Guerra de retóricas tenta direcionar conflito além de bombardeios

Pela primeira vez os EUA bombardeiam no Estreito de Ormuz embarcações iranianas que instalariam minas contra o transporte de petroleiros. Mas apesar da guerra de retóricas sobre vitórias e derrotas, os preços do petróleo continuam caindo com possíveis negociações para o cessar-fogo
10/03/2026

No 11º dia do conflito do Oriente Médio deflagrado pelos ataques dos EUA e Israel ao Irã, os preços do petróleo continuaram em queda, chegando a bater a cotação de US$ 82 o barril do tipo Brent e fechando o dia a menos de US$ 90. O que agravou foi a guerra de retóricas sobre vitórias e derrotas na guerra, aumentando a insegurança global, com os primeiros bombardeios divulgados pelos EUA a embarcações iranianas no Estreito de Ormuz.

Durante a tarde desta terça-feira (10), o ministro da Guerra dos EUA e chefe do Pentágono, Pete Hegseth, sinalizou os novos ataques, afirmando em conferência de imprensa que o dia seria o mais intenso de ataques dos EUA ao Irã.

“Estamos esmagando o inimigo com uma demonstração avassaladora de habilidade técnica e força militar. Nós não vamos recuar até que o inimigo seja total e declaradamente derrotado. Faremos isso no nosso próprio cronograma e da maneira que escolhermos. Por exemplo, hoje será mais uma vez o nosso dia de ataque mais intenso dentro do Irã. O maior número de caças, o maior número de bombardeiros, o maior número de ataques. Inteligência mais refinada e melhor do que nunca. Por outro lado, nas últimas 24 horas, o Irã disparou o menor número de mísseis que foi capaz de disparar até agora.  

À noite, o Comando Central dos EUA divulgou vídeos do bombardeio a 16 embarcações iranianas no Estreito de Ormuz, que estariam carregando minas explosivas para interromper o transporte de petroleiros e navios de carga na região.

Ao longo do dia, o Irã voltou a fazer ataques aos países vizinhos do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Qatar e Kwait) e à Israel e reafirmou a narrativa de que os EUA estão sendo derrotados na guerra porque não conseguiram derrubar o regime em poucos dias como queriam e estão buscando uma forma saída, se referindo à previsão do presidente Trump na véspera de que o conflito estava prestes a acabar.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, disse em entrevista a veículos do seu país que o Irã não está buscando o cessar-fogo e que a guerra vai terminar quando o país quiser.

Mas a afirmação mais forte veio do secretário do Conselho de Segurança do Irã, Ali Larijani, que em postagem na rede social X sobre a promessa de Trump de eliminar alvos facilmente destrutíveis no país, escreveu que não tinha medo de ameaças vazias e que o presidente dos EUA é que devia tomar cuidado para não ser eliminado.

Apesar da troca de mensagens agressivas, a queda dos preços do petróleo nos mercados globais já podia estar refletindo negociações para liberar o Estreito de Ormuz, o principal motivo da alta vista na madrugada de segunda-feira.  

Notícias circularam na tarde de hoje dando conta de que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, conversou pelo telefone com o presidente do Irã após ter falado com Trump na segunda-feira (9) sobre o fim do conflito.

Perto das 15h, a agência de notícias russa Tass divulgou que navios de carga bloqueados no Golfo Pérsico começaram a cruzar o Estreito de Ormuz e a ancorar no Golfo de Omã, segundo dados de serviços online de rastreamento de navios analisados ​​por um correspondente da agência.

“Esses dados indicam que, no período entre 0h e 20h, horário de Moscou (9h e 17h GMT), pelo menos três navios-tanque e graneleiros com bandeiras das Ilhas Marshall, China e Madagascar cruzaram o Estreito de Ormuz em direção ao Golfo de Omã. Não foi detectado nenhum navio navegando na direção oposta. Não foi detectado nenhum navio navegando na direção oposta e cerca de 100 navios de carga estariam ancorados perto do porto omanita de Sohar”, informou a agência.

Em torno do mesmo horário, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, postou no X, e em seguida apagou, a informação de que os EUA haviam escoltado com sucesso um petroleiro pelo Estreito de Ormuz, mas a notícia foi negada pelo governo norte-americano.

Pressão sobre preços da Petrobras

Enquanto ainda não se tem certeza se um possível cessar-fogo possa estar sendo negociado entre os EUA, Rússia e Irã, no Brasil aumentou a pressão por aumento de preços da Petrobras para reduzir a defasagem dos seus preços internos em relação ao mercado internacional. A estatal, no entanto, está lucrando mais com a exportação de petróleo.

Segundo site Oil Price, que divulga as cotações dos preços do barril de petróleo em diferentes países, o barril do óleo do campo de Tupi, antigo Lula, fechou essa terça-feira cotado a US$ 99 o barril, acima do Brent.

Na Agência Brasil, a petrolífera informou que pode reduzir o impacto da alta do petróleo no Brasil ao mesmo tempo que mantém a rentabilidade da companhia.

“Em um cenário em que guerras e tensões geopolíticas ampliam a volatilidade do mercado internacional de energia, a Petrobras reafirma seu compromisso com a mitigação desses efeitos sobre o Brasil”, disse a estatal, em nota encaminhada à agência. A empresa explicou que é possível reduzir os efeitos da inflação global em decorrência da alta do petróleo porque a empresa passou a considerar, em sua estratégia comercial, as melhores condições de refino e logística.

“O que nos permite promover períodos de estabilidade nos preços ao mesmo tempo que resguarda a nossa rentabilidade de maneira sustentável. Essa abordagem reduz a transmissão imediata das variações internacionais para o mercado brasileiro”, diz o comunicado.  

A Petrobras acrescentou que, por questões concorrenciais, não pode antecipar decisões, mas que segue comprometida com atuação “responsável, equilibrada e transparente para a sociedade brasileira”

Segundo a diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos em Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), Ticiana Álvares, destaca que a capacidade da Petrobras de mitigar, ao menos em parte, os efeitos da alta do petróleo é possível porque a companhia abandonou, em 2023, a política de paridade do preço internacional (PPI). Essa política determinava a revenda de acordo com os preços globais.

“A política da Petrobras acompanhava 100% a trajetória dos preços internacionais. Essa política modificou e agora leva em consideração fatores internos, que é essa margem de manobra que a Petrobras tem”, disse a especialista.

Apesar dessa margem de manobra, Ticiana acrescentou que a ação da Petrobras tem efeito limitado e temporário, em especial, porque o Brasil ainda é um grande importador de derivados, como gasolina e diesel, além de ter refinarias privatizadas.  

Mas o governo cuidou de avisar ao mercado que está atento a possíveis movimentos especulativos com os preços dos combustíveis. O Ministério de Minas e Energia divulgou nesta terça-feira que

Com o prolongamento do conflito no Oriente Médio, o MME informou que intensificou o monitoramento das cadeias de suprimento globais de derivados de petróleo e da logística nacional do abastecimento de combustíveis, assim como os preços dos principais produtos.

Pela manhã, no Rio de Janeiro, ao participar de um workshop sobre gás natural na FGV Energia, o diretor geral da ANP, Arthur Watt, disse que a agência não está vendo gargalo físico para o abastecimento de mapeou falta estava vendo desabastecimento de combustíveis no mercado, mas confirmou que mandou equipes em campo no Brasil verificar as condições de abastecimento, incluindo no Rio Grande do Sul, de onde recebeu reclamações de falta de atendimento a produtores de arroz.

Fonte: Brasil Energia

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