Plataformas de IA para advogados ganham escala

Serviços organizam fluxo de trabalho, estruturam dados de processos e usam métodos estatísticos para apontar padrões de julgamento
26/02/2026

O avanço da inteligência artificial (IA), especialmente dos modelos generativos capazes de produzir textos e analisar grandes volumes de informação, chegou de vez ao setor jurídico. Esse movimento abriu espaço para um novo grupo de empresas que desenvolvem e vendem sistemas de automação, análise de dados e apoio à tomada de decisão para escritórios e departamentos jurídicos. Em um mercado pressionado por volume de processos e redução de custos, a promessa é ganhar eficiência sem ampliar estruturas.

Guilherme Forma Klafke, professor de direito e tecnologia da FGV Direito SP, diz que a adoção de ferramentas de IA no mercado jurídico não é uma novidade, mas ainda estava restrita a um pequeno conjunto de escritórios e órgãos públicos inovadores. Na análise de Klafke, a diferença dos últimos anos é que os produtos e serviços se expandiram e se multiplicaram, com maior sensibilização dos atores jurídicos para o uso da IA.

Para se ter uma ideia do volume que um grande escritório pode ter em ações, no início da década de 2010, o JBM Advogados, com sede em Bauru (SP), tinha mais de mil advogados e chegou a acumular 500 mil processos judiciais ativos. O tamanho da operação e a pressão para organizar o fluxo das ações foi o estopim para a criação de uma área no escritório dedicada ao desenvolvimento de software e tecnologia, que mais tarde se transformou na Finch.

Renato Mandaliti, advogado e CEO da Finch, conta que a resposta para a demanda por organização no JBM foi desenvolver um software próprio de gestão. O programa foi pensado para capturar informações diretamente nos sistemas dos tribunais e transferir esses dados para a base interna, com o objetivo de estruturar fluxos e reduzir a dependência de lançamentos manuais.

Em 2013, com a estrutura de funcionamento do software já azeitada, surgiu formalmente a Finch, que deixou de funcionar apenas como suporte ao escritório e passou a ter equipe, sistemas e processos próprios. Hoje, a companhia tem entre 900 e mil funcionários e mais de 300 clientes. Com taxa de crescimento entre 19% e 21% ao ano, a Finch projeta acelerar esse ritmo em 2026, sustentada por maior maturidade dos clientes na adoção de tecnologia.

Além de organizar datas, prazos e fluxo processual, a plataforma da Finch estrutura dados extraídos das decisões judiciais e aplica métodos estatísticos para apoiar a tomada de decisão dos advogados. A empresa trabalha com o que define como jurimetria, transformando documentos em informação comparável e indicando padrões de julgamento, riscos e probabilidade de êxito. “No geral, os dados estão todos ‘bagunçados’ ao longo de um processo judicial de 2 mil páginas. A nossa jurimetria é capaz de estruturar todos eles”, observa Mandaliti.

A empresa tem dois formatos de receita. Quando o cliente contrata o sistema, o valor é calculado com base no número de usuários que terão acesso à plataforma, em modelo de licenciamento. O outro formado abrange a contratação de serviços operacionais, como cadastro de processos e gestão de subsídios. Nesse caso, a cobrança é feita por operação realizada.

Apesar de ser uma tendência e estar no dia a dia dos advogados, ainda há dúvidas sobre o retorno financeiro da adoção de IA e seu impacto no modelo de negócios dos escritórios. “Não vejo estudos de retorno para os escritórios. Um impacto grande até o momento foi em como os escritórios são contratados. Muitos cobram por hora, e a IA reduz o tempo para algumas tarefas, o que tem impacto direto para a quantidade de horas que os clientes aceitam pagar”, diz Klafke.

Diferentemente da trajetória da Finch, que nasceu dentro de uma operação de massa e cresceu estruturando fluxos para grandes carteiras judiciais, a Forlex, com sede em Goiânia, surgiu no ambiente da IA generativa com foco no advogado autônomo. Criada em 2023 por Daniel Bichuetti e Vinícius Espíndula, a empresa já tem um escritório fora do Brasil, em Delaware, nos Estados Unidos, e opera com um time de 11 profissionais das áreas de engenharia, ciência de dados e produto.

A proposta da Forlex é oferecer um assistente jurídico digital capaz de ler processos, interpretar documentos e apoiar a elaboração de peças com base em fontes oficiais. O modelo de negócio é baseado em software como serviço (SaaS), com planos que vão do gratuito ao corporativo. O perfil predominante de cliente é o advogado autônomo ou sócio de pequenos escritórios, embora organizações também sejam atendidas.

Em 2025, a Forlex dobrou o faturamento impulsionada pela expansão da base de usuários. Para 2026, a expectativa é chegar a R$ 58 milhões de faturamento, apoiado na maturação dos planos pagos e na conversão de usuários da modalidade gratuita. Bichuetti diz que o salto mais relevante veio com a parceria firmada com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que passou a disponibilizar a seus associados a ferramenta da Forlex com o plano Starter gratuito, além do apoio das seccionais e iniciativas de capacitação.

Segundo Bichuetti, foi a partir desse convênio que a base de usuários passou de cerca de mil para aproximadamente 18 mil profissionais. “A parceria com a OAB transforma a Livia, IA vertical, em uma infraestrutura de apoio à advocacia brasileira. Esse contexto exige um produto confiável, estável e simples”, ressalta.

Apesar do avanço das ferramentas, os riscos ainda estão no centro do debate e há preocupação com respostas incompletas, falsas ou mal fundamentadas pelo instrumento da IA generativa. Klafke explica que já há uma base internacional, criada pelo advogado e cientista de dados Damien Charlotin, que reúne mais de 900 casos com suspeitas de precedentes inventados em processos.

No caso da Finch, Mandaliti diz que o sistema jurídico da empresa foi construído e organizado por módulos. “Sempre que o processo jurídico avança um módulo, ele passa por uma revisão humana sobre o que foi feito, ou seja, dos próprios usuários do software. Assim, possíveis erros da IA generativa podem ser contestados pelos próprios usuários”, afirma.

Na Forlex, a Livia é definida como uma IA vertical, treinada exclusivamente com fontes jurídicas. “Diferentemente das IAs generalistas, ela não recorre ao chamado ‘mar aberto’ de informações da internet. Isso elimina uma das principais fontes de erro desses sistemas: a contaminação por dados irrelevantes ou imprecisos para o contexto jurídico”, diz Bichuetti.

Fonte: Valor Econômico

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