Petróleo devolve alta e se afasta de US$ 100 após falas de Trump

Com alívio nos preços da commodity depois de intensa oscilação, dólar e juros tiveram forte queda e Ibovespa encerrou com ganhos
Por Gabriel Caldeira, Luana Reis, Bruna Furlani, Arthur Cagliari e Gabriel Roca
10/03/2026

Os sinais de escalada da guerra no Oriente Médio durante o fim de semana fizeram os mercados globais amanhecerem em modo de crise, movimento parcialmente revertido após o presidente dos EUA, Donald Trump, sinalizar, no final da tarde, que o conflito estaria “praticamente terminado”. Em menos de 24 horas, o petróleo foi da máxima de US$ 119,50, na noite de domingo, até a mínima de US$ 89 no pós-mercado de Nova York, na maior oscilação intradiária desde o início da pandemia. No Brasil, a virada nos mercados foi rápida. O dólar e os juros futuros fecharam o dia em queda firme e o Ibovespa avançou.

Com os preços do petróleo esbarrando na faixa dos US$ 120, nas máximas desde os primeiros meses da invasão da Rússia à Ucrânia em 2022, a aversão a risco chegou a acionar mecanismos de “circuit breaker” na Ásia, em um dia que prometia ser de perdas generalizadas para ações.

As agressões direcionadas à infraestrutura de energia no Golfo Pérsico tiveram prosseguimento no fim de semana. Assim, notícias de que o Kuwait e os Emirados Árabes se juntariam ao Iraque e passariam a reduzir sua produção de petróleo devido à falta de capacidade de armazenamento, à medida que o Estreito de Ormuz continua intransitável, ampliaram tensões no mercado e levaram os agentes a embutir nos preços um cenário de menor oferta de petróleo.

Segundo a equipe de estratégia de commodities do J.P. Morgan, os cortes relatados na produção, até este momento, totalizam pelo menos 3,5 milhões de barris por dia (mbd). “Até o fim da próxima semana, com o esgotamento dos estoques e a persistência dos gargalos, projetamos paralisações regionais de mais de 4 mbd”, apontam.

Na Coreia do Sul, o Kospi, principal índice local, chegou a cair abaixo de 8%, acionando o “circuit breaker”, antes de fechar em queda de 5,96%. O Nikkei, do Japão, recuou 5,2%. Na Europa, o Stoxx 600 recuou 0,67%.

Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management, acredita que os participantes do mercado parecem um tanto complacentes quanto aos preços do petróleo. “Há apenas uma semana, muitos investidores viam o petróleo a US$ 100 por barril como um cenário severo. Hoje, esses mesmos cenários severos já estão sendo deslocados para US$ 150 a US$ 200 por barril, e ainda assim a reação dos mercados praticamente não mudou”, afirma.

Para Shah, há uma crença amplamente difundida de que qualquer choque no petróleo será de curta duração. “Muitos investidores partem do pressuposto de que, uma vez que a pressão diminua, os preços do petróleo podem corrigir rapidamente, e os preços dos ativos se recuperariam com a mesma rapidez”, diz a estrategista, que questiona essa maneira de pensar.

No fim do dia, no entanto, com os mercados em Nova York ainda abertos, Trump sinalizou que a guerra com o Irã estaria próxima do fim, levando a uma recuperação generalizada dos ativos de risco. O S&P 500 terminou o pregão com ganhos de 0,83%, o Dow Jones avançou 0,50% e o Nasdaq subiu 1,38%, apagando as perdas registradas no início do dia.

A fala de Trump foi mais um sinal de que o mercado segue apostando em uma resolução rápida do conflito. Maior gestora global de ativos, a BlackRock nota que investidores seguem precificando o fim da guerra em semanas, e não em meses. “Isso parece razoável porque pressões econômicas e políticas provavelmente criarão fortes incentivos para conter o conflito”, dizem os estrategistas. “Além disso, as disrupções podem diminuir caso escoltas navais dos EUA consigam evitar o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz.”

No Brasil, a recuperação dos mercados após o sinal de Trump foi imediata. O dólar fechou em desvalorização de 1,52%, negociado a R$ 5,1643, após ter tocado os R$ 5,2854 pela manhã. O Ibovespa, por sua vez, subiu 0,86%, a 180.915 pontos, impulsionado pela alta nos papéis da Petrobras. As ações preferenciais da estatal avançaram 1,54%, enquanto os os papéis ordinários tiveram ganhos de 1,49%.

Os juros futuros também tiveram volatilidade intensa, à medida que os riscos de uma inflação mais alta contaminaram as curvas globais. No Brasil, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 recuou de 13,165% a 13,06%.

No momento de maior pressão do dia, o mercado chegou a especular até acerca da possibilidade de o BC sequer cortar a Selic no próximo dia 18. Em dado período da sessão, os investidores precificavam um corte de apenas 0,27 ponto percentual na semana que vem, ao passo em que as opções digitais de Copom colocavam o corte de 0,25 ponto como cenário-base, com chances similares tanto para a manutenção da Selic em 15% quanto para um corte maior de 0,5 ponto. Com a reviravolta provocada pelos comentários de Trump, a expectativa pelo corte de 0,5 ponto voltou a ganhar força e, ao fim do pregão, os investidores precificavam uma chance implícita de 50% para este cenário, contra 42% para o corte de 0,25

Segundo Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, um petróleo com preço médio de US$ 80 aumentaria o IPCA deste ano em cerca de 0,5 ponto, o que colocaria a inflação bem perto do teto da meta do Banco Central, de 4,5%. “O Brasil é um país que depende muito de transporte rodoviário, e por isso a alta do combustível afeta toda a cadeia. Seria um repasse [ao consumidor] bem relevante”, diz. Veronese pontua, no entanto, que é possível que a Petrobras. não precise repassar o custo da alta do petróleo caso a guerra se prove pouco duradoura. Neste cenário, ela ainda vê espaço para o BC cortar os juros em 0,5 ponto na semana que vem e levar a Selic à 12% no fim de 2026 – cenário-base da B.Side da eclosão da guerra.

No entanto, se o conflito voltar a pressionar os mercados e o petróleo flertar novamente com o nível de US$ 100, “não faz sentido o BC cortar a Selic em 0,5 ponto”, na visão de Veronese. Um cenário em que o Copom mantém os juros em 15%, por outro lado, parece bem improvável, afirma.

Passada a aversão a risco inicial provocada pela guerra, o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, afirma que o Brasil poderá se beneficiar de fluxos de investidores estrangeiros por ser um grande exportador de petróleo. “A reação de curto prazo é segurar e diminuir o risco. Mas, quando houver maior clareza sobre o cenário, quando pararmos de ter surpresas, o Brasil poderia se sair bem nessa história”, avalia. O economista vê o BC com bastante “margem de manobra” para reduzir a Selic mesmo com o estresse recente no petróleo devido ao atual patamar elevado dos juros. Sobral espera a Selic em 12,25% no fim do ano.

Ainda que o petróleo tenha subido bastante com a guerra, o economista justifica que a curva futura da commodity projeta que as cotações devem voltar a cair nos próximos dois anos, o que indica que o choque deve ser temporário. “O mercado não está precificando um deslocamento da oferta de petróleo no longo prazo”, aponta, o que deve ser levado em conta pelo BC.

Fonte: Valor Econômico

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