O Brasil será um hub de reciclagem, diz presidente da BR Offshore

Em entrevista à Brasil Energia, o presidente do novo estaleiro, Ricardo Vianna, disse acreditar na criação de um mercado perene de desmantelamento de grandes embarcações. O BR Offshore está sendo instalado no Norte Fluminense de olho também no apoio offshore e na geração eólica marítima
31/03/2026

Em fase de finalização do projeto executivo, o estaleiro BR Offshore nasce em Quissamã, no Norte Fluminense, como uma promessa no segmento de reciclagem de grandes embarcações, sobretudo FPSOs. No fim de março, foi lançada a pedra fundamental. Alguns contratos já estão sendo negociados, inclusive para que a área seja utilizada também como base de apoio offshore, como antecipou o presidente da empresa, Ricardo Vianna, em entrevista à Brasil Energia.

O projeto é de longo prazo. Num primeiro momento, a ideia é aproveitar a reativação da Bacia de Campos. Mas até mesmo o declínio será bem-vindo, já que o carro-chefe da BR Offshore é o desmantelamento de grandes embarcações no final de vida útil. No futuro, será a vez de agregar o apoio à geração eólica offshore ao portfólio de negócios.

O investimento previsto, inicialmente, é de R$ 850 milhões. O começo das obras da primeira etapa está previsto para este ano e a conclusão, para 2028.

“Se houver um novo declínio da Bacia de Campos daqui a cinco ou dez anos, vai ter a eólica offshore entrando. A nossa instalação está olhando para o mercado de 30 a 35 anos. Nesse período, o mercado de reciclagem de embarcações deve ser perene e crescente, dado a falta de instalações de reciclagem capazes de absorver a demanda”, afirmou Vianna. 
Veja os principais trechos da entrevista:

Como surgiu o projeto do novo estaleiro?

Começamos em 2012, quando compramos a área em Barra do Furado (em Quissamã, RJ), visando participar de uma licitação da Petrobras. Consideramos Barra do Furado extremamente estratégico. É o ponto de terra mais próximo do centro de massa da Bacia de Campos. A quatro quilômetros de onde estamos, entram três gasodutos e quatro oleodutos da Bacia de Campos, que dali vão para Cabiúnas (terminal). Tem toda uma lógica de localização. Além disso, já havia intervenções na área, com a construção de um canal artificial. Então, a gente tem não só um conhecimento bastante grande da região, que já tinha sofrido intervenção humana, como também aproveita parte da estrutura. Com a melhora do mercado, há três anos, começamos a repensar o que poderia ser feito na área. A gente começou a ver investimentos pesados na Bacia de Campos e o pré-sal da região começando a ser explorado. Ao mesmo tempo, tem as operadoras independentes, que dão uma outra tônica de exploração dos campos já maduros. A gente vê ali um potencial bastante grande. 

Simultaneamente, alguns campos da Bacia de Campos também passam pelo fim do ciclo de vida.

Sim. Plataformas começaram a ser descomissionadas. Ao mesmo tempo, houve uma grande mudança de paradigma na regulação mundial de reciclagem de plataformas. Antes, basicamente, os navios eram vendidos para cash buyers para eles fazerem uma reciclagem precária, com baixa preocupação ambiental e com os trabalhadores. Em função disso, várias convenções mundiais de circulação de materiais perigosos e de reciclagem de embarcações estabeleceram regulamentos mais restritos, o que levou à criação de um novo paradigma, de uma reciclagem responsável. Hoje, a União Europeia já está regulada. Todos os grandes armadores de origem europeia já estão seguindo essa regulação. Há ainda uma preocupação com a descarbonização. O aço verde passa a ser cada vez mais valorizado. Então, a gente percebeu que não só o Brasil tem uma das maiores frotas de FPSO que estão chegando ao final de sua vida útil e precisam ser recicladas, como o mundo inteiro está nessa onda, com a regulação dos estaleiros verdes e a convenção de Hong Kong (que estabelece normas internacionais de reciclagem de navios). É preciso ter instalações específicas que obedeçam a uma série de questões de segurança ambiental e dos trabalhadores. Está acontecendo uma enorme demanda de locais para fazer a reciclagem de embarcações de forma segura e ambientalmente correta. 

O mercado externo também está no foco da empresa?

Ainda existem desafios. O Brasil precisa aprovar o Projeto de Lei 1584, que é a lei de reciclagem, e aderir à Convenção de Hong Kong. Estamos fazendo todo o projeto já visando todos os itens preconizados no PL e os principais itens da Convenção de Hong Kong. E estamos seguindo os itens da União Europeia. Esse é um mercado que está fazendo fila, principalmente FPSOs, que são embarcações extremamente grandes. Muitos dos estaleiros da União Europeia não têm capacidade de recebê-las. Hoje, existem dois estaleiros na União Europeia, na Dinamarca e Noruega, com capacidade de receber FPSOs. O Brasil já mandou dois para lá e deve mandar um terceiro. 

A Dinamarca e a Noruega são os principais concorrentes? Aqui no Brasil seria a Ecovix?

No Brasil é a Ecovix, que recebeu a P-32 (da Petrobras). Mas a gente vê que para uma estrutura de estaleiro de construção, mais pesada e de mais investimento (como o Ecovix), é melhor construir do que desconstruir. E, obviamente, o custo de fazer um descomissionamento num estaleiro de construção é mais elevado do que o de usar uma instalação desenhada desde o começo para isso. 

O Brasil está bem-posicionado para disputar o mercado internacional?

Estamos na costa atlântica, enorme. Há uma frota de FPSOs na África também bastante relevante. O primeiro movimento seria atrair os FPSOs que estão no Brasil e depois, os da África. Rebocar uma estrutura dessa até a Dinamarca custa, tem que ter a aprovação de 16 países, porque há a movimentação de resíduos perigosos. É uma dor de cabeça. E toda dor de cabeça agrega custo. Fora isso, no Brasil, há várias indústrias siderúrgicas que são demandantes do aço. 

Você diria que a construção de plataformas já não atrai os investidores em estaleiros como no passado?

O ciclo da queda do petróleo machucou muita gente no mundo inteiro, seja construtor de FPSO, armador e também grandes operadoras de frotas de barco de apoio. Cada estaleiro foi, então, buscar uma vocação. A gente perdeu capacidade produtiva no Brasil, assim como outros países. Houve uma certa especialização. Índia, China e Cingapura cresceram nesse mercado, com políticas específicas favoráveis. O Brasil tem uma lei de conteúdo local que ajuda, mas não é tão competitivo quanto foi no passado. Hoje é impensável voltar a ter participação de mercado como no passado. Antes era Japão e Brasil. Agora tem Coreia, Cingapura e China, bastante agressiva. O mercado mudou.

Qual o carro-chefe da BR Offshore, o apoio offshore e a eólicas ou a reciclagem?

A reciclagem é o nosso negócio principal. Mas temos uma área que vamos dedicar como base de apoio offshore. Acabamos comprando uma área maior no ano passado, quando começamos a desenhar o novo projeto. Temos um cais de 900 metros. Então, os dois carros-chefes são uma instalação de reciclagem de embarcações e uma base de apoio tradicional. Temos conversas específicas para a utilização dessa base de apoio. E temos uma terceira área que a gente está ainda discutindo o que vai fazer. Essa área de base de apoio, temos perspectiva para daqui a alguns anos usar como apoio para eólica offshore. 

Já tem contrato previsto?

Estamos conversando. Na verdade, estamos há três anos desenvolvendo o projeto, falando com os principais players. Agora que colocamos a cara para fora. 

A BR Offshore vai participar das licitações da Petrobras para a reciclagem de plataformas?

Dessas que estão na rua não, porque a gente ainda tem um cronograma de cerca de 24 meses para completar a obra. A gente chegou a olhar, mas decidiu não participar, porque não dá tempo. 

A lentidão da Petrobras em lançar os editais de reciclagem não é preocupante?

A nova onda (de reciclagem) vai chegar. Há 14 embarcações de diferentes operadores, hoje, no Brasil, que já deveriam ter sido recicladas. Tem mercado. Daqui a 20 anos, os FPSOs novos vão ser reciclados. O Brasil está com 55 FPSOs em operação. A idade média é de 20 a 25 anos. Então vai ter uma demanda perene. Se a gente olhar para outras categorias de embarcações, como navios de contêiner, a demanda é maior ainda. Nosso foco são as embarcações de grande porte, que são as que têm maior volume de aço. 

A BR Offshore está apostando em dois segmentos que ainda estão em processo de aprendizagem, que é a reciclagem e a eólica offshore. Não é perigoso?

A eólica offshore não é para amanhã ou depois de amanhã. Mesmo que a regulamentação saia no final deste ano, estamos olhando para daqui a cinco anos. Ou seja, se houver um novo declínio da Bacia de Campos daqui a cinco ou dez anos, vai ter a eólica offshore entrando. A nossa instalação está olhando para o mercado de 30 a 35 anos. Nesse período, o mercado de reciclagem de embarcações deve ser perene e crescente, dado a falta de instalações de reciclagem capazes de absorver a demanda. Há 182 FPSOs no mundo na fila para serem reciclados. Somado a todos os outros tipos de embarcações de grande porte, em 2035, deve ser necessário reciclar de sete a oito embarcações por dia. Não há a menor capacidade disso ser feito hoje. Então, temos um mercado ávido. E, obviamente, toda preocupação com a descarbonização é bastante relevante. O Brasil é um país que gera muito pouca sucata metálica per capita. Mas a P-32, que está no estaleiro Ecovix (para desmantelamento), tem 42 mil toneladas de aço de boa qualidade, bom para reciclagem, o que evita muito a emissão de CO2. 

É uma boa notícia para o setor naval. 

A demanda brasileira é relevante por conta da relevância da frota de óleo e gás no país. E há uma demanda mundial. Considerando que o Brasil já tem uma mão-de-obra qualificada da indústria naval, não tem por que perder essa onda e deixar de criar um hub de reciclagem no país. Eu sozinho não vou dar conta. Vão ter outras instalações semelhantes à minha que vão ser desenvolvidas também. 

Uma das dificuldades do setor naval brasileiro é o financiamento. Como está sendo isso para vocês?

A gente tem um sócio, a holding do Banco Fator, que está estruturando um financiamento de longo prazo para a gente iniciar as obras já com recurso assegurado. Ao mesmo tempo, vamos usar as fontes tradicionais de financiamento de longo prazo no Brasil, que são o Fundo de Marinha Mercante e o BNDES. O Fator está liderando um conjunto de bancos para montar uma emissão de recebíveis imobiliários que lastreiem a captação de recursos. 

Assim, a BR Offshore conseguiu a garantia do financiamento do BNDES?

Não. Com o BNDES a gente ainda não discutiu. A garantia é a real. Já garanti o funding e vou tentar, depois, otimizar para um funding mais barato. Porque a gente acabou de fechar o projeto. Estamos fazendo o projeto executivo e cravando o orçamento final. Então, vou agora entrar com o pedido no Fundo de Marinha Mercante e, num segundo momento, no BNDES. 

A empresa terá facilidade de apresentar garantias ao BNDES?

Sim, porque a gente está discutindo alguns contratos de longo prazo com potenciais clientes. A ideia é securitizar esses contratos. Ou, em algum momento, eu vou ter também garantia real em valor suficiente para isso.

Fonte: Brasil Energia

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