Do acordo ao colapso: o que se sabe sobre o fim da aliança Marriott–Sonder

Uma aliança que, à primeira vista, parecia promissora chegou ao fim em 9 de novembro de 2025. Na data, a Marriott International rescindiu o acordo de licenciamento firmado com a Sonder Holdings, alegando inadimplência por parte da operadora de apart-hotéis. Pouco depois, a empresa canadense anunciou o encerramento de suas operações, levantando questionamentos sobre os fatores que levaram ao colapso da parceria.

O rompimento ocorreu pouco mais de um ano após a assinatura do contrato, em meio a uma crise financeira que se aprofundava na Sonder. Embora o fim tenha sido abrupto, os acontecimentos que culminaram nesse desfecho vinham se desenhando ao longo de anos, conforme detalhado em documentos judiciais e reportagens do CoStar.

Fundada em 2014, a Sonder construiu seu modelo de negócios com base no arrendamento, operação e gestão de unidades em hotéis e edifícios residenciais, comercializadas tanto por meio de seu próprio site quanto por plataformas como o Airbnb. A empresa abriu capital em janeiro de 2022, após uma fusão com uma companhia de aquisição de propósito específico (SPAC).

O acordo com a Marriott foi anunciado em agosto de 2024, com prazo de 20 anos, e previa a integração do portfólio da Sonder às plataformas de reservas e ao programa de fidelidade Marriott Bonvoy. A iniciativa tinha como objetivo ampliar a atuação da rede hoteleira no segmento de apart-hotéis, mas acabou interrompida diante da incapacidade da Sonder de cumprir os compromissos financeiros estabelecidos no contrato.

No processo de falência da Sonder Holdings, a Marriott afirmou que a operadora tentou “usar a segurança dos hóspedes como moeda de troca” para financiar o encerramento de suas atividades.

O caminho do colapso

Em uma petição de emergência apresentada ao Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito de Delaware, a Marriott detalhou as comunicações finais mantidas com a Sonder nas semanas que antecederam o anúncio, feito em 10 de novembro, do encerramento das operações da empresa canadense.

Segundo a Marriott, ao rescindir o contrato de licenciamento em 9 de novembro, foram acionadas medidas de emergência previstas no acordo. Essas medidas permitiam, entre outras ações, informar hóspedes sobre a descontinuação do programa Sonder by Bonvoy, realocar clientes para outras propriedades, restringir novas reservas nos canais da Marriott e manter o suporte ao cliente para os hóspedes afetados.

“As medidas de emergência tornaram-se cada vez mais necessárias desde que a Sonder abandonou seus próprios canais de atendimento ao cliente e redirecionou os clientes afetados para a Marriott em busca de informações e suporte”, afirma a petição. De acordo com o documento, a Marriott solicitou contatos dos responsáveis pelas operações e pela transição de tecnologia e sistemas, mas não obteve retorno da Sonder.

A Marriott também alegou que a Sonder lhe devia mais de US$ 17,6 milhões, sendo US$ 14,4 milhões em adiantamentos não amortizados e US$ 3,2 milhões referentes a custos, taxas e despesas diversas.

Ainda conforme o processo, em 7 de novembro ficou evidente que a Sonder enfrentava uma situação crítica de liquidez, com praticamente nenhum recurso em caixa. A empresa teria informado à Marriott que provavelmente encerraria as operações no fim de semana de 8 e 9 de novembro, o que incluiria a demissão de funcionários e o desligamento de sistemas essenciais, como fechaduras eletrônicas, mesmo com milhares de hóspedes acomodados em propriedades da companhia em três continentes.

Para a Marriott, a possibilidade de interrupção abrupta das operações representava um risco imediato à saúde, à segurança e ao bem-estar dos hóspedes. Isso poderia impedir o acesso a pertences pessoais, como medicamentos e documentos, além de deixar unidades sem qualquer suporte operacional ou supervisão.

Segundo a petição, a rescindibilidade do contrato foi necessária para que a Marriott pudesse iniciar a comunicação direta com os hóspedes, conforme previsto nas cláusulas de emergência. As medidas foram implementadas ao longo do fim de semana de 8 e 9 de novembro e continuaram na semana seguinte.

No mesmo período, a Sonder enviou e-mails a seus clientes informando que não honraria mais os compromissos assumidos e orientando que buscassem assistência junto à Marriott. A empresa também substituiu sua linha telefônica de atendimento por uma mensagem gravada direcionando os hóspedes aos canais da rede norte-americana.

Tentativas de financiamento e ruptura final

Em 11 de abril de 2025, a Sonder havia captado cerca de US$ 18 milhões por meio da emissão de ações preferenciais adicionais. Em 5 de agosto, obteve aproximadamente US$ 24,5 milhões em liquidez adicional por meio de nova dívida sênior garantida. Na mesma ocasião, firmou um acordo com a Marriott para consolidar taxas de licenciamento não pagas nessa linha de crédito.

No início de novembro, no entanto, a liquidez da empresa se esgotou. Em 5 de novembro, as duas companhias chegaram a um acordo para ampliar a linha de crédito sênior garantida para US$ 1,5 milhão, valor equivalente a cerca de uma semana da folha de pagamento e encargos trabalhistas da Sonder nos Estados Unidos.

De acordo com a Marriott, a decisão de conceder esse financiamento adicional foi motivada pelo objetivo de viabilizar uma transição ordenada, preservando a operação das propriedades e minimizando impactos para hóspedes e reservas futuras.

No dia seguinte, a Sonder apresentou à Marriott uma proposta solicitando que a rede financiasse integralmente os custos de encerramento das atividades, incluindo um pedido de US$ 50 milhões em novos recursos e a assunção de passivos da empresa, inclusive aqueles relacionados a seus diretores e executivos. As propostas, que posteriormente envolveram valores de US$ 28 milhões e US$ 14,3 milhões, foram recusadas pela Marriott.

Segundo a petição, a Marriott reiterou que qualquer encerramento deveria ocorrer de forma a proteger os hóspedes, pedidos que, segundo a empresa, foram ignorados pela Sonder. Em 7 de novembro, a operadora canadense confirmou que não possuía mais fontes de liquidez, não tinha condições de pagar suas dívidas à medida que vencessem e não dispunha de recursos para conduzir um encerramento ordenado, prevendo um fechamento abrupto de suas operações.

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