Entre o fim do Perse e a reforma tributária, hotelaria ajusta rotas

16/03/2026

Foram R$ 15 bilhões em benefícios, encerrados em abril de 2025, colocando a hotelaria em uma nova fase no pós-pandemia. O fim do Perse (Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos) era temido e, ao mesmo tempo, esperado. Com a isenção de tributos no passado, 2026 marca o primeiro ano do setor sem a iniciativa federal — o que pede adaptação à nova realidade tributária.

Os direcionamentos do benefício foram diversos: alguns optaram por quitar dívidas, outros preferiram investir o dinheiro em renovações e ainda há aqueles que utilizaram o Perse como um colchão de caixa. Como primeiro ano de um novo equilíbrio, 2026 demanda atenção redobrada, uma vez que a reforma tributária chega oficialmente em 2027 para mudar as regras do jogo.

Mesmo com a retomada consistente da demanda turística e corporativa, a indústria enfrenta um cenário de pressão sobre margens, exigindo maior disciplina financeira, planejamento tributário e novos mecanismos de financiamento.

Durante os últimos anos, o alívio tributário proporcionado pelo Perse ajudou a recompor balanços fragilizados pela pandemia. Sem esse incentivo, hotéis precisam lidar com um aumento relevante de custos fiscais justamente em um momento em que muitos ainda estão reequilibrando seus níveis de endividamento e investimento.

O ano da transição

Hiram Della Croce, diretor de Operações da Wyndham Hotels & Resorts para o Brasil, Chile e Bolívia, afirma que, para 2026, a rede desenvolveu um orçamento desconsiderando quaisquer possibilidades de continuidade do Perse.

“A incidência combinada de tributos como CSLL e IR compromete substancialmente o EBITDA das unidades, o que exige de nós uma abordagem ainda mais disciplinada na gestão operacional”, diz Della Croce.

A rede hoteleira optou por conduzir um processo de conscientização junto às equipes, que passaram a operar diante de uma realidade anterior à pandemia. Segundo o diretor, a mudança impôs o desafio de repensar ganhos de eficiência, renegociação de contratos, gestão energética e otimização da força de trabalho.

“Sabemos que, nesse cenário, apenas aumentar a diária média ou a ocupação não é suficiente. O RevPAR, que é nosso principal índice de performance, continua sendo o parâmetro-chave, mas ele, isoladamente, não compensa a perda de benefícios fiscais. Por isso, estou constantemente buscando, junto aos nossos líderes locais, soluções criativas e operacionais que reduzam custos de forma inteligente, sem comprometer a experiência do hóspede”, continua o executivo da Wyndham.

Presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, Guilherme Dietze afirma que, desde o ano passado, as empresas começaram seu processo de adaptação para uma realidade sem o benefício. Segundo o economista, 2026 será marcado por resultados consistentes, repetindo o desempenho de 2025.

“As grandes empresas estão com bastante fluxo de caixa, investindo e contratando. O fim do Perse foi mais sentido pelos pequenos e médios. Quando falamos em captação de recursos, as companhias maiores têm juros mais baixos e mais formas de investir”, avalia Dietze.

Por se tratar de um segmento pulverizado, Dietze ressalta que, em linhas gerais, a hotelaria tem conseguido repassar o aumento de custos ao consumidor final, com diárias médias subindo em todas as categorias, de acordo com dados do FOHB (Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil).

“Meu cenário é otimista. Com a inflação dos alimentos mais baixa para o consumidor e, ao mesmo tempo, o Banco Central ganhando mais fôlego para reduzir a taxa de juros, existe a expectativa de queda da Selic. Temos uma inflação mais acomodada, o que traz mais poder de compra para as famílias, com pleno emprego e indicadores recordes”, avalia o economista.

O que os hotéis fizeram

No Sheraton São Paulo WTC Hotel, o prejuízo durante a pandemia, considerando o centro de eventos e a operação hoteleira, foi de R$ 34 milhões, segundo informado por Fernando Guinato, diretor-geral do empreendimento. De acordo com o executivo, a isenção de pagamento de tributos proporcionada pelo Perse foi de R$ 23 milhões.

“Ainda faltava R$ 11 milhões. Nunca houve a expectativa de que o Perse cobriria todos os prejuízos da pandemia, mas trata-se de um benefício que veio para tapar buracos em termos financeiros”, explica Guinato.

O valor foi direcionado para o pagamento de dívidas e capital de giro para manter o negócio, majoritariamente puxado pelo WTC Events Center, que comporta até 2,5 mil pessoas no Golden Hall e gera demanda de hospedagem para os hotéis vizinhos.

Guinato pontua que, em 2024, o hotel teve uma boa recuperação tarifária em função da ocupação aquecida em São Paulo. Quando o orçamento de 2025 foi elaborado, o empreendimento já desconsiderava uma possível continuidade do Perse.

“Já havia essa previsão para 2026 também. Temos que buscar resultados por outras vias. A ocupação segue elevada, com expectativa de demanda semelhante à de 2025. Trabalhamos com a perspectiva de crescimento de 6% acima da inflação projetada para 2026”, destaca Guinato.

Localizado em Ponta Grossa (PR), o Planalto Select Hotel direcionou o Perse para três frentes distintas: recuperação de caixa, investimentos e pagamento de parcelamentos. Daniel Wagner, diretor da propriedade independente, define o fim do benefício como um “golpe duro” para o setor hoteleiro.

“Demonstra a insegurança jurídica que vivemos em nosso país. Quando planejamos entrar no Perse, saímos do Simples Nacional, o que onera a nossa folha de pagamento. Ficamos com encargos sobre a folha de pagamento e os tributos federais. Acho injusto, pois empresas de fora dos setores beneficiados, como o iFood, garfaram parte desse valor”, contesta Wagner.

O empreendimento paranaense buscou renegociar com fornecedores em prol de maior eficiência financeira, apertou despesas e repassou os valores ao cliente final. Apesar dos impactos do fim do Perse, Wagner acredita que este será um ano propício para ajustar as velas do negócio.

“Como um hotel independente, nosso desafio é sempre maior. Ponta Grossa passou a tributar o aluguel de curto prazo da mesma forma que a hotelaria, o que nos ajuda. As redes maiores têm mais vantagem por contarem com uma estrutura mais centralizada. Vamos fortalecer nossos canais diretos, mas ainda há outras dificuldades, como mão de obra e retenção de talentos, o que acaba onerando o caixa”, analisa Wagner.

Presidente do SEHG (Sindicato Empresarial de Hotelaria e Gastronomia de Campos Gerais) e vice-presidente da FBHA (Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação), Wagner também destaca o papel do associativismo na luta por pleitos do setor.

“Temos atuado para conseguir reduzir os custos trabalhistas, que são as maiores despesas de um hotel. Na FBHA, ao lado de Alexandre Sampaio, estamos disponibilizando conteúdos sobre a reforma tributária”, finaliza Wagner.

2027 e além: novo ambiente de custos

A partir de 2027, quando o novo sistema tributário começar a substituir gradualmente os tributos atuais, o setor terá de operar em um ambiente fiscal completamente diferente. Ainda há incertezas sobre a carga efetiva para serviços, segmento em que a hotelaria está inserida.

Historicamente, serviços tendem a enfrentar alíquotas mais altas em modelos de IVA. Isso gera preocupação entre empresários do turismo, que temem um aumento estrutural da carga tributária justamente em um setor intensivo em mão de obra e com margens operacionais frequentemente apertadas.

“Há um longo caminho pela frente, com muitas incertezas. Embora haja descontos de 40% para o setor hoteleiro, a folha de pagamento não gera crédito. Quem paga mais imposto tem menos capital para investir. Vejo muitos hoteleiros investindo em IA e tecnologia, alinhando processos internos para ganhar maior eficiência”, finaliza Dietze.

Guinato acrescenta que a recomposição do quadro de colaboradores segue como um desafio. Segundo o diretor, a hotelaria pode até ter recuperado sua mão de obra, mas a entrega ainda está aquém do esperado. “O recrutamento segue difícil para acelerar uma entrega compatível”, conclui.

O ano de 2026 pode ser interpretado como um ponto de inflexão para a hotelaria brasileira. Se, por um lado, o setor já superou o choque da pandemia e volta a registrar crescimento na demanda, por outro enfrenta uma profunda reconfiguração do ambiente tributário e financeiro.

Os hotéis que conseguirem combinar gestão financeira sofisticada, planejamento tributário e inovação em modelos de negócio terão maior capacidade de atravessar esse período de transição e se posicionar de forma competitiva para a próxima fase de crescimento do turismo no país.

Fonte: Hotelier News

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