Etanol ganha novo status com escalada do petróleo

Insumo é um dos principais candidatos a integrar os chamados corredores verdes, pela capacidade de conectar diferentes cadeias produtivas
26/03/2026

A alta recente dos preços dos combustíveis fósseis, em meio a tensões geopolíticas, tem acelerado a busca por alternativas de baixo carbono e reposicionado o etanol no centro do debate energético. O movimento foi um dos principais pontos do painel “Corredores verdes: desenvolvendo o mercado de combustíveis de baixo carbono na aviação e no transporte marítimo Brasil-China”, realizado no “Summit Valor Econômico Brazil-China 2026” – promovido pelo Valor em associação com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Associação do Povo Chinês para a Amizade com Países Estrangeiros (CPAFFC).

O conceito de corredores verdes – rotas logísticas e comerciais estruturadas para viabilizar o uso de combustíveis de baixo carbono em larga escala, especialmente em cadeias internacionais como aviação e transporte marítimo – apareceu como um dos eixos do debate. A proposta envolve alinhar oferta, demanda, regulação e infraestrutura entre países, criando previsibilidade para investimentos e adoção dessas soluções.

“O aumento dos preços torna os combustíveis de baixo carbono mais competitivos e tende a acelerar sua adoção”, afirmou Sergio Peres, professor da Universidade de Pernambuco (UPE), ao destacar o efeito do cenário geopolítico sobre a transição energética.

Ao longo do painel, o etanol foi apresentado como um dos principais candidatos a integrar esses corredores, pela capacidade de conectar diferentes cadeias produtivas. Shen Wang, CEO da SafPac Hong Kong, destacou o potencial de escala do Brasil nesse contexto. “O país pode chegar a cerca de 30 milhões de toneladas por ano, ante 15 milhões anuais nos Estados Unidos. Mas o principal desafio ainda é transformar esse potencial em oferta consistente”, disse.

Mais do que o volume, o executivo chamou atenção para a diversificação de usos e para a capacidade do etanol de conectar diferentes setores. Wang explicou que o modelo “3+1” parte de três rotas principais de descarbonização nas quais o insumo já pode ser aplicado. “O etanol se insere em três frentes principais – marítima, aviação e indústria”.

Segundo ele, o diferencial está no quarto eixo, que amplia esse alcance. “O ‘+1’ é a conexão com o setor de energia. Com o avanço de tecnologias como a inteligência artificial, cresce o interesse por soluções como células de combustível a etanol, que permitem integrar esse insumo diretamente à geração de energia”, disse.

Outro ponto destacado foi o potencial associado ao dióxido de carbono gerado no processo produtivo do etanol. Segundo os debatedores, esse CO2 pode ser capturado e reaproveitado em diferentes aplicações industriais e energéticas, ampliando a eficiência do ciclo e reduzindo a intensidade de emissões de poluentes ao longo da cadeia.

Na prática, essa versatilidade amplia o espaço do etanol em diferentes segmentos. No transporte marítimo, o combustível pode ser convertido em metanol verde ou utilizado em misturas, ampliando as alternativas de baixo carbono para navegação. Na aviação, aparece como base para a produção de combustível sustentável (SAF, na sigla em inglês), uma das principais apostas para reduzir emissões no setor aéreo. Já na indústria, viabiliza a produção de materiais de menor impacto ambiental, como plásticos verdes.

Apesar do avanço das aplicações, especialistas destacaram que a consolidação desse novo papel ainda depende de condições estruturais. “Temos muitas empresas que estão esperando para ver se as pesquisas vão dar certo, e há o desafio de sair da bancada para a escala”, afirmou Peres, ao apontar a cautela do setor privado diante de tecnologias ainda em maturação.

A discussão também foi associada à segurança energética. “Não se trata apenas de descarbonização, mas de garantir o fornecimento de energia no futuro”, afirmou Li Zhenglong, professor da Universidade de Zhejiang.

Larissa Wachholz, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e sócia da consultoria Vallya, destacou o papel estratégico do Brasil nesse novo arranjo. “A base de matéria-prima do país é um diferencial relevante, mas precisa ser usada não apenas para exportação, e sim para atrair investimento industrial e agregar valor à produção”, afirmou. “O desafio é estruturar esse crescimento com sustentabilidade e previsibilidade”.

A necessidade de organizar cadeias de suprimento também foi apontada como condição para viabilizar o avanço dos corredores verdes. “O Brasil pode ser um fornecedor estratégico de combustíveis de baixo carbono para a China, mas é preciso construir uma cadeia estável de suprimento”, afirmou Xia Shubiao, da Chimbusco Shanghai.

Do lado institucional, a coordenação entre diferentes atores foi destacada como fator crítico. “A transição exige integração entre inovação, financiamento e políticas públicas para viabilizar projetos em escala”, afirmou Feng An, fundador do iCET.

Fonte: Valor Econômico

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