Redes de hotéis avançam para cidades do agronegócio

Regiões que antes tinham pouca vocação para o setor hoteleiro viraram canteiro de obras
23/03/2026

A força do agronegócio, que tem levado a um amplo crescimento econômico de cidades no interior, colabora para o fortalecimento da indústria hoteleira nos últimos anos. Cidades no Centro-Oeste, Sul e Sudeste, que antes tinham pouca vocação hoteleira, passaram a virar um canteiro de obras.

Para além da força de empresários locais no financiamento dos projetos, o setor tem sido beneficiado pela atuação de bancos de fomento, fundamentais diante de um cenário de juros elevados.

O aquecimento do mercado de hotelaria em regiões do agronegócio no Brasil tem surpreendido a rede francesa Accor.

“Nós trabalhamos de forma bastante estruturada, com um mapeamento de cerca de 100 cidades-chave ao longo da chamada rota do agronegócio no Brasil. Hoje, já estamos presentes em mais de 30 delas, e seguimos expandindo”, disse ao Valor Thomas Dubaere, CEO da Accor Américas na divisão premium, midscale & economy.

Um dos destaques é o eixo Matopiba, que abrange áreas de cerrado nos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. “Trata-se de uma região que vem apresentando forte expansão da produção agrícola, atraindo investimentos”, disse Dubaere.

No Brasil, a Accor abriu dez novos hotéis no ano passado, sendo dois em regiões agro: ibis styles Bonito (MS) e ibis Primavera do Leste (MT). Assinou acordo ainda com outros cinco hotéis em locais como Chapadão do Sul e Bonito.

Atualmente, a Accor conta com 30 hotéis em operação em cidades do agronegócio, somando 4.135 quartos, distribuídos em Estados como Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Há dez anos, a rede contava com 18 hotéis e 2.388 quartos em cidades dessa rota do agro.

A Accor tem uma trajetória em mercados maduros, como a Europa, onde já atua há décadas em cidades de menor porte, muitas delas também ligadas a atividades agrícolas e industriais.

“Um dos principais aprendizados é a importância de combinar capilaridade com consistência de marca. Em regiões fora dos grandes centros, o viajante valoriza ainda mais a previsibilidade da experiência, saber exatamente o que vai encontrar, independentemente da cidade”, disse Dubaere, destacando que nessas localidades a demanda é, sobretudo, corporativa.

A força dessas cidades do agro é o que colaborou para a Marriott trazer ao Brasil a marca City Express, que tem o objetivo de explorar projetos em cidades secundárias e terciárias.

“É uma das marcas mais importantes e é a marca que mais vamos desenvolver em volume”, disse Paulo Mancio, vice-presidente de desenvolvimento no Brasil da Marriott.

A empresa hoje avalia projetos em cidades como Bebedouro, no interior de São Paulo, e Sinop, no Mato Grosso.

“A City Express foi desenhada para o mercado brasileiro”, disse Renato Carvalho, gerente sênior de desenvolvimento da Marriott International no Brasil.

No país, a marca terá quartos entre 15 m2 e 20 m2, em propriedades de até 140 quartos.

A Marriott fechou mais sete contratos do City Express no Brasil, sendo três com a Fábrica de Hotéis e quatro com a Justa & Utg Empreendimentos. Em conjunto, as novas propriedades assinadas pelas duas incorporadoras deverão adicionar cerca de 945 quartos ao pipeline da Marriott no Brasil.

Os três novos contratos com a Fábrica de Hotéis estão localizados no Nordeste e se somam aos sete anunciados em março de 2025, como parte do acordo de longo prazo firmado com o grupo para desenvolver 30 propriedades na região em 15 anos.

Já o acordo com a Justa & Utg ajudará a marca a crescer no Sudeste. Os contratos incluem: City Express Plus by Marriott em Holambra, São Paulo (120 quartos); City Express Plus by Marriott em Araras, São Paulo (120 quartos); City Express by Marriott em Piracicaba, São Paulo (140 quartos); e City Express Plus by Marriott em Passos, Minas Gerais (140 quartos).

Nas regiões agro, a estratégia da City Expres tem sido construir novos prédios. Mas os executivos destacaram que conversões também são possíveis, embora menos prováveis, uma vez que nessas cidades a oferta hoteleira é baixa.

Carvalho destacou ainda que o agro acaba colaborando para o crescimento das cidades. “Ribeirão Preto era uma cidade muito ligada ao agronegócio e hoje ela tem uma parte de serviço muito grande na sua economia”, disse.

O crescimento do portfólio agro é uma realidade também na Atlantica Hospitality International, que tem presença estratégica no Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país. Hoje, são 48 propriedades nessas regiões, que somam 6.631 quartos. Em 2016, as mesmas regiões contavam com 27 hotéis, totalizando 3.680 quartos — em dez anos, a oferta de quartos saltou cerca de 80%.

“Esses números são vitais para a estratégia de capilaridade da Atlantica, já que representam 25% do portfólio total de empreendimentos da rede e 27% da oferta de quartos”, disse Eduardo Giestas, CEO da Atlantica Hospitality International.

Parte da estratégia do grupo nessas localidades é uma diversificação nas categorias de hotéis oferecidas. Do pipeline, 29% estão no segmento de luxo e alto padrão, 52% no médio padrão e 19% na categoria econômica.

“Em termos de performance financeira, registramos na região do agronegócio crescimento de 17% em ADR [diária média] e 18% em RevPar [receita por quarto disponível] na comparação ano a ano”, disse Giestas.

Em menos de uma década, a Atlantica triplicou sua presença na região Centro-Oeste, focada na produção de grãos, com destaque para soja, milho e algodão. Em 2016, eram quatro hotéis nas regiões de Mato Grosso e Goiás, totalizando 613 quartos. Hoje, são 15 hotéis, que somam 2.144 quartos.

“Ao integrarmos o Distrito Federal, hub fundamental de conexões para o segmento, nosso portfólio expande para 20 empreendimentos e 2.834 quartos. Esse salto representa um crescimento expressivo de 275% no volume de hotéis e 250% na oferta de quartos”, disse Giestas.

Ainda segundo o executivo, o grupo tem hoje um pipeline de 16 hotéis assinados em regiões do agro, com aberturas previstas entre 2027 e 2031, totalizando 2.602 quartos e cerca de R$ 1 bilhão de investimento. Os projetos representam, respectivamente, 29% do pipeline total de hotéis e 31% do pipeline de quartos.

“Atualmente, 31% dos hotéis em fase de negociação estão localizados nessas regiões, o que reforça nossa confiança na continuidade da prosperidade deste setor nos próximos anos”, afirma o CEO da Atlantica.

Na Atrio, terceira maior operadora de hotéis do país, hoje o setor agro representa cerca de 5% do faturamento. A meta é levar essa participação a 20% até 2030, disse Beto Caputo, CEO da Atrio Hotel Management.

Atualmente, a Atrio tem 82 hotéis em operação, além de 15 assinados para os próximos dois anos. Do total assinado, três são em regiões do agro.

Caputo destaca ainda que o suporte financeiro de famílias tradicionais do agronegócio tem colaborado para tirar os projetos do papel – por causa da baixa oferta hoteleira, conversões são raras e a construção do prédio do zero acaba sendo necessária.

“O que vemos é que, com o acúmulo de capital nessas regiões, há o apetite de investidores de diferentes famílias no setor hoteleiro”, disse. O recurso, apontou, soma-se ao apoio de bancos de fomento regional, que viabilizam os prédios a uma taxa competitiva mesmo diante de uma taxa de juros elevada.

Fonte: Valor Econômico

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