Apesar dos juros estarem em patamares elevados, o mercado de energia consegue apresentar resiliência, aponta Fábio Vitola, CEO da Galapos
19/02/2026
O crescimento da energia renovável tem colocado o Brasil em boa posição para o setor de fusões e aquisições (M&A), apesar de alguns desafios.
De acordo com dados do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2025, as energias eólica e solar representam 23,7% de participação na geração total de eletricidade do país. A publicação destaca ainda que as fontes renováveis representam 88,2% do total, número superior à média mundial.
Estes números são responsáveis por aquecer o mercado de M&A no setor, com destaque para a GD, na visão de Fábio Vitola, CEO da Galapos, empresa de consultoria estratégica, M&A e incentivos fiscais associada à XP Inc.
Ele destaca que, até agora, já foram registrados três momentos importantes nessa categoria: o primeiro foi o elevado volume de dívidas para financiar os projetos existentes, o segundo foi a transação de ativos pré-operacionais e recém conectados; e, finalmente, o que estamos vivendo no momento, a transação de ativos maduros e operacionais.
A Galapos foi responsável por conduzir dois casos de M&A em geração distribuída. Entre eles, a consultoria assessorou a MW Energias Renováveis na aquisição de projetos greenfield, junto da captação do Fundo Clima, do BNDES, para a alavancagem dos projetos. “Esse projeto foi realizado durante quase 20 meses, quando atuMOS com a Galapos atuando como conselheira de todas as necessidades na estruturação do projeto, não somente na transação”, disse à Brasil Energia, em entrevista.
Outro projeto que se destacou foi a saída da Copel do setor de geração distribuída, junto da sua sócia Intertechne. O movimento, segundo Vitola, reforça o posicionamento da administração da empresa paranaense em focar no seu core business. “O objetivo foi fazer uma saída racional dos ativos existentes, reciclando ativos e otimizando a alocação de capital dos acionistas. O processo foi relativamente rápido e percebemos que a alta demanda dos players por estes ativos continua”, analisa.
Para o executivo, o Brasil terá grande oportunidade nos próximos anos com a instalação de data centers que estão sendo previstos. O CEO da Galapos avalia ainda que as transações seguirão resilientes, sendo necessário ter atenção à redução ou interrupção forçada da geração de energia elétrica, além de novos projetos regulatórios que estão tramitando no Congresso Nacional, para entender qual parte do setor será mais líquido. “Seguiremos com uma atuação holística dentro do setor, seja ela em M&A ou dívida”, aponta.
Abaixo, Vitola também aborda questões ligadas ao curtailment e outras que podem influenciar o setor de fusões e aquisições.
A questão do curtailment e do fim dos subsídios podem brecar o interesse de novas empresas em projetos de GD? Por qual razão?
A GD não foi impactada pelo curtailment, embora esse seja um risco notado pelo mercado. O fim dos subsídios, por sua vez, pressiona a rentabilidade de novas usinas solares não enquadradas na modalidade subsidiada.
E esses fatores podem reduzir o interesse de novos entrantes e novos projetos…
Sim, porém, ao mesmo tempo, fazem com que as empresas que já estejam operacionais e com contratos sólidos possam receber um prêmio na sua valorização, já que preservam condições que já não estão mais disponíveis no mercado.
Os data centers abrem portas de novos investimentos no país, mas como a Galapos vê a questão da infraestrutura necessária de transmissão para atender essa nova onda?
A expansão dos data centers representa uma oportunidade relevante para o setor elétrico. No entanto, a infraestrutura de transmissão precisa acompanhar esse crescimento.
O que falta?
Há necessidade de investimentos coordenados e planejamento de longo prazo. Projetos próximos aos centros de carga e com soluções energéticas dedicadas tendem a ganhar destaque.
Como as empresas do setor de energia continuam buscando diversificação de seu portfólio de ativos visando atender as demandas originadas pela transição energética?
As companhias têm buscado diversificação tecnológica e contratual. A combinação de solar, eólica, armazenamento e ativos flexíveis amplia a resiliência do portfólio. Além disso, cresce o foco em autoprodução e contratos corporativos. O objetivo é reduzir riscos e capturar oportunidades da transição energética.
Você acredita que os juros altos, a regulamentação complexa e o curtailment podem ser obstáculos para o crescimento do mercado de M&A para renováveis?
Esses fatores tornam as transações mais seletivas. Juros elevados impactam o custo de capital e valuations, enquanto a complexidade regulatória alonga processos. Porém, da mesma forma que criam dificuldades, essas características podem ser motivações de transações oportunas.
De que forma?
Quem está com financiamento caro pode ver numa transação a oportunidade de desalavancar o negócio. Quem tem receio do curtailment pode buscar encerrar esse risco vendendo o ativo para outro player que não aposta na inclusão das GDs no processo de curtailment, por exemplo.
Por fim, como a Galapos vê a atratividade do Brasil frente aos mercados e empresas internacionais?
O Brasil permanece como um dos mercados mais atrativos em energias renováveis. A combinação de escala, qualidade dos recursos naturais e demanda crescente sustenta o interesse internacional. Apesar dos desafios regulatórios e macroeconômicos, o país oferece oportunidades com retornos competitivos frente a mercados mais maduros.
Fonte: Brasil Energia



