Conferência de Santa Marta co-presidida pelos governos colombiano e dos Países Baixos, quer deixar três legados
Por Daniela Chiaretti — De São Paulo
06/03/2026
A primeira conferência internacional para discutir a transição além dos combustíveis fósseis acontece na última semana de abril, em Santa Marta, na Colômbia e deve reunir representantes de 40 a 80 governos. O evento, que não faz parte das conferências climáticas da ONU, é um desdobramento dos debates da COP30, em novembro, em Belém.
Nos últimos dias da COP30, um impasse dominou a negociação – um grupo de 80 países queria que o fim da dependência energética ao carvão, petróleo e gás fosse mencionado nos textos finais, e um grupo de outros 80 se opunha. No fim, venceu a posição na retranca. O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, trouxe para si a tarefa de entregar, em 2026, um mapa do caminho para a eliminação dos combustíveis fósseis. Os governos da Colômbia e da Holanda, contudo, anunciaram a conferência em abril, em Santa Marta.
“Este é o momento de sermos honestos sobre os desafios da transição. Não é algo fácil. É um compromisso tanto do Norte quanto do Sul Global e envolve interesses e tensões”, afirmou Irene Vélez Torres, ministra do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia. “Mas não podemos negar sua urgência e a necessidade de acordos no nível multilateral.”
Em webinar que apresentou a dinâmica da conferência, ela reforçou: “A ciência nos diz com clareza que 75% das emissões de gases-estufa vêm dos combustíveis fósseis. É uma causa estrutural e inegável da crise do clima. E ao lado das estratégias de adaptação é preciso abordar estratégias radicais e urgentes de mitigação”.
A ministra da Ação Climática da Holanda, Stientjie van Veldhoven, que copreside o evento, disse que o foco será na implementação. “Há muito a descobrir, testar e considerar com cuidado, mas, felizmente, não estamos começando do zero.” Citou coalizões como a Beyond Oil and Gas Alliance que trabalham no tema há alguns anos. “Todos os presentes em Santa Marta concordam que a transição para longe dos combustíveis fósseis deve acontecer, mas a questão fundamental é como concretizá-la? E como acelerá-la?”
Ela citou o exemplo da Holanda, que fez uma análise abrangente de todos os subsídios aos combustíveis fósseis, avaliando impactos econômicos, sociais e ambientais. “Analisamos as implicações da transição”, disse.
Os governos organizadores não divulgaram quantos países confirmaram participação nem quais. O que se espera são ministros de Meio Ambiente e Clima, além do presidente colombiano, Gustavo Petro, e do primeiro-ministro da Holanda, Rob Jetten.
A conferência acontece entre 24 e 29 de abril. Não é um encontro de negociação climática, mas quer deixar “três legados para a diplomacia climática global”, nas palavras de Irene Vélez. O primeiro é estabelecer um processo -Santa Marta seria a primeira conferência do gênero. Outro ponto é criar uma secretaria técnica para facilitar o debate e, por fim, ver como o processo dialogará com a COP30 e a COP31, na Turquia, em novembro. “Acreditamos que este é um processo complementar que pode ajudar com contribuições estratégicas para o Mapa do Caminho.”
O segundo legado é uma reunião de cientistas que formará um grupo consultivo para apoiar as decisões de políticas públicas. O terceiro, um relatório que será entregue às presidências da COP30 e da COP31, compartilhada entre Turquia e Austrália. São três questões-chave em Santa Marta: superar a dependência econômica dos combustíveis fósseis, encontrar equilíbrio entre oferta e demanda e conectar com o multilateralismo e a cooperação internacional.
Daniela Durán, chefe de assuntos internacionais, disse que Santa Marta também quer estabelecer um diálogo participativo com governos subnacionais, grupos indígenas, afrodescendentes e camponeses, de mulheres e jovens, sindicatos e setor privado.
Fonte: Valor Econômico


