ressarcimento de perdas nos moldes que defendem. Do outro lado estaria o ONS, promovendo cortes de transmissão acima do que seria necessário. 

Mesmo com o problema do curtailment, houve imprudência do Grupo Elétron ao operar alavancado sem a devida proteção financeira. De acordo com ele, o mercado livre exige uma avaliação meticulosa do volume de energia que vai ser vendido e comprado. O erro fatal da comercializadora envolveu a falta de liquidez para cobrir a variação do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). 

“Se chover muito ou pouco, os contratos vendidos a R$ 200/MWh podem chegar a R$ 70/MWh ou subir para R$ 380/ MWh”, explica, ao citar preços hipotéticos. “É do jogo. A empresa precisava ter capital de giro ou cacife para suprir essa diferença de preço no curto prazo, o que não ocorreu”, analisa.  

O resultado, segundo o executivo, é a exposição que oficialmente chega à R$ 1,1 bilhão, mas que pode ser maior, deixando um rastro de clientes expostos na liquidação financeira que ocorreu recentemente. Outra consequência é um possível “efeito dominó”, especialmente sobre pequenas comercializadoras, que compraram volume da Eletron e agora enfrentam o fato de que não terão o fornecimento. 

Apesar desse risco em cadeia para os pequenos players, o especialista destaca que a possibilidade de quebra de outras comercializadoras do mesmo tamanho é pequena. Ele não acredita que haja outra companhia com o mesmo grau de exposição na casa de R$ 1 bilhão prestes a abrir um pedido similar. 

Na avaliação dele, o cenário atual de preços elevados não é apenas uma questão climática, mas também uma distorção estrutural. Segundo ele, os mecanismos atuais de aversão ao risco são muito pesados, jogando preços artificialmente para cima. Com isso, o PLD alto e essa aversão exagerada criam um ambiente tóxico para quem não tem caixa robusto.

Para mitigar esses riscos e evitar novas quebradeiras, o especialista sugere dois caminhos. O primeiro deles é a mudança regulatória, que reveja os critérios de aversão ao risco para evitar distorções de preço.

O segundo movimento deve colocar a gestão de risco na ordem do dia, com uma profissionalização ainda maior na área de comercialização. 

“A falta de uma gestão de risco sofisticada é um fator crítico. O cenário atual, com alta geração solar no Nordeste e afluência negativa, exige mais do que soluções rotineiras; exige pessoas de grande formação e expertise para avaliar o cenário e fazer as apostas corretas”, diz. “Não basta tecnologia. O erro de entrar no negócio de comercialização, sem ver o tamanho do risco, é fatal”, completa.

https://brasilenergia.com.br/energia/empresas/rombo-do-grupo-eletron-pode-ser-maior-do-que-r-11-bilhao

OUTROS
artigos