A colunista Sofia Esteves escreve sobre a necessidade de escutar com profundidade o que essa geração realmente está dizendo e repensar a experiência oferecida enquanto empresa
16/03/2026
No ano passado, publiquei um artigo aqui, neste mesmo espaço, sobre a necessidade de entendermos o que está por trás da aversão da juventude à carteira de trabalho. Para quem não se lembra, em 2025, surgiram várias notícias e comentários sobre o que parecia ser uma ojeriza do público mais novo à CLT.
Sim, parecia. Isso porque essa história de que profissionais que estão chegando no mercado de trabalho rejeitam o que antes já foi objeto de desejo nacional e preferem, majoritariamente, empreender ou atuar como autônomos, não é bem assim.
De acordo com a pesquisa Carreira dos Sonhos, 59% das pessoas jovens respondentes afirmaram que o contrato CLT é o modelo de vínculo de trabalho mais atrativo. É verdade que a porcentagem é menor do que a média gestão (65% desse grupo indicou a CLT como o formato preferido), mas, ainda assim, fica difícil sustentar a tese de que toda a geração mais nova está fugindo desesperadamente daquele famoso “livrinho azul”. Principalmente se olharmos alguns recortes.
Por exemplo, considerando a divisão socioeconômica no Brasil, todos os grupos sinalizaram um interesse maior pelo contrato formal: 64% das classes AB elegeram esse modelo como o mais desejado, 65% da classe C e 60% das classes DE.
A história se repete quando olhamos para certa região do país. Segundo o levantamento, a representatividade de quem deseja uma carteira de trabalho para chamar de sua cresce consideravelmente quando analisamos respondentes jovens que estão no eixo Rio-São Paulo. Hoje, 72% deles apontam a CLT como o vínculo mais atrativo, enquanto 28% dizem que o empreendedorismo é mais interessante e 19% gostariam de um contrato como autônomo, freelancer e/ou projetos por tempo determinado.
Veja bem, não é que todos esses dados juntos estejam desconsiderando o desabafo da Geração Z no Instagram, YouTube e TikTok sobre os problemas da vida CLT. Essas estatísticas também não sugerem que as chamadas nos jornais e revistas estão totalmente equivocadas.
Existe, sim, um fenômeno sociocultural e uma discussão que precisa ser analisada cuidadosamente pelas empresas. No entanto, repare: esse debate diz respeito muito mais ao modelo associado à tradicional carteira de trabalho do que à aversão ao contrato em si.
Pode parecer uma diferença sutil, porém, não é.
Quando movimentos tão largamente debatidos em 2025 como o “anti-CLT” acontecem, precisamos resistir à tentação de interpretá-los de forma literal ou superficial, como se representassem uma rejeição definitiva ao emprego registrado.
Em vez disso, o caminho mais interessante é aprofundar o debate para entender se a crítica tem a ver com o objeto da discussão realmente ou com o que ele representa. Isso passa por compreender o que as pessoas esperam do trabalho e do sucesso profissional.
Nesse caso especificamente, a pesquisa mostra que a juventude de hoje associa ser bem-sucedida a qualidade de vida, reconhecimento, trabalho com significado e, adivinha, estabilidade financeira. Claro que um contrato CLT não é a única forma de conquistar esse último objetivo, no entanto, sabemos que é comum associar uma coisa à outra.
Diante disso, penso que o caminho para atrair talentos (seja no modelo CLT, seja PJ, seja por projetos ou contratos flexíveis) é muito mais sobre repensar a experiência de trabalho do que sobre defender um formato específico de vínculo. Ou seja, parece mais produtivo entender que o incômodo não está necessariamente relacionado a ter benefícios, chefe ou responsabilidades formais, e, sim, à ideia de cumprir horários rígidos, estar obrigatoriamente no escritório todos os dias e enfrentar longos deslocamentos até o trabalho, por exemplo.
Aliás, esses três fatores que citei podem muito bem aparecer em diferentes vínculos empregatícios, não só em uma experiência vinculada ao emprego formal.
Em resumo, sou da opinião de que o debate não deveria ser sobre “CLT versus empreendedorismo” ou “CLT versus qualquer outro formato”. Em vez disso, por que não discutir que tipo de relação com o trabalho estamos oferecendo? Que imagem de futuro estamos construindo? E como podemos tornar o trabalho em qualquer formato mais compatível com bem-estar,
O que os dados nos mostram não é realmente uma aversão generalizada da juventude ao vínculo feito com base na Consolidação das Leis do Trabalho.
Por trás de uma fala que questiona a vida CLT, existe uma crítica muito mais profunda, uma visão de mundo que rejeita um modelo de trabalho associado muitas vezes ao cansaço, à falta de autonomia e à insegurança quanto ao futuro. E isso merece ser ouvido com mais atenção, empatia e genuíno interesse a fim de garantir não somente o futuro de jovens profissionais, mas das próprias empresas.
Sofia Esteves é fundadora da Cia de Talentos, Bettha.com e Instituto Ser+
Fonte: Valor Econômico


