Compra de diesel russo pode crescer com fim de sanção

Especialistas acreditam que importações do produto podem crescer caso o governo dos EUA confirme fim do embargo aos derivados do país europeu
Por Kariny Leal
11/03/2026

O diesel russo manteve o domínio nas importações brasileiras do produto em 2025, conforme dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). Em 2026, nos dois primeiros meses do ano, essa realidade ainda se sustenta e, se os planos do presidente americano Donald Trump se concretizarem, esse volume pode aumentar.

Com a busca de Trump por ampliar a oferta de petróleo para conter a disparada das cotações, a retirada das sanções a produtos russos tem sido citada pelo republicano como uma alternativa. A medida já foi aplicada à Índia, que terá 30 dias para comprar petróleo russo sem sanção.

Na segunda-feira (9), depois de a cotação do petróleo Brent superar os US$ 100 por barril durante o dia, os preços despencaram após Trump dizer que o conflito estaria próximo do fim. Na terça (10), a commodity fechou em queda de 11,27%, a US$ 87,80 por barril.

Depois da fala de Trump, a Comissão Europeia pediu que os Estados Unidos mantenham as sanções ao petróleo russo, segundo a Reuters. Ministros das finanças dos países do G7 disseram estar prontos para liberar reservas estratégicas para ajudar a reduzir preços, uma vez que liberar as vendas russas poderia enfraquecer a Ucrânia e reforçar a capacidade do Kremlin de manter a guerra.

A alta do petróleo tem sido um fator de pressão para Trump, com o aumento dos combustíveis nas bombas e risco à inflação. O cenário é mais grave com a proximidade das eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, em novembro.

Caso Trump mantenha a decisão de retirar sanções sobre produtos russos para outros países, os fluxos podem mudar. Para o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), Roberto Ardenghy, a entrada do diesel russo no Brasil pode ser ampliada se as sanções forem suspensas.

“Hoje em dia, qualquer empresa que faça negócios com os Estados Unidos, mesmo que seja um empréstimo em um banco americano, pode ser prejudicada se comprar produtos russos”, afirmou o diplomata. “No Brasil, pequenas importadoras, com alcances regionais, têm importado diesel da Rússia, a preços competitivos.”

Segundo a ANP, as importações de diesel aumentaram 56,9% em dezembro de 2025 em relação a 2024. A parcela importada de diesel, em dezembro de 2025, representou 33,2% das vendas nacionais, acima de igual mês de 2024. Cerca de 47,1% das importações acumuladas em 2025 foram de origem russa.

Para Ardenghy, a liberação da Índia primeiro pode ampliar a concorrência pela alta dependência que o país tem das compras externas. “Ainda precisamos ver se as refinarias russas vão dar conta de atender um aumento de vendas e se vão conseguir manter os preços descontados. No ano passado, chegamos a ver diesel russo sendo vendido com deságio de quase 20% do valor praticado no mercado internacional”, disse o presidente do IBP.

Ardenghy disse que a possibilidade de liberação de reservas estratégicas por países do G7 irá ajudar a aliviar as cotações: “Esses países possuem grandes estoques. A China também está bastante estocada.”

O Brasil varia o volume importado de diesel a depender da demanda, que aumenta sazonalmente em períodos de colheita. Em média, 26% do diesel consumido no país são importados.

A maior parte da produção nacional é da Petrobras, que, em 2025, produziu 85,4% do total. A Refinaria de Mataripe, da Acelen, controlada pelo fundo Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos, veio na sequência, com 10,8%.

João Victor Marques, pesquisador da FGV Energia, avalia que a importação pelas grandes distribuidoras pode ocorrer, mas ainda depende da política de preços da Petrobras, que a princípio decidiu aguardar antes de ajustar preços. “Devemos considerar que mais países, sobretudo asiáticos, devem recorrer ao petróleo e derivados da Rússia, como alternativa ao bloqueio do Estreito de Ormuz, o que impõe mais concorrentes para o Brasil do lado da demanda pelo diesel russo”, disse.

Fonte: Valor Econômico

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