Setor de energia ainda não está preparado para a revolução tecnológica, diz PwC

25/02/2026

Apesar da iminência da abertura do mercado livre de energia a todos os consumidores, que deve demandar adoção de tecnologias avançadas de medição e pode abrir portas para ofertas personalizadas, o setor de energia no Brasil está mais distante da inovação do que outras atividades econômicas.

Segundo pesquisa da PwC, no Brasil, 47% dos líderes em energia e utilidade pública veem a inovação como um componente crítico da estratégia de negócios.  O montante é inferior à média do próprio país incluindo outros setores da economia, que chega a 56%, e inferior à média global no setor de energia e utilidades, que é de 52%, indica a pesquisa.

“Historicamente, é um setor mais tradicional, em muitos segmentos é regulado, o que o torna um pouco mais lento para avançar em sistemas de inovação”, diz o sócio e líder da indústria de Energia da PwC Brasil, Daniel Martins. Para ele, o resultado da pesquisa indica que o setor “talvez não esteja preparado para a revolução que está por vir”.

Ele avalia que as mudanças estruturais no segmento foram discretas nas últimas décadas, mas hoje já há tecnologias que possibilitam repensar processos.  Como exemplo, ele menciona os smart grids, cuja implementação ainda engatinha no país apesar de ser objeto de discussão no setor há muito tempo.

“Posso até ter alguma tecnologia de monitoramento, mas a maior parte dos processos do dia a dia é executada do jeito que a gente sempre executou há 20 anos”, diz ele, lembrando que, globalmente, a tecnologia de smart grids já possibilita reparos remotos. “Esse tipo de inovação vai mudar [os processos do setor] de uma forma muito estrutural”, avalia.

A pesquisa da PwC também indica que as lideranças brasileiras em energia têm maior aversão ao risco tecnológico do que em outros setores: apenas 13% dos líderes brasileiros em energia e utilidade pública toleram os riscos em projetos de inovação, enquanto a média do país é de 20%. Globalmente, 23% das lideranças do setor são tolerantes aos riscos, e o percentual sobre para 25% considerando outros setores da economia.

Mesmo assim, o levantamento mostra que a tecnologia já vem possibilitando mudanças nos negócios do setor, e 50% dos líderes em energia e utilidades públicas avaliam que nos últimos cinco anos passaram a competir em outros mercados.  Martins explica que o fenômeno reflete indústrias como biocombustíveis, que integra agronegócio e energia, a entrada de empresas de óleo e gás em geração renovável e a atuação de empresas do setor financeiro na comercialização de energia.

“O avanço tecnológico começou a reduzir a fronteira entre as indústrias, a possibilitar que determinadas empresas e segmentos começassem a enxergar valor ou intermediar determinados processos. Ou de utilizar a sua base de clientes para conseguir gerar valor a partir de um outro segmento, um outro modelo de negócio, explicou.

Setor de energia se preocupa mais com mudanças climáticas

A pesquisa da PwC também indicou uma maior preocupação com mudanças climáticas no setor de energia do que em outros mercados. No Brasil, 23% dos líderes em energia e utilidade pública veem as mudanças climáticas como ameaça ao negócio, enquanto a média global do setor é de 22%. Considerando outros setores, no Brasil, cerca de 18% dos líderes empresariais veem as mudanças climáticas como ameaça e, no mundo, a proporção é de apenas 13%.

Martins comenta que o setor de energia já é muito próximo de questões climáticas e transição energética. Mesmo assim, o especialista avalia que ainda há espaço para aprofundar processos sobre o tema, especialmente em relação a eventos climáticos extremos.

Ações de curto prazo

A pesquisa também indicou que os temas de curto prazo (próximos 12 meses) respondem por 56% da agenda dos líderes em energia e utilidade pública no Brasil, enquanto globalmente a média do setor é de 47%. Já as ações de médio prazo (1 a 5 anos) são responsáveis por 33% da agenda das lideranças do setor no Brasil, e de 36% das lideranças no mundo. Para longo prazo (5 anos ou mais), o planejamento ocupa cerca de 11% da agenda usual de líderes no Brasil, e de 16% das agendas do setor no mundo.

Para Martins, a maior atenção do setor ao curto prazo no Brasil reflete questões como incerteza política e alto custo de capital, que faz com que o curto prazo seja muito relevante no retorno sobre investimento. “Eu encaro sem surpresa essa indicação, embora seja um setor de longo prazo”, diz.

Fonte: Mega What

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