Custos nas bombas superam nível registrado no fim do governo Biden
03/03/2026
A guerra de Donald Trump contra o Irã fez os preços da gasolina nos Estados Unidos dispararem, enfraquecendo suas alegações de que estaria enfrentando a crise de custo de vida que corroeu sua popularidade.
O preço médio da gasolina comum saltou para US$ 3,109 por galão na terça-feira, acima do patamar registrado no fim do governo Biden e ante US$ 2,951 uma semana antes, segundo a associação automotiva AAA.
A alta nas bombas, provocada por interrupções no fornecimento global de petróleo bruto desencadeadas pelo ataque de EUA e Israel ao Irã e pela contraofensiva de Teerã, ocorre no momento em que Trump tenta convencer os americanos de que pode domar a inflação, com as eleições de meio de mandato se aproximando em novembro.
“O que aconteceu nas últimas 72 horas é altamente inflacionário”, disse Tom Kloza, analista da Gulf Oil. “Os preços da gasolina no domingo de Páscoa estarão bastante altos. Devem ficar entre US$ 3,25 e US$ 3,50.”
Kloza acrescentou: “Se você começa a mexer com a logística do petróleo e com instalações na Arábia Saudita e no Kuwait, está colocando na equação fatores que não víamos antes.”
Os preços da gasolina, que são os sinais mais tangíveis da inflação para muitos americanos, devem subir ainda mais nos próximos dias, à medida que os mercados atacadistas avançam. Os contratos futuros de RBOB subiram para US$ 2,50 por galão, ante cerca de US$ 2,30 no fim da semana passada.
Os preços também variam amplamente pelo país — de US$ 2,624 por galão em Oklahoma a US$ 4,674 na Califórnia, segundo dados da AAA. Ainda assim, permanecem bem abaixo dos picos superiores a US$ 5 registrados após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 e custam menos da metade do preço pago nos postos do Reino Unido.
Analistas afirmam que a perspectiva de novos aumentos no custo de um dos itens essenciais da vida da maioria dos americanos deve pesar nas preocupações das famílias com o alto custo de vida.
“Quarenta por cento da economia é composta por pessoas que não estão poupando e vivem de salário em salário e de outras fontes de renda”, disse Ed Morse, assessor sênior da Hartree Partners. “Se chegar a US$ 3,50 ou US$ 4, certamente terá impacto sobre uma grande parcela da população.”
Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, disse ao FT que as políticas do governo “levaram à maior produção de petróleo da história dos EUA, com ainda mais petróleo proveniente de nosso novo mercado e de acordos com a Venezuela”.
Leavitt acrescentou que o Departamento de Energia e o Tesouro “continuarão monitorando os mercados de petróleo e farão todo o possível para manter os preços estáveis e a América dominante em energia”.
A produção de petróleo dos EUA atingiu um recorde histórico sob Biden e avançou ligeiramente nos últimos meses, mas deve cair em 2026, segundo estimativas da Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), órgão do governo.
Trump deve se reunir ainda na terça-feira com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e com seu homólogo no Departamento de Energia, Chris Wright.
A economia americana é menos vulnerável a um choque nos preços do petróleo do que a europeia. Dados da EIA mostram que os EUA importaram apenas 17% de sua energia em 2024 — a menor proporção em 40 anos.
Muitos analistas esperam que os preços se moderem até que os americanos vão às urnas em eleições que determinarão se o Partido Republicano de Trump manterá o controle do Senado e da Câmara dos Representantes.
Qualquer aumento da inflação — e eventual enfraquecimento do consumo — decorrente de um período prolongado de gasolina cara poderia ser compensado pela alta nos lucros dos produtores de energia dos EUA.
“Os Estados Unidos estão exportando quase tanto quanto a Arábia Saudita. Eles não querem que os preços do petróleo disparem? Querem, sim. Vai prejudicar inicialmente o pessoal em Chicago. Mas assim que o pessoal no Texas enriquecer, vai comprar coisas do pessoal em Chicago”, disse Jeff Currie, diretor de estratégia para transição energética da Carlyle.
Pesquisas sobre a crise de petróleo e gás desencadeada pela invasão russa da Ucrânia em 2022 mostraram que os ganhos obtidos pelos produtores de energia não foram distribuídos de forma igual.
O 1% mais rico da população dos EUA acabou recebendo mais de 50% dos lucros extraordinários das empresas de energia decorrentes daquela alta específica de preços, segundo um estudo publicado em setembro de 2025.
“Se alguma coisa, [os EUA] se tornaram um exportador e produtor de combustíveis fósseis ainda mais poderoso desde 2022. E, claro, suas grandes petrolíferas atuam globalmente. Então acho que [os acionistas americanos] estão ainda mais bem posicionados para tirar proveito agora”, disse Gregor Semieniuk, professor da Universidade de Massachusetts e um dos autores do estudo. “A distribuição de riqueza não muda da noite para o dia.”
Se o conflito se prolongar além das quatro a cinco semanas previstas por Trump, o impacto sobre os preços da gasolina também frustraria as expectativas do presidente de cortes nos custos de empréstimos antes das eleições de meio de mandato.
Dados da CME mostram que os mercados agora precificam uma probabilidade menor de mais de dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, atualmente entre 3,5% e 3,75%, em comparação com antes do ataque de EUA e Israel ao Irã.
“Preços mais altos da gasolina estão pressionando em um momento em que os efeitos das tarifas e da inflação persistente em serviços ainda estão presentes. Acrescentar mais inflação nesta fase — quando já estamos há cinco anos com inflação acima da meta de 2% do Fed — é preocupante”, disse Diane Swonk, economista-chefe da KPMG nos EUA.
“Estagflação não é algo impossível”, acrescentou Swonk, referindo-se à situação em que os preços sobem ao mesmo tempo em que o crescimento desacelera.
Fonte: Valor Econômico



