A negociação já conta com apoio de mais de 40% dos credores, segundo uma fonte a par do assunto
Por Mônica Scaramuzzo e Maria Luíza Filgueiras
10/03/2026
A Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, protocolou, na noite desta terça-feira (10), um pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial para negociar dívidas de R$ 65 bilhões com os principais bancos do país e “bondholders” (detentores de títulos internacionais). É o maior pedido de recuperação extrajudicial do país em curso, como mostra o Pipeline, site de negócios do Valor.
O valor negociado de dívidas da empresa só é menor que o da ex-Odebrecht (atual Novonor), de quase R$ 100 bilhões, e fica próximo ao da Oi, mas ambas entraram em recuperação judicial.
A negociação da Raízen já conta com apoio de mais de 40% dos credores, segundo uma fonte a par do assunto. Com isso, a companhia pediu a suspensão dos vencimentos por 90 dias e ganha tempo para preparar um plano de reestruturação para tentar reerguer o negócio, segundo uma fonte envolvida na negociação.
O formato é muito semelhante ao que fez a varejista GPA — uma RE com apoio relevante de credores mas ainda correndo atrás do percentual necessário. A rede entrou com pedido de recuperação extrajudicial ontem pela manhã.
A Raízen é assessorada juridicamente pelos escritórios de advocacia E. Munhoz, Pinheiro Neto, TWK e pelo banco Rothschild.
A companhia se tornou um poço do problemas para os principais acionistas desde 2024, quando a crise financeira se agravou e corria o risco de entrar em recuperação judicial. Nos últimos dias, os dois principais acionistas anunciaram uma capitalização de R$ 4 bilhões. Shell se comprometeu a colocar R$ 3,5 bilhões e Rubens Ometto, por meio da holding Aguassanta, outros R$ 500 milhões. A Cosan não vai participar diretamente do aporte.
Agora, com a recuperação extrajudicial em curso, a capitalização pode ser colocada em xeque e os credores podem pressionar os acionistas por um aporte maior, segundo uma fonte a par do assunto. A informação do protocolo de RE foi antecipada pelo colunista Lauro Jardim, do O Globo.
Em teleconferência com analistas ontem, Marcelo Martins, presidente da Cosan, afirmou que a proposta de capitalização de R$ 4 bilhões não seria suficiente para resolver a situação financeira da Raízen. Ele disse que o grupo colocou em discussão a possibilidade de separação dos negócios de açúcar e etanol da de distribuição de combustíveis, descartada pela Shell. “A não separação dos negócios é um problema na subsidiária.”
Para o executivo, os dois segmentos de negócios têm geração de caixa e alocação de capital distintas, e a separação ajudaria na sustentabilidade do negócio.
Mas a cisão dos dois negócios encontrou resistência da Shell, que prefere manter os ativos sob o mesmo guarda-chuva, apurou o Valor. A Cosan tentou negociar nos últimos meses um aporte de terceiros, incluindo o BTG, acionista do grupo desde o fim do ano passado, mas as conversas também não avançaram.
Se a nova capitalização de R$ 4 bilhões no grupo fosse realmente efetivada como foi proposta originalmente, a Cosan se tornará sócia minoritária da Raízen. Até então, os dois acionistas têm 44% cada um da companhia.
Com as negociações para futura reestruturação, o quadro acionário vai mudar totalmente, com a potencial conversão das dívidas de credores em ações, mas será uma longa discussão pela frente.
A expectativa é de que a companhia continue com o processo de venda de ativos. A empresa já se desfez de usinas de açúcar e etanol e empresas de energia distribuída, que não é considerado ativo estratégico do grupo.
A estratégia de expansão acelerada na Raízen, com projetos bilionários para plantas de segunda geração, tem sido apontada pelo mercado como um dos motivos que explicam a crise no grupo, segundo fontes. A alta taxa de juros também pesou na alavancagem do negócio.
Procurada pela reportagem, a companhia não retornou os pedidos de entrevista até o fechamento desta edição.
Fonte: Valor Econômico


