Desempenho reflete diferenças de modelo de negócio, exposição ao mercado externo e efeitos de medidas do governo
02/04/2026
A disparada dos preços do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio não se refletiu de forma linear nas ações de petroleiras na bolsa brasileira. Embora o Brent tenha acumulado alta próxima de 62% em março, o impacto sobre os papéis do setor no Ibovespa foi desigual, refletindo diferenças de modelo de negócio, exposição ao mercado externo e efeitos de medidas do governo sobre exportação e refino da commodity.
Empresas com maior exposição à produção e exportação, como Petrobras e Prio, exibiram correlação mais evidente com a commodity, ainda que longe de ser perfeita. No mês passado, as ações ordinárias da Petrobras subiram cerca de 26% e as da Prio, 21%, segundo cálculos do Valor Data. Vale mencionar, porém, que os papéis da estatal também foram beneficiados pela continuidade do fluxo estrangeiro em direção a mercados emergentes. Já companhias como Brava Energia e PetroReconcavo ficaram para trás, com ganhos de 10% e 13%, respectivamente, pressionados por características operacionais distintas e menor sensibilidade direta à alta do petróleo no mercado internacional.
A diferenciação no desempenho também reflete fatores idiossincráticos das empresas, que vão além da oscilação do Brent. A Prio, por exemplo, tem um perfil de receita majoritariamente atrelada à exportação e ao preço do petróleo, além de catalisadores específicos que atraem investidores, afirma o analista Caio Borges, da Eleven Financial. Um deles é a licença recentemente liberada para o campo de Wahoo, com produção inicial de 12 mil barris por dia e expectativa de alcançar 40 mil barris diários até o fim de abril.
A Petrobras, por sua vez, opera sob uma lógica distinta das demais companhias. Uma parcela relevante de sua receita vem do refino, cujas margens nem sempre acompanham o Brent. Isso ocorre porque a política de preços da estatal considera outros fatores além da cotação do petróleo, o que resulta em reajustes menos frequentes. “Na prática, quando o Brent sobe sem um repasse imediato aos derivados, a margem de refino se comprime, limitando o efeito positivo da alta do petróleo sobre o desempenho da companhia”, afirma Borges.
Embora otimista com o avanço da produção da Prio, o gestor Henrique Lara, da Reach Capital, reconhece que a tributação de 12% sobre as exportações de petróleo bruto pesa sobre a companhia. A medida recente do governo visa financiar subsídios e conter os preços dos combustíveis e foi acompanhada por uma taxação de 50% sobre as exportações de diesel.
Além da Prio, a Brava está entre as mais impactadas pela iniciativa, já que exporta cerca de 40% de sua produção. Ao mesmo tempo, a empresa mantém uma estrutura de hedge que reduz de forma significativa os ganhos gerados pela alta do Brent, o que ajuda a explicar o desempenho inferior das ações.
Ainda assim, com a eclosão do conflito, gestores locais passaram a reavaliar o risco das carteiras. Se antes muitas casas evitavam exposição ao petróleo – diante do consenso de que haveria um descasamento entre oferta e demanda na transição do primeiro para o segundo trimestre -, a disparada dos preços levou a um aumento relevante da alocação em petroleiras.
No caso da Reach Capital, a gestora triplicou sua exposição ao setor, sem detalhar os números. Segundo Lara, a casa já avaliava que o conflito teria duração mais longa do que a precificada pelo mercado, mesmo com uma eventual reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial. Por isso, parte do portfólio foi direcionada a empresas de petróleo, ainda que a carteira siga diversificada.
Assim, o gestor reduziu posições mais sensíveis ao ciclo econômico e ampliou em 10% a exposição a petroleiras globais e empresas de fertilizantes internacionais. “Mesmo se a guerra acabar, o prêmio geopolítico vai permanecer e não deve voltar a zero imediatamente. É um volume relevante de petróleo que foi retirado do mercado, e as alternativas para compensar essa perda são limitadas”, afirma.
Um estudo da Quantum, feito com exclusividade para o Valor, mostra que o comportamento do Brent e das ações da Petrobras nem sempre se repete em conflitos geopolíticos. Na Primavera Árabe, os papéis preferenciais da estatal acompanharam a alta do petróleo entre dezembro de 2010 e abril de 2011, mas a correlação se perdeu dali em diante até 2013. Já no conflito entre Israel e Hamas de 2023 a 2025, o movimento foi diferente. O petróleo caiu durante o conflito, enquanto as ações da estatal subiram.
Essa assimetria histórica ajuda a interpretar o cenário atual. Em 2026, o petróleo segue volátil, reagindo principalmente aos posicionamentos de Irã e Estados Unidos. Ainda assim, mesmo em um ambiente de trégua, a média de preços já se encontra acima do inicialmente esperado para o período, observa o gestor de renda variável da Franklin Templeton, Guto Leite.
No ano, a média de preços do barril tem se mantido entre US$ 75 e US$ 80, cerca de US$ 10 acima das projeções feitas pela casa antes do conflito, quando o mercado esperava uma desaceleração da demanda. “É positivo para Petrobras e Prio. Mesmo com o petróleo a US$ 70, o piso deve ser mais alto e o prêmio geopolítico tende a durar mais.”
Antes da guerra, Leite mantinha uma exposição abaixo da média de mercado em petroleiras. Hoje, a carteira é mais defensiva, com posições em Prio e Petrobras, além da redução de ativos mais sensíveis ao ciclo econômico.
“A leitura é que abril é um mês crucial. A cada semana de conflito, a piora não é linear, é exponencial. O risco não é só no petróleo, mas em toda a cadeia: derivados e até fertilizantes. O cenário alternativo é tão adverso que o mercado acaba se apoiando em qualquer sinal positivo para sustentar as altas”, afirma o gestor.
Fonte: Valor Econômico


